Sempre será melhor pensar duas vezes antes de tomar decisões

Por Roger Lowenstein | BloombergBusinessweek

Daniel Kahneman: na mente, portas secretas e conexões defeituosas

Nos últimos anos, acadêmicos vem tentando romper as amarras da teoria, longamente aceita, de que as pessoas, em sua vida econômica, se comportam como robôs calculistas, sempre tomando decisões racionais. Argumenta-se que, longe de serem os agentes racionais dos livros-texto, com frequência as pessoas são incoerentes, sentimentais e tendenciosas. Os pioneiros nesse campo não foram economistas, e sim os psicólogos israelenses Daniel Kahneman e Amos Tversky. Tversky morreu em 1996; seis anos depois, Kahneman ganhou o prêmio Nobel de Economia.”Thinking, Fast and Slow”, novo livro de Kahneman, contém muita coisa familiar para aqueles que acompanham essa discussão no mundo da economia, mas também tem muito a dizer sobre como pensamos, reagimos e chegamos – melhor, saltamos – para conclusões.

O que mais interessa a Kahneman são as maneiras previsíveis como os erros de julgamento acontecem. Sintetizando décadas de suas pesquisas, assim como as de seus colegas, Kahneman apresenta uma arquitetura da maneira como se tomam decisões – um mapa da mente que se parece com uma máquina muito bem ajustada, com, infelizmente, algumas notáveis portas secretas e conexões defeituosas.

Os teóricos comportamentais, Kahneman incluído, vêm catalogando erros sistemáticos das pessoas e comportamentos ilógicos há anos. Alguns dos exemplos que ele cita: 1. Pessoas submetidas a testes apresentam uma propensão maior a optar por uma cirurgia se informadas de que a taxa de “sobrevivência” é de 90%, em vez de informadas de que a taxa de mortalidade é de 10%. 2. As pessoas tentam evitar sentir-se arrependidas. Assim, investem mais dinheiro e tempo em um projeto com resultados duvidosos, em vez de desistir e admitir que estavam erradas. 3. A maioria dos participantes das pesquisas preferiu receber US$ 46 que são uma certeza, em vez de ter 50% de chance de ganhar US$ 100. Um agente racional aceitaria a aposta. Extraordinariamente, e por motivos parecidos, jogadores de golfe se saem melhor quando sabem que um erro os deixaria uma tacada atrás. Por mais instigantes que sejam esses exemplos – repetidamente, reconhecemos nossas inclinações – o maior feito de Kahneman é construir um modelo sobre como, ou por quê, a mente raciocina da maneira como o faz.

Acreditamos que pensamos por nós mesmos, mas muitas de nossas opiniões simplesmente ratificam respostas automáticas

Você pode sentir um espasmo de dúvida, como eu senti, quando apresentado pela primeira vez a essa ideia central – usando duas “personagens” fictícias, às quais ele se refere como Sistema 1 e Sistema 2. Deixe a dúvida de lado por um momento.

O Sistema 2 é sua mente consciente, que pensa. Concebemos essa consciência ativa como o ator principal, o “decisor” de nossas vidas. O Sistema 2 pensa lentamente; ele considera, avalia, justifica. Seu trabalho exige esforço mental. Atribuímos a maioria de nossas opiniões e decisões a esse camarada pensante e lógico. Para Kahneman, porém, o principal protagonista é o Sistema 1. Esse é o agente de nossas respostas mentais automáticas e fáceis. O Sistema 1 pode somar números de um dígito e completar a frase “arroz com…….”. Ele é equipado com um quadro sutil do mundo, produto da memória acumulada e padrões de associação aprendidos (“Flórida/ pessoas velhas”), que lhe permitem emitir uma série de reações, julgamentos, opiniões. O Sistema 1 pode detectar o tom de raiva em uma voz pelo telefone; forma julgamentos instantâneos sobre pessoas que conhecemos, candidatos a presidente, investimentos que possamos estar considerando.

O defeito dessa máquina admirável é que o Sistema 1 trabalha com a quantidade de informações que tem, por menor que ela seja. Se não consegue responder à pergunta “a ação da Ford é um bom investimento?”, ele fornece uma resposta baseada em dados relacionados, mas não relevantes, como se você gosta ou não dos carros da Ford. O Sistema 1 simplifica, confirma – ele procura, e acredita que vê, coerência narrativa num mundo sempre aleatório. Não realiza feitos complicados de avaliações lógicas ou estatísticas.

Você toma conhecimento de um atentado terrorista e quer evitar ônibus e trens; somente se você para um pouco, coloca em uso as ferramentas do Sistema 2, percebe que as chances de ser vítima de um atentado terrorista são muito pequenas. A força de vontade exige empenho; ela é uma característica do Sistema 2. Em uma experiência, crianças de 4 anos que conseguiram esperar para comer um biscoito saíram-se melhor em testes de QI realizados dez anos mais tarde. Kahneman sugere que a capacidade de mudar para o Sistema 2 é sinal de uma “mente ativa” e um indicador de sucesso.

Esse modelo é notavelmente eficiente na descrição de como pensamos. Acreditamos que pensamos por nós mesmos, mas muitas de nossas opiniões simplesmente ratificam nossas respostas automáticas.

Talvez Kahenam seja menos convincente no tratamento que dá ao mundo dos negócios. Observando que até mesmo os melhores em seus ramos – incluindo o esporte- eventualmente tendem a reverter para o mediano, ele atribui o sucesso, em grande parte, à sorte. Isso confunde os eventos que podem não ser previsíveis com aqueles que são determinados pelo acaso. Uma loja comercial de alto desempenho, para citar um de seus exemplos, não é um caso de sorte – ela é bem situada. Se suas vendas caírem, isso não será necessariamente um sinal de que seu sucesso anterior se deu por acaso. Os negócios têm um ciclo autocorretivo, que estimula uma reversão para o mediano. O sucesso atrai competidores.

Alguns leitores poderão achar que o universo de Kahneman é exageradamente cartesiano, árido de intuição humana. Ele recomenda o uso de fórmulas até para prever o valor futuro de vinhos. Mesmo assim, “Thinking, Fast and Slow” é pródigo em lições sobre como superar as propensões no dia-a-dia. Kahneman aconselha o leitor a “reconhecer os sinais de que está em um campo minado cognitivo, deve reduzir o ritmo e pedir reforço do Sistema 2.

“Thinking, Fast and Slow”

Daniel Kahneman. Farrar, Straus and Giroux. 499 págs., US$ 30,00

Fonte: Jornal Valor Econômico – 22/11/2011 – página D10

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