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Selic cai, mas Brasil ainda é o maior pagador de juros do mundo

quarta-feira, novembro 30th, 2011

Para tirar o país do topo do ranking, o Banco Central precisaria levar a Selic a 8% ao ano

Eduardo Tavares, de Exame.com

Divulgação/Banco Central

Decisão do Banco Central não foi suficiente para tirar o Brasil do primeiro lugar isolado no ranking dos maiores pagadores de juros reais do mundo

São Paulo – O Banco Central (BC) reduziu pela terceira vez consecutiva a taxa básica de juros da economia brasileira. A queda, porém, não foi suficiente para tirar o Brasil do primeiro lugar no ranking dos maiores pagadores de juros reais do mundo.

Segundo levantamento do estrategista-sênior da corretora do Banco Cruzeiro do Sul, Jason Vieira, se o país quiser deixar a colocação ingrata, seria preciso cortar a Selic em 3,5 pontos percentuais, levando a taxa a 8%.

Com a Selic atual, a taxa brasileira, descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses é de 5,1%. Assim, o Brasil segue líder disparado do ranking, com juros reais que são praticamente o dobro do segundo colocado, a Hungria. (Veja infográfico com os juros reais nas principais economias).

No levantamento feito pela Cruzeiro do Sul Corretora, é possível observar também que, por causa da crise internacional, vários países estão com juro real negativo. A média dos 40 países pesquisados é de -1%.

Fonte: Cruzeiro do Sul Corretora

Posição

País

Taxa real

Brasil 5,1%

Hungria 2,5%

Indonésia 1,5%

Chile 1,5%

México 1,3%

China 1,0%

Rússia 1,0%

Austrália 1,0%

Colômbia 0,7%

10º

Taiwan 0,6%

11º

Japão 0,3%

12º

Polônia 0,2%

13º

Suíça 0,1%

14º

Israel 0,0%

15º

Malásia -0,4%

16º

África do Sul -0,5%

17º

Coreia do Sul -0,6%

18º

Argentina -0,6%

19º

Tailândia -0,7%

20º

Filipinas -0,7%

21º

Suécia -0,9%

22º

França -1,0%

23º

Alemanha -1,1%

24º

Holanda -1,3%

25º

Espanha -1,6%

26º

Grécia -1,7%

27º

Dinamarca -1,8%

28º

Turquia -1,8%

29º

República Tcheca -1,8%

30º

Canadá -1,8%

31º

Áustria -2,1%

32º

Itália -2,1%

33º

Índia -2,3%

34º

Bélgica -2,5%

35º

Portugal -2,8%

36º

Estados Unidos -3,1%

37º

Inglaterra -4,3%

38º

Hong Kong -5,0%

39º

Cingapura -5,1%

40º

Venezuela -7,4%

Média dos 40 países -1,0%

Fonte: Portal Exame

http://exame.abril.com.br/economia/noticias/selic-cai-mas-brasil-ainda-e-o-maior-pagador-de-juros-do-mundo

Ex-campeã de juros, Turquia é espelho para o Brasil

segunda-feira, setembro 12th, 2011

Por Alex Ribeiro | De Washington

Antiga campeã mundial dos juros altos, a Turquia reduziu as suas taxas a níveis mais civilizados nos últimos três anos, aplicando um misto de políticas ortodoxas e heterodoxas. Agora, o país é visto como um exemplo a ser seguido pelo Brasil, que iniciou um ciclo de afrouxamento monetário no começo do mês. A dúvida é se a própria Turquia conseguirá manter os juros baixos por muito tempo.

“Como o Brasil, a Turquia cortou os juros contra as expectativas da maioria das pessoas”, afirma ao Valor Timothy Ash, analista baseado em Londres do Royal Bank of Scotland (RBS). “Mas estamos vivendo tempos excepcionais, e os juros de longo prazo na Turquia serão significativamente mais altos do que os níveis atuais.”

A Turquia surpreendeu os economistas quando promoveu, entre 2008 e 2009, um ciclo de corte de juros de 10,25 pontos percentuais, baixando a sua taxa básica de 16,75% para 6,5% ao ano. Na época, muitos analistas achavam que, para evitar fuga de capitais e combater a inflação, os turcos seriam obrigados a apertar a política monetária.

Em fins do ano passado, outra surpresa: apesar dos sinais de forte aquecimento da economia, a Turquia resolveu cortar levemente os juros, em vez de subi-los. O objetivo maior foi conter a enxurrada de capitais estrangeiros que invadia o país.

Hoje, os juros estão em 5,75% ao ano, depois de um novo corte em agosto, desta vez justificado pelos riscos de desaceleração mundial global. E vão cair mais. O consenso entre os analistas econômicos é que, daqui para o fim do ano, serão feitos mais um ou dois cortes de 0,25 ponto percentual cada.

“O Brasil é a próxima Turquia?”, perguntou o Bank of America Merrill Lynch em relatório distribuído a clientes há duas semanas, pouco antes de o BC brasileiro cortar de surpresa o juro básico da economia, de 12,5% para 12% anuais. “Alguns anos atrás, Brasil e Turquia estavam competindo pelas maiores taxas reais de juros do planeta”, notou o relatório.

Alguns desconfiam que o BC baixou juros atendendo à pressão do primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, que disputou eleições gerais há três meses. “As decisões de política monetária na Turquia são um tanto políticas”, afirma Tatha Ghose, analista baseado em Londres do Commerzbank. “Não consideramos o Banco Central da Turquia muito independente.”

Ghose estima que a taxa de juros de equilíbrio (taxa que não acelera a inflação) da Turquia esteja em torno de 10% ao ano. Em tempos de demanda mais fraca, os juros podem ficar temporariamente mais baixos do que isso, na casa dos 8% ao ano. Quando a economia estiver mais aquecida, subiriam um pouco acima disso, na casa dos 12%. Ou seja, passados esses tempos excepcionais, os juros vão subir.

De qualquer forma, os juros caíram de forma definitiva em relação ao patamar próximo de 17% ao ano observado antes da crise de 2008. Há alguns meses, economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgaram um estudo que investiga como a Turquia foi capaz de relaxar a política monetária em tempos de crise, em vez de restringi-la, como costumava fazer.

A conclusão é que a eficácia da política monetária aumentou depois de uma série de reformas bastante ortodoxas implementadas a partir de 2001, quando a economia turca passou a ser comandada por Kermal Dervis, um respeitado economista que chegou a ser cotado para ser diretor-gerente do FMI em substituição a Dominique Strass-Kahn. O receituário incluiu a adoção de um regime de câmbio flutuante, do sistema de metas de inflação e de regras fiscais mais sólidas.

Com uma equipe econômica diferente, hoje os juros reais são negativos na Turquia, e só chegaram a esses patamares porque recentemente o BC turco deu uma guinada mais heterodoxa. O discurso do BC é que, além da estabilidade de preços, a política monetária deve zelar pela estabilidade financeira.

Os juros muitos altos, segundo explicações oferecidas no relatório de inflação do BC turco, estavam tornando o país muito atrativo para os capitais estrangeiros, levando à apreciação cambial e deixando a economia vulnerável a choques externos. Foi necessário baixar os juros para romper esse ciclo, diz o BC, contrariando a cartilha ortodoxa que diz que os juros só mexem para controlar a inflação.

De fato, a lira turca sofreu uma desvalorização relativamente forte, perdendo perto de 20% de seu valor ante o dólar em um ano. Mas analista ponderam que a moeda turca não caiu exatamente pelos juros mais baixos, mas sobretudo porque foram divulgados dados que revelavam um déficit em conta corrente de 10% do Produto Interno Bruto (PIB).

“Uma parte desse déficit é causado pelo aumento do preço do petróleo”, afirma Ash, do RBS. “Mas também é resultado do forte aquecimento da economia.” O núcleo de inflação também subiu bastante e hoje está em 6,5%, acima da meta, fixada em 5,5%.

No fim, porém, os cortes de juros se mostraram um tanto premonitórios, já que agora a economia turca corre o risco de se desacelerar em virtude do agravamento da crise na Europa e nos Estados Unidos. “No ano passado, a Turquia estava crescendo até mais rápido que a China”, afirma Ghose. “A não ser que você soubesse que a economia mundial teria uma segunda desaceleração, o que ninguém sabia naquele período, você deveria estar normalizando suas taxas de juros.”

Fonte: Jornal Valor Econômico – 12/09/2011 – página C3