Posts Tagged ‘finanças comportamentais’

Não dependa da intuição para tomar decisões

quarta-feira, junho 20th, 2012

Para Daniel Kahneman, Nobel de Economia, é um grande risco tomar decisões usando a área preguiçosa e irracional do cérebro

Bruno Ferrari, de Exame

Francisco Martins/EXAME.com

São Paulo – Suponha que em uma maternidade nasçam seis bebês em sequência. A probabilidade de nascer aleatoriamente meninos e meninas é menor, igual ou maior do que a de nascer somente meninos ou somente meninas? A maioria das pessoas costuma responder que a chance de nascer crianças dos dois sexos é maior.

A resposta é intuitiva, porém incorreta. A probabilidade de nascer seis homens é a mesma para seis mulheres, que também é a mesma para o nascimento de quatro mulheres e dois homens ou qualquer outra combinação.

A explicação é estatística: a chance de cada bebê gerado ser do sexo masculino ou do feminino é de 50%. Logo, não há como estabelecer um padrão mais provável para qualquer tipo de sequência.

O teste dos bebês, que costuma aparecer em provas de recrutamento em bancos, mostra como a intuição pode levar o ser humano a cometer erros nas decisões diárias. Outras dezenas de testes similares são apresentadas pelo psicólogo israelense Daniel Kahneman, de 78 anos, em seu livro Thinking, Fast and Slow (“Pensando, rápido e devagar”, numa tradução livre).

A obra, que deve ser publicada no Brasil no segundo semestre deste ano, abrange as principais fases das pesquisas de Kahneman, ganhador do prêmio Nobel de Economia em 2002 por seus estudos dedicados às finanças comportamentais. A maior parte do trabalho de Kahneman tem a coautoria do também israelense Amos Tversky, morto em 1996, vítima de câncer.

Kahneman e Tversky foram cruciais para que houvesse uma importante mudança no estudo da economia. Historicamente, a teoria econômica se baseou no conceito do Homo economicus, segundo o qual as pessoas tomam decisões racionais motivadas pelos próprios interesses.

Diante de um ambiente de incertezas, os indivíduos analisariam as informações disponíveis com base em padrões estatísticos e escolheriam o melhor caminho possível.

O trabalho de psicólogos da linha cognitiva, como Kahneman e Tversky, ajudou a mostrar que as pessoas tomam decisões baseadas em questões objetivas, mas são igualmente influenciadas por suas emoções, crenças e intuições.

O que mais explicaria os casos de famílias que passam pela experiência de ver a renda diminuir drasticamente e, ainda assim, continuam comprando produtos caros no supermercado? Ou daquelas que ganham cupons de desconto de um supermercado distante, decidem dirigir até lá e acabam gastando em combustível um valor superior ao que vão ganhar na promoção?

Foram justamente as pesquisas de Kahneman e Tversky que serviram de base para um novo entendimento dos mercados financeiros, com suas características flutuações que desafiam a lógica.

Um dos textos mais notáveis da dupla de pesquisadores foi escrito para a revista Science, em 1979, com o título “Teoria do Prospecto: uma Análise das Decisões em Situações de Risco”.

Nele, mostram que, intuitivamente, as pessoas sentem mais desprazer em perder determinada quantia de dinheiro do que prazer em ganhá-la. Com base em testes, eles mostraram que as pessoas normalmente aceitam fazer apostas se o valor que puderem ganhar for, em média, o dobro do que podem perder.

Feelings

A espinha dorsal de Thinking, Fast and Slow é a divisão que o autor faz da mente humana em dois componentes, chamados de sistemas. O sistema 1 toma decisões rápidas, de maneira intuitiva e sem esforço, baseadas em nossa memória associativa (é o Fast). Já o sistema 2, mais lento, é acionado quando nos encontramos em uma situação que exija concentração (é o Slow).

É o sistema 1 que nos faz, por exemplo, lembrar do número 4 quando vemos a operação 2+2= ?. Já o sistema 2 assume o comando quando nossa memória não tem recursos suficientes para dar uma resposta automática. É um sistema mais lento, que nos tira mais energia. Por exemplo, quando deparamos com a conta 17×24= ?.

Num teste com alternativas, o sistema 1 nos permite identificar que se trata de uma multiplicação e eliminar resultados extremos, como 12 609 ou 123. Mas é o sistema 2 que nos possibilita chegar ao resultado correto: 408. Como o sistema 2 deman­da esforço e concentração, em alguns casos delegamos ao sistema 1 a tarefa de resolver situações de conflito.

Mas, como logo aprendem os investidores que subestimam dados estatísticos por acreditar no feeling, a intuição é mais falível. Afinal, é tão provável o nascimento em sequência de cinco meninas do que as outras opções, embora isso não seja visível para a maioria.

Por isso, Kahneman avisa: “Aprenda a reconhecer as situações mais suscetíveis a enganos e evite a intuição se fizer uma aposta alta”. Siga a intuição — mas cuide de seu dinheiro.

Fonte: Portal Exame

http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1018/noticias/nao-dependa-da-intuicao-para-tomar-decisoes


Mercado é coisa da sua cabeça

sexta-feira, dezembro 9th, 2011

Novos modelos tentam explicar o comportamento de consumidores e investidores com conceitos emprestados da neurociência. Por Diego Viana | De São Paulo

Roberto Nejme

 

O vocabulário dos economistas começa a ganhar novos termos, na tentativa de explicar as flutuações dos mercados e o comportamento dos investidores. Oxitocina e testosterona, mesencéfalo e córtex frontal orbital, palavras recorrentes na linguagem dos neurocientistas, começam a circular entre um grupo de pesquisadores ainda pequeno, mas em expansão: os neuroeconomistas.

A neuroeconomia é um ramo da economia comportamental que vai além dos experimentos psicológicos, como os que valeram ao psicólogo israelense Daniel Kahneman o prêmio Nobel de Economia em 2002. Os pesquisadores desse ramo mergulham no próprio funcionamento do cérebro humano, armados de um aparelho que ocupa uma sala inteira: a máquina da ressonância magnética funcional. Mais usada para encontrar indícios de tumores e outras moléstias na massa encefálica, a ressonância também revela a reação do sistema neurológico a estímulos típicos da interação econômica: o risco, o medo de perder, o incentivo de ganhar, o gosto pelas apostas, a preferência por produtos.

As pesquisas neuroeconômicas são razoavelmente recentes (datam dos anos 1990) e seus resultados, ainda tímidos, mas o campo já anima alguns economistas da “velha escola”. Um exemplo notável é Robert Shiller, da Universidade Yale, célebre por trabalhos em economia comportamental e informação assimétrica. Shiller considera que a teoria econômica poderá ser revolucionada muito em breve pela neuroeconomia. O livro que suscitou os comentários otimistas de Shiller é “Foundations of Neuroeconomic Analysis” (Fundamentos de Análise Neuroeconômica), de Paul Glimcher, neurocientista e, mais tarde, economista pela Universidade de Nova York. O título é uma citação, algo provocativa, a outra obra capital da teoria econômica: “Fundamentos de Análise Econômica”, de Paul Samuelson (1915-2009).

“O modelo do agente racional perde a validade se as pessoas têm expectativas diferentes do puro ganho monetário”, diz Angela Stanton

Segundo Shiller, acostumados a lidar com as escolhas dos consumidores e investidores com o nome de “preferências reveladas”, os economistas se tornaram capazes de driblar a “caixa preta” de uma mente insondável – a expressão é de Stanley Jevons e foi cunhada ainda no século XIX. Na fórmula de Milton Friedman (1912-2006), as complexas equações que quantificam utilidades e expectativas funcionariam “como se” revelassem o que ocorre dentro da cabeça das pessoas.

A contribuição da neuroeconomia seria passar do “como se” para o “como é”, a tal ponto que as leis mais básicas da economia, essas que regem os mercados e, para os críticos, explicam a surpresa dos economistas perante a crise que começou em 2008, seriam reescritas. Na verdade, discursando para a Sociedade de Neurociências dos EUA no mês passado, Shiller chegou a afirmar que essa revolução já começou.

Mas até que ponto pode-se dizer que a neuroeconomia explica melhor os fenômenos do mercado que a economia como ela é feita tradicionalmente? Por enquanto, o que os neuroeconomistas descobriram é que os critérios de tomada de decisão são muitas vezes diferentes do que se lê nas formulações da teoria. Em vez de maximizar os ganhos, o cérebro busca fugir dos perigos; em vez de buscar o dinheiro para poder adquirir bens, o cérebro trata o dinheiro da mesma forma que os alimentos, o sexo e a sede. No plano emocional, obtê-lo é como saciar a fome, por exemplo.

Ramin Talaie/Bloomberg

Segundo o economista Robert Shiller, de Yale, os estudos de neuroeconomia são o início de uma revolução na teoria econômica

Um estudo da neurocientista Elizabeth Phelps, da Universidade de Nova York, revela que as pessoas que negociam com dinheiro dos outros, isto é, os corretores, têm muito menos aversão à perda do que aquelas que colocam suas próprias economias no circo das finanças. A aversão à perda foi descoberta em 1979 pelos pesquisadores comportamentais israelenses Daniel Kahneman e Amos Tversky: a mente humana não é feita para ganhar dinheiro, mas para sobreviver aos riscos da selva, então vencer é menos importante do que não perder.

O motivo para uma menor aversão à perda diante de investimentos alheios pode ser encontrado no funcionamento do cérebro. (Nesse estudo, além do cérebro, foi medida a resposta galvânica da pele, que revela o nível de excitação de um indivíduo.) Descobriu-se que nossas próprias posses e as de outras pessoas são registradas pelo sistema neurológico como duas coisas completamente diferentes. Uma pessoa trata seus bens como uma parte de si própria; os alheios, como um objeto perfeitamente racional. Assim, as opções de risco, em que se busca maximizar o ganho, ativam a parte do cérebro conhecida como córtex pré-frontal ventromedial. Já as opções seguras, que buscam minimizar as perdas, ativam os neurônios do córtex insular.

Daí o título do estudo: “Pensar Como Um Corretor Reduz a Aversão à Perda”, sugerindo que mercados com negociantes profissionais têm um dinamismo muito diferente daqueles menores, onde cada um entra com o seu. Até hoje, nada na teoria econômica apontava nessa direção.

Diante do Congresso dos EUA, em 2009, o ex-presidente do Fed (o banco central americano) Alan Greenspan revelou-se surpreso com a descoberta de que os grandes bancos e as corretoras de valores não se responsabilizavam por evitar riscos para os investimentos de seus clientes. “Descobri que havia uma falha na minha teoria, que durante décadas pareceu funcionar perfeitamente”, admitiu. A partir das pesquisas neuroeconômicas, pode-se dizer que a diferença de tratamento entre investimentos próprios ou de terceiros não podia ser prevista pela teoria microeconômica tradicional.

Com as preferências reveladas, os economistas se tornaram capazes de driblar a “caixa preta” de uma mente insondável

Por outro lado, os pesquisadores que falaram ao Valor foram unânimes em advertir que é preciso evitar excessos, como atribuir a crise econômica a qualquer fenômeno emocional ou hormonal, como a já célebre expressão “cobiça corporativa” (empregada pelo próprio Greenspan em 2002, muito antes da quebra do banco Lehman Brothers). “É muito estranho atribuir emoções a um agregado como as corporações”, diz Roberto Lent, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “As corporações são as ações das pessoas que estão dentro delas”, afirma Angela Stanton, da Universidade Claremont. “E claramente o sistema é desenhado de maneira a incentivar as pessoas a buscarem todo o lucro possível.”

Para Paul Glimcher, as falhas que levaram à crise dos subprimes não estão tanto no comportamento individual – “os executivos têm sido sistematicamente fustigados em Washington porque deram muito lucro às suas empresas, mas esse é o trabalho deles!” – mas nas falhas estruturais do sistema. “O desenho geral dos mercados é malfeito e não contempla direito o medo, a incerteza e o conhecimento imperfeito. Isso não é uma questão neuronal, é a estrutura que não funciona”, diz Glimcher. Ainda assim, o cientista espera que seu campo de estudos tenha muitas contribuições a dar em breve. “Dentro de cinco anos, acredito que teremos desenvolvido modelos que proponham mudanças no desenho dos mercados para incorporar tudo isso.”

Outro alvo dos estudos neuroeconômicos é o dinheiro. Na teoria econômica tradicional hegemônica, ele não tem valor próprio, a não ser a possibilidade de adquirir bens. Mas o cérebro humano tem uma relação própria com o valor do dinheiro. “Ele é um valor que o cérebro usa como todos os outros valores: comida, sexo, brinquedos, sono, exercício”, diz Angela Stanton, que organizou o volume “Neuroeconomics and the Firm”, que investiga a relação entre o cérebro e o funcionamento das empresas. “Em outras palavras, o dinheiro é uma ferramenta do prazer”, que ativa uma área do cérebro contida no mesencéfalo.

Luciana Whitaker/Valor

Ao fazer suas escolhas em situações de dúvida e risco, o cérebro ativa áreas vinculadas ao planejamento e ao medo, explica Roberto Lent, neurologista da UFRJ

Os neuroeconomistas buscam entender as consequências desse tratamento do dinheiro. Ao descobrir que mesmo em pessoas com perfis muito diferentes o dinheiro acionava os mesmos mecanismos de busca e aversão ao risco, o laboratório de Paul Glimcher,em Nova York, tentou descobrir que tipo de relação uma pessoa manteria com o dinheiro quando estivesse com muita fome. “O mais interessante é que a fome faz com que as pessoas, por mais diferentes que sejam suas atitudes normalmente com relação ao risco, se tornem mais ou menos iguais. Elas convergem para uma aversão moderada ao risco”, diz Glimcher. “Pensamos: isso deve ter implicações macroeconômicas! Precisamos encontrar algum mercado em que a variação do nível de fome seja variável para ver o que acontece.”

“Um dos membros do laboratório é árabe”, relata o pesquisador. “Foi ele quem sugeriu observar o que acontece com as bolsas dos países do Oriente Médio durante o Ramadã.” No Ramadã, mês sagrado da religião muçulmana, os fiéis passam todo o dia, do amanhecer até o pôr do sol, sem comer. Ao se debruçar sobre os dados tirados das negociações no período, os neuroeconomistas se depararam com um fenômeno conhecido como “efeito Ramadã”.

“De fato, nesse período, a variação dos preços nos mercados árabes quase desaparece. Os preços realmente variam muito pouco”, diz Glimcher. “Nenhum dos investidores quer arriscar. Ninguém tinha sido capaz de explicar convincentemente por que isso acontece. Agora podemos dizer que a resposta está no hipotálamo, que regula as atitudes perante o risco”, conta o neurocientista. E acrescenta: a partir dessa descoberta, vai ser possível desenvolver um modelo econômico que leve em consideração a fome dos agentes na hora de investir.

O cérebro trata o dinheiro da mesma forma que os alimentos, o sexo e a sede. No plano emocional, obtê-lo é como saciar a fome

No campo oposto, economistas como Colin Camerer, do California Institute of Technology (Caltech), George Lowenstein, da Universidade Carnegie-Mellon, e Drazen Prelec, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), se perguntam se a alta remuneração dos executivos e corretores do mercado financeiro americano não teriam relação com o cérebro, com os hormônios e neuropeptídios que nele agem. “Assim como as drogas mais viciantes, as premiações abstratas em dinheiro proporcionam prazer e são desejáveis mesmo se o dinheiro não for usado, de verdade, para o consumo”, escrevem os economistas.

É lícito supor, diz o trio, que, se ganhar dinheiro é prazeroso, perdê-lo deve ser doloroso, no fenômeno conhecido como “pay-of-payment”, ou “dor de pagar”. Daí fenômenos como as vendas casadas, os programas de milhagem, os produtos incluídos em pacotes como se fossem gratuitos.

Apesar dos elogios que recebeu de Shiller, Paul Glimcher busca esfriar o entusiasmo do economista. Não só o objetivo dos neuroeconomistas, segundo Glimcher, não é romper com a teoria econômica tradicional, mas incrementá-la, como “Shiller fala como se a neuroeconomia fosse uma coisa nova, mas já temos diversos laboratórios, revistas especializadas e uma Sociedade de Neuroeconomia com centenas de membros”, diz.

Além de diversas universidades americanas, são encontrados departamentos de neuroeconomia respeitáveis na França (Insead), na Suíça (Zurique), na Alemanha (Instituto Max Planck, Jena; Freie Universität, Berlim), Taiwan (Chengchui) e outros países. No Brasil, os laboratórios do Instituto D’Or, no Rio de Janeiro, têm pesquisas neuroeconômicas conduzidas pelo neurocientista Jorge Moll Neto.

Ap

Os experimentos em neuroeconomia empregam instrumentos como a ressonância magnética para medir as áreas ativadas no cérebro

As pesquisas com teor mais químico da neuroeconomia envolveram, até agora, a oxitocina, neuropeptídio que favorece a generosidade e o altruísmo; a testosterona, considerado o hormônio masculino e vinculado, entre outras coisas, a comportamentos agressivos; a vasopressina, popularmente conhecida como hormônio antidiurético; e a dopamina, neurotransmissor estimulante e responsável pela sensação de prazer.

“Por enquanto, é só isso”, diz Angela Stanton. “Por enquanto! Vamos ter de entender o impacto econômico de todos [com ênfase nesta palavra] os hormônios que circulam nos nossos corpos. São eles que fazem de nós o que somos.” Para a economista, tudo que fazemos pode ser medido em termos de hormônios. “Para usar a fórmula do jornalismo, se soubermos o como, o quê e o quando dos hormônios, saberemos o quem.”

Roberto Lent sublinha um possível conflito entre a nova linha de economistas e as escolas já instaladas. É certo que o uso da ressonância magnética possa revelar os impactos emocionais, por exemplo, de determinados produtos e embalagens na subjetividade dos consumidores. Daí o sucesso de um ramo da neuroeconomia, o neuromarketing, que já enseja a criação de diversas pequenas empresas de pesquisa.

Mas para fenômenos mais amplos da interação econômica, Lent considera discutível que impulsos neurais possam explicar questões com forte conteúdo social, cultural e conjuntural. “O social parte do biológico como o astronômico parte do átomo, mas quem vai dizer que podemos explicar os fenômenos astronômicos por estudar os átomos?”

Embora concorde que é preciso ter cuidado ao aproximar campos distintos, Glimcher considera que o namoro da neurologia com a economia pode produzir um rebento saudável. Ele lembra do surgimento da teoria das ondas, de Werner Schödinger, que fundiu a física e a química – “hoje, as duas ciências são mais confiáveis e robustas” – e do surgimento da bioquímica – “os biólogos diziam que seria impossível explicar qualquer fenômeno biológico com o DNA, mas hoje a biologia é pura genética”.

A oxitocina foi, até agora, o hormônio que deu mais resultados para a neuroeconomia, principalmente nos trabalhos de Paul Zak, da Universidade de Claremont. No experimento que ficou conhecido como “jogo do ultimato” (com uma variação conhecida como “jogo do ditador”), um indivíduo recebe dos cientistas uma certa quantia e é instado a oferecer uma parte dessa quantia a outro indivíduo. Se o segundo aceitar, a divisão é feita e ambos guardam o dinheiro. Se recusar, os cientistas recolhem a quantia e ninguém ganha nada.

Os economistas comportamentais já tinham descoberto que raramente um indivíduo toma a atitude esperada do homo economicus: oferecer e aceitar um valor muito baixo. Nos experimentos, as ofertas se aproximavam de 50% e valores abaixo de 20% eram sistematicamente rejeitados. Faltava uma explicação para o fato com uma sólida base teórica. Os neurocientistas dizem poder oferecer essa explicação com base em hormônios como a oxitocina.

Quanto maior o volume desse hormônio (na verdade um neuropeptídio) no sangue, maior o altruísmo e a capacidade de empatia com os outros jogadores. Injetando quantidades variáveis do hormônio nos sujeitos do experimento, descobriram que era possível estabelecer uma correlação entre os valores oferecidos ou aceitos, de um lado, e a carga hormonal, do outro. Com isso, torna-se possível derivar uma fórmula matemática que, partindo de atitudes altruístas, se afaste do paradigma do homo economicus. “O modelo do agente racional perde a validade se as pessoas têm expectativas diferentes do puro ganho monetário”, diz Angela Stanton.

A “revolução neuroeconômica” antevista por Shiller não será, porém, tão radical quanto pode parecer, como adverte a própria Angela Stanton. O altruísmo e a generosidade podem ser medidos como formas de ganho pessoal também, embora não em termos monetários. “A questão é simplesmente redefinir o que entendemos por ‘ganho pessoal'”, diz. Ela dá o exemplo dos missionários que abandonam tudo para se embrenhar na mata e converter pessoas à sua fé. “À primeira vista, são abnegados, mas também é verdade que elas ganham uma recompensa na forma de hormônios de autossatisfação.”

Fonte: Jornal Valor Econômico – EU&FIM DE SEMANA, 09, 10 e 11/12/2011 – página 10-14

Cuidado, as instituições financeiras querem treinar o seu cérebro

terça-feira, outubro 18th, 2011

Bancos apelam para técnicas de finanças comportamentais. Por Margaret Collins e Ben Steverman | Bloomberg

Se perder a cabeça significa mudar de um título do Tesouro dos Estados Unidos de três meses de prazo para um Certificado de Depósito de um ano, você provavelmente está sofrendo da Síndrome da Cautela Irracional (IPS, na sigla em inglês), uma condição não patológica mas disseminada, resultante da exposição excessiva aos mercados voláteis.

A IPS é caracterizada pela aversão extrema a ações e pela vontade incontrolável de encher de dinheiro os colchões garantidos pelo governo, seja um Certificado de Depósito (CD), um título do Tesouro ou mesmo uma conta corrente. Se não for tratada, a IPS pode levar a um mundo de investidores mais pobres e consultores frustrados.

Trata-se de uma síndrome que as instituições financeiras temem e que estão determinadas a curar. Isso poderá significar investigar a “personalidade financeira” de um cliente. Ou poderá envolver a criação de cestas de investimentos “baseados em metas”, com o grau de risco de cada parcela de dinheiro personalizado de acordo com a importância da meta – a faculdade de um filho, as férias, a aposentadoria – e o quanto ela está distante.

Emoções levam aplicador a erros como comprar na alta, vender na baixa e manter ações em queda em vez de conter as perdas

Outra técnica para fazer os clientes aumentarem seus investimentos é uma forma de terapia de choque: rodar uma fotografia atual de um cliente em um programa de envelhecimento progressivo para mostrar qual será a aparência dele na aposentadoria – cabelos grisalhos, queixo duplo e coisas assim.

Depois de verem seus portfólios irem mal nos últimos anos, os investidores estão céticos com as promessas de rendimentos. No marketing financeiro, “sempre há como se distanciar da pressão por desempenho quando há uma queda do mercado”, afirma Mercer Bullard, professor associado de direito da Universidade do Mississipi e fundador do Fund Democracy, um grupo que defende os interesses dos investidores. “As firmas também estão tentando tirar as pessoas dos investimentos em cash (ativos de alta liquidez e prazo curto), para levá-los de volta para as ações.”

Isso, é claro, seria lucrativo para as firmas. Bullard não vê a situação de uma maneira tão cínica: “Outro motivo de eles estarem fazendo isso é que eles estão tentando se certificar de que as pessoas tenham o nível certo de ações para que elas não percam as calças com a queda do valor do dinheiro ao longo do tempo”, diz.

Instituições financeiras como o Bank of America Merrill Lynch, Barclays Wealth, JP Morgan Chase e Allianz Global Investors estão cada vez mais usando as finanças comportamentais – o estudo de como predisposições inconscientes influenciam as decisões financeiras –para fortalecer suas relações com os clientes e descobrir quais produtos oferecer a eles.

O uso das finanças comportamentais poder ajudar os investidores a conseguir retornos melhores no longo prazo

Segundo as finanças comportamentais, nossas emoções nos levam a exaurir nossos portfólios com atitudes como comprar na alta, vender na baixa e manter ações em queda em vez de eliminar nossas perdas. E agora, via internet, podemos implementar todas as decisões rápidas que queremos com facilidade e custo baixo, sem nenhum divisor entre nós e nosso dinheiro para impedir essas transações danosas. As instituições financeiras afirmam que os investidores precisam entender melhor sua verdadeira tolerância ao risco – e de um portfólio que possam sustentar em meio ao giro do mercado.

O movimento em direção a uma ajuda financeira mais terapêutica dos consultores também está aparecendo no exame que as pessoas fazem para obter a designação de Analista Financeiro Juramentado (CFA). O currículo de 2012 do CFA Institute inclui seções polpudas sobre finanças comportamentais e mais ênfase nos objetivos de longo prazo e no estabelecimento de uma força psicológica para evitar o pânico nas quedas do mercado.

Armado desse treinamento, o consultor CFA pode muito bem investigar os clientes sobre como eles reagiriam em cenários hipotéticos, ou pedir que eles mantenham um “diário de investimentos” em que eles relacionam os motivos das decisões de investimentos tomadas. Se a força de vontade financeira dos clientes enfraquecer, eles podem recorrer à sua argumentação, o que poderá acalmá-los ou mostrar “as limitações de nossa capacidade de fazer boas previsões financeiras”, afirma Stephen Horan, diretor de private wealth do CFA Institute.

O Barclays Wealth tem feito um grande esforço na área de finanças comportamentais. A instituição quer essa ciência “profundamente embutida” na maneira como ela faz negócios com os clientes ricos, afirma Greg Davies, diretor de finanças comportamentais e quantitativas da firma. “Ela precisa ser instilada a conta gotas em todas as reuniões com clientes.”

Após desenvolver um esforço de finanças comportamentais no Reino Unido, o Barclays voltou suas atenções para o treinamento de staff em seus 14 escritórios nos Estados Unidos no ano passado. Sua principal ferramenta é uma “avaliação de personalidade financeira” – uma série de 36 declarações que os clientes prestam ao analisarem uma de cinco respostas que vão de “concordo plenamente” a “discordo totalmente”. Exemplos disso são “temo pelo pior”, “fico estressado facilmente” e “apliquei uma grande soma em um investimento arriscado apenas pela excitação de ver se ele iria ganhar ou perder valor”.

Davis afirma que o uso das finanças comportamentais ajuda os clientes a conseguir retornos melhores no longo prazo. “É difícil medir o sucesso”, acrescenta ele, por que às vezes os clientes deliberadamente partem para os ativos menos arriscados e de menor desempenho, para que fiquem mais emocionalmente confortáveis com suas carteiras e menos propensos a tomar decisões ruins.

Uma das maneiras que algumas instituições financeiras usam para tentar fazer os clientes poupar é dar um rosto a essas economias. O Centro de Finanças Comportamentais da Allianz Global Investors, lançado em junho de 2010, vai fornecer aos consultores ferramentas como softwares de envelhecimento progressivo para o uso com clientes. Eles mostram qual será a aparência de um cliente em sua idade de aposentadoria. “Se eles conseguirem se conectar consigo mesmos no futuro, eles irão economizar mais dinheiro”, afirma Cathy Smith, diretora-adjunta do centro.

As firmas também estão tentando se conectar melhor com os investidores através de produtos que imitam a “contabilidade mental” natural deles. A maioria das pessoas divide o dinheiro em “cestas mentais” reservadas para determinadas coisas – viagens ou a escola dos netos, por exemplo – e estudos acadêmicos têm mostrado que simplesmente fixar uma meta específica a uma cesta de dinheiro pode aumentar muito os valores que uma pessoa economiza.

O Bank of America Merrill Lynch está formando esses portfólios com metas específicas para seus clientes super-ricos. As certeiras de seu novo programa “gestão de fortunas baseada em metas” vai assumir riscos proporcionais à importância das metas. Por exemplo, as metas essenciais ou “obrigatórias” são bancadas com portfólios que assumem menos riscos que as carteiras voltadas para metas arbitrárias, afirma Anil Suri, diretor de analítica de investimentos do Bank of America Merrill Lynch.

Num sinal do agito em torno das finanças comportamentais, enquanto a maioria dos fundos de ações perdeu dinheiro em agosto, alguns fundos que usam a abordagem comportamental ganharam ativos. O Intrepid Funds do JP Morgan, que usa princípios das finanças comportamentais para escolher ações, viu os ativos que administra cresceram de US$ 5,8 bilhões no fim de 2008 para US$ 11 bilhões em 31 de maio. Esse crescimento foi 38% maior que o de todos os fundos de ações, segundo o Investment Company Institute (ICI). Entre 1º de agosto e 19 de agosto o Intrepid Funds fez captações líquidas de US$ 28 milhões.

Christopher Blum, diretor de investimentos do grupo de finanças comportamentais da JP Morgan Asset Management para os Estados Unidos, diz que o pânico e a volatilidade dos últimos anos vêm dando mais força ao fato de que os mercados podem ser conduzidos pela emoção. Isso está mostrando que os investidores que agem de acordo com as oportunidades (como comprar com base em dicas) e se atêm às suas regras de investimento “mesmo que elas não pareçam certas”, diz ele.

As finanças comportamentais explicam a razão pela qual os investidores tendem a injetar dinheiro nos mercados quanto eles sobem, retirar quando eles caem e se saem melhor quando seguem um curso firme de investimentos regulares. É “a montanha-russa emocional dos investidores”.

As instituições financeiras também estão se esforçando mais para erradicar as propensões comportamentais de seus funcionários. A Cabot Research usa um software baseado em conceitos desenvolvidos por Terrance Odean, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, para analisar todas as decisões tomadas pelos administradores.

Com base numa computação pesada – a avaliação de um portfólio é feita por 100 computadores e demora três dias -, a Cabot identifica erros comuns, como manter ações por muito tempo, e monitora as carteiras para ter certeza de que os erros não serão cometidos novamente. O presidente-executivo Michael Ervolini diz que os negócios estão aquecidos. A firma monitora 49 portfólios que contam com um total de US$ 600 bilhões, contra 13 portfólios há dois anos.

O cliente da Cabot Joel Fortney, um analista especializado em finanças comportamentais na Principal Global Investors, uma gestora de ativos que administra US$ 239 bilhões, diz que a ênfase nas finanças comportamentais está melhorando os investimentos da firma. Ela também desperta o interesse de potenciais clientes, afirma Fortney. “É uma medida de suas habilidades como investidor”, afirma ele. “Se você não estiver a par desses tópicos, provavelmente será uma vítima deles.”

Fonte: Jornal Valor Econômico – 18/10/2011 – página D3

Neuroeconomia busca desvendar a cabeça do investidor

segunda-feira, setembro 12th, 2011

Por Nikhil Hutheesing | Da Bloomberg

Kahneman: estudos sobre a irracionalidade dos investidores inspiraram a criação das finanças comportamentais

John Coates, um pesquisador sênior de neurociências e finanças da Universidade de Cambridge, tem uma teoria. Ele diz que haveria menos bolhas e crashes no mercado de ações se mulheres e homens mais velhos conduzissem a maioria dos negócios. “Há menos diversidade no mundo financeiro que no militar”, ironiza ele. “Em Wall Street, temos uma parcela da população – homens jovens – conduzindo os pregões. Isso leva a um comportamento extremo: eles ficam selvagens.”

Isso não é bom para as ações. Tal comportamento provavelmente contribuiu para o crash da internet em 2000 e o crash de 2008-2009, alimentado pelas hipotecas subprime. Portanto, Coates, que passou 12 anos negociando derivativos de renda fixa para o Goldman Sachs e o Deutsche Bank em Nova York, está agora examinando os hormônios dos operadores, em busca de pistas sobre o grau de risco que as mulheres e os operadores mais velhos se dispõem a assumir.

Em 2007 Coates dirigiu-se a um pregão e recolheu repetidas vezes amostras de saliva de 250 operadores, a maioria homens jovens. Ele constatou que no período da manhã, quando seus níveis de testosterona estão altos, a confiança dos operadores também é alta. Na medida em que fazem negócios bem-sucedidos, seus níveis de testosterona sobem ainda mais, levando a lucros na parte da tarde.

Pesquisadores rastreiam regiões do cérebro para entender o que leva algumas pessoas a ter mais apetite por risco

Os homens jovens começam a se sentir infalíveis, assumindo um comportamento cada vez mais arriscado, como comprar ações a preços sobrevalorizados. Mas, em algum momento, testosterona demais e um excesso de julgamentos equivocados levam os mercados a níveis de alta insustentáveis. Então o ciclo termina. As ações sobrevalorizadas sofrerão um crash e os níveis de testosterona voltarão ao normal. “A testosterona é a molécula que explica a exuberância irracional”, afirma Coates. “Uma certa quantidade de testosterona pode ser saudável, mas o excesso pode levar a uma bolha.”

Para a maioria dos pesquisadores que trabalham com a neurociência, o “Santo Graal” é descobrir como regenerar os neurônios do cérebro. Tal feito ajudaria os cientistas a acabar com doenças como o mal de Parkinson e o mal de Alzheimer. Mas outros estão usando as técnicas desse campo em crescimento nas finanças comportamentais, que por si só é uma mistura de economia com psicologia. O resultado é um novo campo chamado neuroeconomia, que tenta explicar como as pessoas gerenciam riscos e por que elas sempre tomam decisões irracionais.

A importância das emoções não é nenhuma novidade. Benjamin Graham, considerado o pai do “value investing”, certa vez disse: “Os indivíduos que não conseguem dominar suas emoções estão mal adaptados para lucrar com o processo de investimento”. Mas as principais teorias do campo hoje conhecido como finanças comportamentais foram desenvolvidas por Richard Thaler, professor de economia e ciências comportamentais da Booth School of Business da Universidade de Chicago, e Daniel Kahneman, da Universidade Princeton, cujos trabalhos sobre essas questões, com o falecido Amos Tversky, lhes renderam o Nobel em Ciências Econômicas em 2002.

Kahneman e Tversky constataram que as pessoas sofrem mais com a perda de dinheiro do que sentem prazer ganhando dinheiro. Portanto, elas tendem a se agarrar a ações perdedoras, ao invés de vendê-las e evitar uma perda maior.

A irracionalidade também pode assumir a forma de um afeiçoamento emocional a um determinado ativo. R. J. Weiss, o fundador de 26 anos do blog Gen Y Wealth, recentemente postou que foi pego em uma armadilha de comportamento. Quando seu avô faleceu, ele herdou ações que eram negociadas a US$ 25. As ações caíram para US$ 20, US$ 10 e depois para US$ 5, mas Weiss não conseguiu se desfazer do presente que recebeu do avô. Finalmente, em abril, ele vendeu as ações por US$ 3,04, arcando com uma perda de 90%. “O tempo todo que o mercado caía eu sabia que manter as ações era a coisa errada a ser feita, mas eu não conseguia vendê-las”, escreveu Weiss.

Dan Ariely, um economista comportamental do Massachusetts Institute of Technology (MIT), diz que as pessoas precisam ser cautelosas com essa irracionalidade, e que talvez seja até mesmo preciso estabelecer mecanismos que impeçam as pessoas de agir de maneira imprudente. “Sabemos que precisamos criar um mecanismo que impeça as pessoas de enviar mensagens de texto pelo celular enquanto estão dirigindo”, afirma Ariely. “Mas, no mercado, não estamos levando em conta o caráter humano, e isso está nos levando para o mau caminho.”

Primeiro, porém, os neuroeconomistas precisam entender o papel da emoção nas tomadas de decisões. Brian Knutson, um neurocientista da Universidade Stanford, e Camelia Kuhnen, uma professora de finanças da Kellog School of Management da Northwestern University, rastreiam os cérebros dos investidores enquanto eles tomam decisões de compra e venda. Eles constataram que os investidores com o maior apetite pelo risco aumentam a atividade cerebral em uma área chamada núcleo acumbente. Esta é a parte que é ativada em um animal quando ele encontra comida, ou em um predador quando ele parte para uma caçada.

Ao mesmo tempo, há um aumento da dopamina, responsável pela sensação de bem-estar. Ela inunda nosso cérebro quando antecipamos algo prazeroso ou excitante como ouvir música, fazer sexo ou pular de paraquedas. Um aumento da dopamina pode levar os investidores a adotar comportamentos de risco.

Os investidores que são mais avessos ao risco – e menos inclinados a comprar uma ação em grande demanda – mostram um aumento da atividade em uma parte diferente do cérebro, a ínsula anterior, que tem um papel muito importante em emoções como ansiedade e dor. Ela é a parte que é ativada quando sentimos o cheiro de um ovo podre ou o silvo de uma cobra. “Ao desconstruir os motivos que levam os investidores a ficarem entusiasmados, e por que eles fazem o que fazem, vamos desenvolver ferramentas que poderão ajudar as pessoas e tomar decisões melhores”, afirma Knutson.

Uma das ferramentas em que Knutson está trabalhando é uma maneira de ajudar a impedir os investidores de se tornarem vítimas de fraudes financeiras. Knutson, cujo trabalho é bancado pela Financial Industry Regulatory Authority (FINRA), está usando a tecnologia de imagens cerebrais para ver o que acontece quando os investidores são seduzidos por golpistas. Ele diz que pode parecer que as vítimas são simplesmente pessoas ignorantes. No entanto, pode ser que as vítimas sejam pessoas cujos cérebros ficam tão animados com os ganhos em potencial que não conseguem evitar a tomada de risco. Ou talvez essas vítimas não sintam medo. Suas constatações poderão levar a uma ferramenta para salvaguardar os investidores.

Para onde tudo isso vai? Talvez um dia investidores e operadores tenham um dispositivo biométrico conectado aos seus computadores. Ele poderá escanear o córtex pré-frontal do cérebro, determinar os níveis de testosterona e medir a quantidade de suor nas palmas das mãos em microssegundos, antes de alertar você para não fazer determinado negócio. Ou as pesquisas atuais poderão resultar em medicamentos que tornarão as pessoas mais racionais.

“Dentro de poucas décadas, medicamentos que reforçam o desempenho serão uma parte integrante de nosso mundo”, afirma Hersh Shefren, professor de finanças comportamentais da Santa Clara University. “No momento isso é ficção científica, mas a ficção científica sempre acaba virando ciência.” (Tradução de Mario Zamarian)

Fonte: Jornal Valor Econômico – 12/09/2011 – página D3

 

Como ganhar na Bolsa sem perder a cabeça

segunda-feira, maio 9th, 2011

Economista comportamental explica como evitar que as emoções acabem com os planos do investidor de ganhar na bolsa e poupar para a aposentadoria

Marcela Ayres, de Exame.com

Wikimedia Commons

Aversão à perda faz com que o investidor segure o papel além da conta

São Paulo – Imagine-se diante de um alimento que contenha 10% de gordura e outro que seja 90% livre dela. Se você for como a maioria das pessoas, não hesitará em optar pelo segundo, ainda que na prática eles contenham rigorosamente a mesma quantidade de gordura. Para especialistas em finanças comportamentais, esse tipo de comportamento norteia decisões de compra que vão da gôndola do supermercado ao mercado de ações.

Segundo o ganhador do prêmio Nobel de Economia de 2002, Daniel Kahneman, são duas as vias pelas quais opera a mente humana. De um lado, há o caminho reflexivo, analítico, que exige um esforço cognitivo. De outro, a intuição fornece julgamentos rápidos e sem nenhuma interferência do consciente.

Esses atalhos mentais são familiares e, por isso, acabam sendo acatados naturalmente. Deriva daí a ideia de que ser livre de gordura é muito mais vantajoso que contê-la – sejam quais forem as proporções aí envolvidas. Em estudo encomendado pela Allianz Global Investors, o economista comportamental Shlomo Benartzi, da Universidade da Califórnia, explica como esses “caminhos” podem atrapalhar as decisões dos investidores.

Segundo ele, no topo dos sentimentos que governam as intuições humanas, está a resposta hipernegativa à perda. “Falando psicologicamente, a dor de perder 100 dólares é aproximadamente duas vezes maior que o prazer de ganhar a mesma quantia”, escreve. Transposto para o mercado financeiro, esse temor explicaria porque as pessoas têm tendência de segurar ações que estão dando prejuízo por muito tempo, acreditando numa reviravolta improvável.

Do outro lado da moeda, uma tímida valorização já seria suficiente pra muita gente se desfazer dos papéis, inebriados pela gratificante sensação de colher algum lucro. “O erro está em não olhar o portfólio como um todo. Os investidores analisam cada ação separadamente, tomando decisões a partir dessas realidades percebidas individualmente”, afirma Benartzi.

Para o estudioso, a aversão à perda também faz com que os investidores relutem em tomar decisões de mudança. “A inércia está em jogo quando sabemos que deveríamos começar um programa de exercícios ou uma poupança para a aposentadoria, mas protelamos essa decisão porque achamos difícil dar o primeiro passo hoje”, diz o especialista.

Em suma, focamos muito mais no que podemos perder do que naquilo que podemos ganhar. E se abrir mão de uma fatia do salário de agora para uma velhice que parece tão longínqua exige muito do investidor, Benartzi dá dicas de como driblar esse impulso de procrastinação.

O passo a passo se baseia em estudos realizados pelo economista Richard Thaler, da Universidade de Chicago, que orienta os investidores a traçar um planejamento financeiro que exija um pré-comprometimento futuro. Isso porque apesar de adiarmos decisões imediatas, temos facilidade em imaginar sua execução no futuro. Afinal de contas, quem nunca prometeu cumprir as famosas resoluções de Ano Novo?

O segredo para poupar mais é aumentar sistematicamente a quantidade de dinheiro reservado diante de qualquer aumento do salário. Assim, a parcela que o investidor leva para casa nunca sofrerá uma diminuição, evitando que ele seja exposto ao sentimento de perda.

Além disso, essa taxa de contribuição deve continuar crescendo à medida que ele subir na carreira. A possibilidade de abandonar o plano a qualquer momento também aumenta o apelo à adesão. “O simples fato de poderem fazer isso, deixa os investidores mais confortáveis a respeito da possibilidade de poupar”, emenda o economista Shlomo Benartzi.

Seguindo exatamente essas diretrizes, uma companhia de médio porte norte-americana implementou o SMarT (Save More Tomorrow, ou Poupa Mais Amanhã) entre seus funcionários em 1998. O intuito era aumentar a contribuição dos trabalhadores para o plano de aposentadoria. Em três anos e meio, o percentual do salário que dedicavam à previdência privada pulou de 3,5% para 13,6%. Como resultado, programas nesse molde são hoje oferecidos por mais da metade dos grandes empregadores norte-americanos.

Benartzi sustenta que existem várias semelhanças entre a dificuldade de contribuir para a previdência e a relutância em entrar no mercado. Para combater o medo de perder no mercado de ações, a dica é aplicar pouco, e em intervalos regulares.

Ele defende que as pessoas são muito sensíveis ao chamado de “ponto de referência”. E quando todo a reserva financeira é aplicada em ações de uma só tacada, esse montante vira um parâmetro de cálculo muito acessível, já que perdas e ganhos são facilmente computados.

“A mente intuitiva, guiada pelas intuições, iria responder negativamente às perdas”, diz Benartzi. Com um pouco do dinheiro sendo investido de cada vez, o investidor elimina o ponto de referência óbvio, e, por consequencia, as chances de tomar decisões irracionais guiado pelo medo de ver o dinheiro escorrer pelo ralo.

Timing para comprar e vender

Comprar ações na baixa e vendê-las na alta. Repetida em exaustão, a fórmula parece simples. Segundo o estudo de Benartz, entretanto, identificar o momento exato para negociar os ativos é uma tarefa árdua. Uma pesquisa com 66.465 norte-americanos revelou que, em seis anos, os investidores mantinham inalterado apenas 25% do portfólio original. Mas as mudanças não implicaram retorno palpável – os custos das negociações diminuíram o rendimento médio em 3,7%.

Aqueles que faziam mais transações amargaram um resultado ainda pior: o resultado de alterar a carteira inteira mais que duas vezes no ano foi uma redução de 10,3% nos lucros.

Para Benartzi, os movimentos do mercado fogem à exclusiva correção lógica: até a derrota de um time de futebol em uma competição mundial consegue afetar o desempenho do Bolsa. “A maioria das pessoas simplesmente não tem tempo ou know how para identificar ações sobrevalorizadas ou baratas demais”, acredita.

A solução para não cair na tentação de tentar ajustar o timing e sair perdendo também se assenta no pré-comprometimento. Quem conta com a ajuda de um consultor financeiro, por exemplo, pode discutir com muita antecedência a decisão a ser tomada no caso de tombos ou valorizações da ordem de 25%.

Na opinião de Benartzi, balancear o investimento com aplicações conservativas e um pouco mais arriscadas seria o primeiro passo para se resguardar. No caso do mercado afundar, o brasileiro que tiver alocado um bocado do portfólio na renda fixa contará com a garantia de receber os generosos juros pagos pelos títulos do governo, ao invés de perder tudo.

Em segundo lugar, uma componente psicológica que ajuda o investidor a se ater ao plano pré-concebido é a assinatura de um papel que descreva essa estratégia, o que também deve ser feito por seu agente de investimentos. “A formalização não servirá como um contrato legal”, explica Benartzi. “Mas o simples fato de colocar tudo na ponta do lápis ajudará as duas partes a resistirem aos impulsos intuitivos.”

Fonte: Portal Exame

http://exame.abril.com.br/seu-dinheiro/noticias/como-ganhar-na-bolsa-sem-perder-a-cabeca?page=1&slug_name=como-ganhar-na-bolsa-sem-perder-a-cabeca

Professor da Universidade de Chicago ensina a diversificar investimentos

segunda-feira, maio 2nd, 2011

Especialista em Finanças Comportamentais condena excesso de confiança, concentração do portfólio e busca desenfreada por altos retornos

Julia Wiltgen, de Exame.com

Dan Dry/Divulgação

Professor veio ao Brasil dar um curso para profissionais de finanças na BM&FBovespa

São Paulo – O italiano radicado nos Estados Unidos Andrea Frazzini só faz uma afirmação depois de falar em evidências. Não cita nomes, não cita empresas, nem nada que não possa ser comprovado empiricamente. O professor da renomada Universidade de Chicago cita apenas as evidências que baseiam seus estudos em Finanças Comportamentais. De passagem pelo país para lecionar em um curso voltado para profissionais de mercado e acadêmicos na BM&FBovespa, Frazzini falou a EXAME.com sobre algumas teorias das Finanças Comportamentais – como o “dinheiro burro” e o “efeito disposição”.

Durante a entrevista, o professor defendeu a diversificação e o hedge, bem como o uso de ETFs para essas finalidades. Ao mesmo tempo, condenou a concentração do portfólio em empresas do próprio país ou mesmo na empresa onde o investidor trabalha. Frazzini explicou, ainda, quando realizar perdas faz bem e aconselhou o pequeno investidor a preferir fundos de investimentos baratos e não muito grandes, em vez de buscar desenfreadamente aqueles que deram bons retornos recentemente.

Como as finanças comportamentais podem ajudar os pequenos investidores do varejo?

Os investidores de varejo são uma das fontes das descobertas das finanças comportamentais. Porque esse campo de estudo observa os comportamentos típicos das nossas atividades do dia a dia e analisa como eles afetam a maneira como construímos nosso portfólio de investimentos. Por exemplo, as pessoas têm tendência a serem excessivamente confiantes, especialmente para tarefas que desempenham todos os dias. Se você perguntar a um grupo de pessoas se elas se acham motoristas melhores que a média, cerca de 70% delas dirá que sim, o que é obviamente impossível. Só 50% das pessoas poderiam estar acima da média, e os outros 50%, abaixo da média. Nós tendemos a superestimar nossas habilidades no volante. Nosso excesso de autoconfiança é ok no dia a dia, pois sem ela nós não faríamos uma série de coisas. Pessoas com excesso de confiança tendem a ser mais bem sucedidas. Mas no mercado financeiro, excesso de confiança é ruim, pois leva os investidores a atribuírem bons resultados à própria habilidade e maus resultados à má sorte ou qualquer outro acontecimento externo. Há muitas evidências de que isso acontece. Saber sobre o excesso de confiança pode mudar a maneira como a pessoa investe. Ela pode passar a crer que um bom resultado pode ser fruto da sorte, e não de sua grande habilidade em escolher ações.

E quais as consequências desse excesso de confiança?

Pode produzir portfólios muito concentrados. Por exemplo, se eu compro uma ação de uma empresa de tecnologia e seu preço sobe, eu posso pensar que sou muito bom em escolher ações desse setor. Eu posso, então, começar a comprar muitas ações de empresas de tecnologia e acabar com um portfólio excessivamente concentrado no setor. Um investidor de varejo deveria se perguntar, antes, se é realmente habilidade ou se foi sorte. Outro exemplo de concentração é a tendência em investir apenas em ações do seu próprio país. Brasileiros tendem a possuir mais ações de empresas brasileiras que de empresas estrangeiras. Ou ainda o extremo oposto. Já existem evidências de que muitos investidores de varejo investem suas economias nas ações de sua própria empresa. Mas isso é exatamente o contrário do que deveria ser feito. É preciso diversificar e investir em algo que vai dar ao investidor uma espécie de seguro contra os vários riscos que ele enfrenta. Esse tipo de concentração é perigoso, porque se uma crise atingir a sua empresa e você correr o risco de perder o seu emprego, suas economias também vão pelo ralo, pois as ações da empresa provavelmente estarão em queda. É só lembrar o caso Enron. É fácil cometer esse erro, pois o investidor pensa que sabe muito sobre a empresa na qual trabalha. Mas é errado. A empresa já paga o seu salário. É melhor investir em ações da concorrência, o que pelo menos vai dar alguma proteção a boa parte das suas economias.

Mas os investidores de varejo não costumam ter muito dinheiro para investir. Como eles podem diversificar?

A teoria das finanças diz que o investidor deve diversificar, especialmente se for um investidor de varejo, sem maiores informações sobre as empresas. Um bom instrumento para isso são os ETFs, que equivalem a uma cesta grande e diversificada de todo o mercado. Mas se o investidor tem algum motivo para acreditar que aquilo não é ótimo para ele – e deve ter um bom motivo para ele achar que seu portfólio deva ser diferente do mercado – então ele pode ir mais longe e fazer hedge contra os riscos específicos de seu portfólio. Um exemplo típico é o das pessoas que trabalham no mercado financeiro e recebem sua compensação em ações da própria companhia, as quais não podem ser vendidas por alguns anos. Essas pessoas se tornam, assim, muito expostas aos riscos do setor financeiro. Elas podem, porém, vender a descoberto um ETF do setor financeiro. Elas não estarão eliminando o risco perfeitamente, pois estão vendendo a descoberto um índice, mas vão eliminar uma parte do risco. Se algo ruim acontecer ao setor financeiro e as ações de sua empresa forem atingidas, parte das perdas será compensada pela venda a descoberto do ETF. Mas eu conheço muito pouca gente do mercado financeiro que faça isso. Se essas pessoas, que são profissionais do ramo, não o fazem, outros investidores de varejo definitivamente não o fazem. Se o investidor não quer vender nada a descoberto, ele não deveria, em primeiro lugar, investir em sua própria empresa ou em uma empresa relacionada à forma como ele ganha a vida.

Como o que o chamado “dinheiro burro” afeta a vida dos pequenos investidores? É possível identificar um “fundo quente”, aquele que é inflado pelo “dinheiro burro”, a fim de evitá-lo?

Na academia, muita gente se pergunta se é possível identificar um “fundo quente”. Não existem evidências de que haja persistência na performance de fundos de investimento ou de que seja possível identificar se um gestor tem habilidades superiores ou se simplesmente vem tendo sorte. O que nós chamamos de “dinheiro burro” são os fluxos de dinheiro que tendem a buscar bons retornos nos fundos de investimento. Ou seja, quando um fundo tem um bom ano, consegue captar mais recursos de investidores no ano seguinte; quando o desempenho vai mal, boa parte do dinheiro é resgatada. A maneira como o dinheiro flui mostra que os investidores pensam que a performance dos fundos de investimento vai se manter no ano seguinte. Na prática, não há comprovações dessa persistência. O que acaba acontecendo é o seguinte: quando os fundos têm um bom desempenho, conseguem captar mais dinheiro, usado para comprar mais ações de acordo com seu perfil. Isso puxa para cima os preços daquelas ações e faz com que os retornos futuros desses fundos sejam mais baixos. Um bom exemplo é a bolha de 1999. Quando as pessoas estavam otimistas em relação às companhias de tecnologia, ou elas compravam ações do setor diretamente ou injetavam dinheiro nos fundos setoriais de tecnologia. Ao fazer isso, esses investidores contribuíram para o sobrepreço. O que acontece com o “dinheiro burro” é que quando o dinheiro busca retornos intensamente, isso tende a prejudicar a performance dos fundos e dos investidores.

Então como os investidores devem agir para se proteger desse tipo de fundo?

Número um: não busque retornos intensamente. Ou seja, não assuma que os cinco melhores fundos de investimento do ano passado serão os cinco melhores do ano que vem. Não há comprovações de que isso seja verdade. Em segundo lugar, já que não existem maneiras científicas de determinar quais gestores têm melhores habilidades, a melhor saída para maximizar retornos é buscar um fundo com taxas baixas. Isso porque existem pesquisas publicadas usando dados de fundos dos Estados Unidos que mostram que fundos mais baratos tendem a ser mais eficientes e a ter performances melhores que fundos com altas taxas. Quanto aos gestores, até existe alguma persistência nas suas performances, mas não há evidência suficiente para de fato determinar se suas habilidades são boas ou não. Não quer dizer que não haja gestores com habilidades superiores, só quer dizer que é difícil detectá-los apenas utilizando os dados disponíveis. E o retorno de apenas um ano não é suficiente. Não há uma receita para identificar um “fundo quente”.

Podemos dizer que os fundos que fecham para captação têm menos chance de se tornarem “fundos quentes”?

Em teoria sim, é plausível. Mas não existem evidências que comprovem isso diretamente. As evidências mostram, sim, que fundos maiores tendem a apresentar retornos menores.

Se um investidor deve sempre tentar comprar na baixa e vender na alta, qual é o seu conselho sobre como isso deve ser feito?

Isso se você desconsiderar as taxas e os impostos. Do contrário, o investidor deve realizar perdas [vender na baixa] ao realizar ganhos, pois as perdas podem ser usadas para abater o imposto de renda do ganho de capital obtido com os papéis vencedores. Então, em teoria, nós deveríamos ver os investidores realizando perdas para poder também realizar ganhos. Mas acabamos vendo o oposto. Investidores que se apegam a suas perdas, na esperança de que o preço da ação suba mais adiante, recuperando o que foi perdido. É o que se chama de “efeito disposição” [tendência de vender as ações em alta cedo demais e as ações em baixa tarde demais, minimizando os ganhos e maximizando as perdas]. Isso ocorre porque as pessoas têm uma aversão maior a perdas do que prazer por realizar ganhos. Realizar uma perda nominal dói. O efeito disposição é ruim para os investidores porque ajuda a maximizar os impostos, em vez de minimizá-los.

Existe alguma situação em que o pequeno investidor deve simplesmente seguir o fluxo do mercado – o chamado “efeito manada”? Qual a diferença entre se apegar a uma ação “perdedora” quando se deveria realizar a perda e se apegar a uma boa ação, que pode estar em queda apenas temporariamente? Digamos, por causa de uma única notícia que abalou o mercado?

Quando o investidor compra uma ação, ele o faz por um motivo. Se ele possui um portfólio diversificado, ele não precisa saber detalhes sobre cada uma das ações, pois só quer seguir o fluxo do mercado. O investidor pode, no entanto, comprar uma ação porque quer fugir do padrão do mercado ou porque está muito otimista em relação àquela empresa. No caso do investidor que deseja replicar o desempenho do mercado com uma cesta de ações diversificada, uma notícia isolada não deve abalar sua visão de longo prazo. Portanto, mesmo que uma das ações esteja com preço em queda, ele deve manter sua posição. No caso do investidor que tem uma visão otimista sobre uma determinada ação, se uma notícia isolada for capaz de mudar essa visão, aí sim ele pode querer alterar seu portfólio e vendê-la. Por exemplo, você comprou uma ação porque pensa que as perspectivas de longo prazo da empresa são boas e que os lucros vão crescer. Mas quando a companhia anuncia seus resultados, você descobre que os lucros não cresceram tanto quanto você esperava, ou talvez estejam em queda. Nesse caso, a informação afeta o motivo de você ter ficado mais exposto àquele papel. Logo, vale vendê-lo. Tudo depende das suas intenções ao comprar a ação. Se as notícias que saíram não estiverem relacionadas com as suas razões iniciais, você não deve fazer nada. Mas se mudarem a sua visão acerca do papel, então é melhor agir.

Então seguir o mercado pode ser a coisa certa a se fazer?

As finanças comportamentais deduzem que seguir o fluxo não é uma boa ideia, do ponto de vista do portfólio. Mas não é possível precisar isso quando se olha isoladamente uma ação. Por exemplo, existem evidências de que os preços reagem aos anúncios de lucro das empresas. Quando saem anúncios negativos sobre algumas das empresas de um portfólio, a tendência é que aquele portfólio tenha retornos mais baixos por um período de um a três meses. Ou seja, pelo bem do portfólio, é bom se desfazer desses papéis. Mas se a decisão tivesse que ser tomada apenas para uma dessas ações isoladamente, talvez não fosse o caso.

Quer dizer que os investidores devem analisar as ações uma em relação às outras? Então se uma companhia tem um retorno ruim, pode ser uma boa ideia vender suas ações para comprar papéis de uma companhia com bons resultados, por exemplo?

Correto. Em termos de portfólio, esse é definitivamente um conselho correto.

As finanças comportamentais ainda são vistas com certa reserva no Brasil por alguns especialistas. Como é a visão dos acadêmicos americanos sobre o assunto?

As finanças comportamentais são um campo de estudo jovem, nascido no início dos anos 1980. Se na década de 1960 você perguntasse a um dos especialistas da Universidade de Chicago, por exemplo, berço da teoria dos mercados eficientes, se os preços eram totalmente eficientes e refletiam toda a informação disponível, qualquer um diria que os preços estão certos. Agora, as finanças comportamentais já geraram muita evidência empírica. Esse campo é cada vez mais considerado, especialmente quando se trata de explicar o comportamento dos investidores individuais. Finanças comportamentais tornou-se um campo muito respeitado. Hoje, se você perguntar a qualquer acadêmico ou profissional de mercado nos Estados Unidos se ele ou ela acha que os mercados são 100% eficientes, todos eles diriam que não. Os mercados são quase eficientes. As finanças comportamentais conseguem explicar as pequenas ineficiências.

Fonte: Portal Exame

http://exame.abril.com.br/seu-dinheiro/acoes/noticias/prefira-etfs-e-fundos-baratos-diz-professor-da-universidade-de-chicago?page=1&slug_name=prefira-etfs-e-fundos-baratos-diz-professor-da-universidade-de-chicago

Como evitar que a emoção atrapalhe seus investimentos

sábado, junho 19th, 2010

Especialistas em finanças comportamentais explicam cinco técnicas para que o pânico ou a euforia não o leve a equívocos na bolsa

Julia Wiltgen, de EXAME.com

getty images

Daniel Kahneman, um dos pais das Finanças Comportamentais: psicólogo israelense ganhou um Nobel de Economia por suas contribuições na área

Daniel Kahneman, um dos pais das Finanças Comportamentais: psicólogo israelense ganhou um Nobel de Economia por suas contribuições na área

São Paulo – Reza a ideologia dominante entre teóricos financeiros que os mercados são lógicos, racionais e sempre tendem ao equilíbrio. Investidores seriam seres guiados apenas pelo objetivo de ganhar o máximo de dinheiro, sem se importar em assumir erros para evitar perdas maiores ou ignorar oportunidades de aproveitar uma pechincha por mais que todos os alarmes de risco estejam soando. Afinal, por mais que o mercado possa se equivocar momentaneamente, uma hora ou outra a razão falará mais alto, e quem tiver enxergado a oportunidade primeiro embolsará os lucros mais gordos.

Aparentemente conectado à realidade, esse discurso sofreu um abalo durante os anos de 2008 e 2009, quando expressões como “pânico” e “euforia” frequentaram o noticiário econômico com uma assiduidade nunca vista na história. Nessas horas, quem aparece com a explicação mais convincente para os seres humanos comprarem ações muito caras e venderem papéis muito baratos são os teóricos das finanças comportamentais. Trata-se de uma classe ainda vista com certo preconceito pela maioria do mercado, mas que possui um argumento difícil de refutar: os investidores são seres humanos e, como tais, acabam influenciados por suas emoções até na hora de lidar com o próprio dinheiro. Grandes perdas financeiras podem ser tão difíceis de suportar quanto a dor física. É por esse motivo que, quando a bolsa desaba, muita gente vende ações ao invés de aproveitar a oportunidade para comprar.

Ainda de acordo com as finanças comportamentais, qualquer ser humano estaria sujeito a tomar decisões desesperadas em momentos de estresse no mercado, mas pessoas menos acostumadas a lidar com o próprio dinheiro são as mais suscetíveis ao pânico. Nessas horas, até mesmo um componente biológico não pode ser ignorado. Um estudo da Universidade de Cambridge concluiu que 23% das mulheres e 18% dos homens sofrem de um distúrbio chamado fobia de finanças pessoais. Metade das pessoas que participaram da pesquisa sofrem aceleração do ritmo cardíaco ao lidar com o próprio dinheiro, e 15% deles chegavam a evitar abrir os envelopes bancários “para não ter transtornos”.

Curar esse tipo de fobia não é fácil. Mas especialistas dizem que é possível evitar que o lado emocional atrapalhe suas decisões de investimento seguindo cinco dicas simples.

 

1 – Evite o movimento de manada

2 – Não se exponha demais

3 – Cuidado com os eventos atípicos

4 – Consulte especialistas

5 – Questione os motivos para determinado investimento

 

1 – Evite o movimento de manada

O ser humano tem a tendência de seguir o grupo. Primeiro, porque essa é uma maneira de simplificar a decisão. Na preguiça de pensar, é mais fácil fazer o mesmo que todo mundo. Além disso, parece lógico que, se todos estão fazendo alguma coisa, deve haver uma boa razão para isso. Se os amigos estão ganhando dinheiro na bolsa, o normal é não querer ficar para trás. Se eles também se derem mal, a frustração de quem perdeu diminui.

Por isso, o investidor muitas vezes segue o movimento do mercado e acaba cometendo um grande erro: vende seus ativos quando eles estão em baixa e compra quando estão em alta. Ao ver seus investimentos em ações minguarem por causa de uma baixa na bolsa, o investidor entra em pânico. Resolve, então, seguir os demais, e também se desfaz de seus papéis. Mas quando as ações estão indo bem, o investidor se sente confiante e decide comprar.

Para Márcia Dessen, cofundadora do Instituto Brasileiro de Certificação de Planejadores Financeiros (IBCPF), todos esses são exemplos de decisões irracionais. “O investidor tem que olhar para a bolsa com o seguinte pensamento: a hora de comprar é quando o preço está baixo; a hora de vender é quando o preço está alto. O curioso é que as pessoas seguem instintivamente essa lógica na hora de comprar alimentos, roupas e eletrônicos. Mas não com ações.”

Dica: De acordo com o estrategista de investimentos pessoais do Santander Asset Management, Aquiles Mosca, uma medida simples – mas essencial – é rebalancear os investimentos a cada três meses de forma a manter constante o percentual aplicado em cada tipo de ativo. Se o investidor definiu que vai manter 15% de seu dinheiro aplicado em bolsa e 85% em renda fixa, periodicamente tem que vender alguns papéis e comprar outros para alcançar a meta estipulada. Em um cálculo grosseiro, se a bolsa subir 50%, o valor das ações passará a representar 22,5% da carteira. Para rebalanceá-la, será necessário vender uma parte do que está investido em bolsa.

“A maioria dos investidores quer sair da bolsa quando as ações estão em baixa. Mas a recomendação é recompor a carteira, pois, automaticamente, após uma forte queda, as ações estão baratas. Assim, mantém-se a disciplina e, invariavelmente, compra-se na baixa e vende-se na alta. Os retornos são bem interessantes ao longo do tempo”, avalia Aquiles Mosca.

Márcia Dessen reforça: “Quando o investidor vende na baixa, ele não recupera mais o que perdeu”. Mas mesmo que não se desfaça de suas ações, se não rebalancear a carteira, o investidor corre outros riscos: o de perder parte do que ganharia na alta e o de demorar muito a neutralizar suas perdas. Afinal, se suas ações caírem 50%, precisarão, em seguida, subir 100% para que o valor investido seja recuperado.

 

2 – Não se exponha demais

Estudos de finanças comportamentais mostram que a maioria das pessoas não tem aversão a risco, mas sim a perdas. Ou seja, elas normalmente não estão dispostas a arriscar para ganhar, mas estão dispostas a arriscar para não perder. A possibilidade de perder o suado dinheiro que conseguiu poupar para investir apavora os novatos da bolsa. A consequência desse descontrole emocional aliado – muitas vezes – à falta de informação pode levar o investidor a tomar medidas irracionais e, normalmente, desastrosas.

Dica: Para não cair nesse erro, o investidor deve destinar à bolsa somente aquele dinheiro extra do qual ele pode prescindir. Isto é, um percentual de poupança que não seja essencial no curto prazo e que, se for completamente perdido, não fará falta. Vale lembrar ainda que investir em renda variável é uma medida de longo prazo. “O investidor tem que concordar em esperar o tempo que for necessário para não sair em qualquer baixa”, diz Márcia Dessen.

 

3 – Cuidado com os eventos atípicos

Eventualmente, os movimentos de manada são provocados por eventos atípicos. Às vezes, o acontecimento nada tem a ver com a economia, mas o simples fato de ter se tornado muito evidente já é o suficiente para causar grandes oscilações nas bolsas, o chamado “efeito contágio”. Foi o que aconteceu em 2007, por exemplo, quando a bolsa chinesa arrastou mercados do mundo inteiro por causa de uma medida do governo chinês que só afetaria os próprios chineses. O aumento do Imposto de Renda para a pessoa física levou os chineses a sacarem parte do dinheiro investido, derrubando a bolsa em 8%. O pânico se espalhou pelos mercados, afetando, inclusive, o Ibovespa.

Mas nem sempre esses eventos raros são pontuais. As bolsas também costumam viver momentos de euforia, que podem trazer grandes lucros no curto prazo, mas que terminam com a formação de “bolhas”. Nessas ocasiões, o investidor deve ser especialmente cuidadoso.

Dica: O raciocínio do rebalanceamento vale, até mesmo, para momentos de crise ou recessão. E para quem estiver fora da bolsa nessas ocasiões, o ideal é observar. Se houver perspectiva de alta, entre devagar, começando por aportes menores. Assim, fica mais fácil sentir se as recuperações são momentâneas ou se representam uma possibilidade de crescimento sólida.

Sejam quais forem os motivos para a euforia ou o pânico do mercado, é importante que o investidor jamais subestime as possibilidades de eventos raros acontecerem. “O investidor normalmente acha que tudo vai dar certo, e que dificilmente um fato raro, como uma grande crise econômica, vai acontecer. Com isso, deixa de se preparar para os soluços do mercado. Foi o que aconteceu com a crise de 2008. Em seguida, vem o pessimismo excessivo”, alerta a psicanalista Vera Rita de Mello Ferreira, especialista em psicologia econômica e autora dos primeiros livros sobre o tema no Brasil.

 

4 – Consulte especialistas

Segundo especialistas, o investidor brasileiro costuma ser excessivamente autoconfiante e relutante em recorrer a especialistas. Afinal, pensam esses investidores, ninguém cuida melhor do dinheiro deles que eles mesmos

Mas não é bem assim. Ter alguns meses de bons resultados não significa que o investidor é um especialista. E bons resultados no passado não necessariamente se repetem no futuro. Há muito mais em jogo. E abrir mão de ajuda profissional ou de literatura especializada pode levar o investidor a cometer graves erros de julgamento.

Dica: Defensor da análise fundamentalista, Aquiles Mosca, do Santander, acredita que, para tomar decisões, o ideal é que se conheça a fundo a economia para saber analisar as perspectivas dos setores e os balanços das empresas nas quais se investe. Assim, é possível saber se o valor das ações é justo e se a empresa tem realmente condições de entregar os resultados prometidos. “Balanços robustos mostram tendência à valorização”, explica.

“O investidor pode e deve recorrer mais a publicações e aos próprios gerentes do sistema bancário, que estão cada vez mais qualificados. Não faltam fontes de informação. O investidor brasileiro está caminhando para o risco sem buscar um maior apoio, sendo que esse apoio está disponível”, afirma Mosca. Mas para quem não tem tempo de se dedicar tanto a conhecer o mercado, o economista aconselha buscar um fundo de ações. Nesse caso, o trabalho fica por conta do gestor profissional. “O investidor pode escolher o grau de envolvimento que quer ter”, conclui.

 

5 – Questione os motivos para determinado investimento

Para muita gente, cuidar do próprio dinheiro não é tarefa simples, pois requer muita disciplina, paciência e informação. Para alguns, pode até mesmo desencadear grandes tensões. Só deve investir na bolsa, quem sabe controlar suas emoções. “Quem não tolera oscilação alguma nos investimentos não deve investir em ações”, diz Márcia Dessen.

Dica: Cuidado com as próprias justificativas para realizar uma operação no mercado. É preciso se questionar: quero comprar ou vender determinado ativo pelos motivos certos? Ou é simplesmente porque eu estou com essa ideia fixa? Muitas vezes, fatores que nada têm a ver com a economia podem influenciar o investidor a fazer determinada operação. Em outras palavras, a pessoa se ilude com um argumento aparentemente sólido. “Se o investidor estiver vendendo, ele deve se colocar no lugar do comprador, e vice-versa, para ver se aquele argumento resiste”, explica a psicanalista Vera Rita de Mello Ferreira.

Outra ilusão que o investidor pode produzir para si mesmo é o chamado “efeito posse”, uma sensação de que tudo o que pertence a si vale mais do que realmente vale. No entanto, emoções negativas podem produzir o efeito contrário: se a pessoa está triste ou com raiva, por exemplo, corre o risco de vender suas ações em um momento de forte baixa sem se dar conta de que o preço pago por seus ativos é, de fato, injusto. “Quanto mais serena a pessoa estiver, maior a chance de não ficar submetida à força do efeito posse”, afirma Vera Rita.

Fonte: Portal Exame

http://portalexame.abril.com.br/financas/noticias/como-evitar-emocao-atrapalhe-seus-investimentos-570887.html?page=full