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O ‘mercado’ e a oferta global de alimentos

quinta-feira, novembro 17th, 2011

Cenários – Debate entre ampliação da oferta e lucro ganha importância. Por Sophia Grene | Financial Times

Mercado de alimentos na China: nas próximas décadas será preciso produzir mais alimentos que nos últimos 10 mil anos

A mão invisível do mercado pode até resolver algum dia o problema da oferta de alimentos em um mundo superpovoado, mas os investidores não podem ser dispensados da responsabilidade de ajudar essa mão a atingir tal objetivo, segundo gestores de recursos especialistas em investimentos agrícolas.

O problema precisa urgentemente de solução. Segundo a FAO, braço das Nações Unidas para agricultura e alimentação, nas próximas décadas será necessário produzir mais alimentos do que nos últimos 10 mil anos. A FAO calcula que até US$ 100 bilhões precisarão ser investidos na agricultura de países em desenvolvimento para elevar a produção mundial de alimentos em 70%, aumento que considera necessário para evitar que mais pessoas passem fome.

Os investidores que se voltam ao setor agrícola possuem uma pletora de formas para alocar recursos. Entre as possibilidades estão o mercado futuro de commodities agrícolas, investimentos em propriedades como os realizados por fundos de “private equity”, compras de ações e financiamento de dívidas. A decisão envolve não apenas estudos sobre como os investimentos podem se encaixar em suas carteiras, mas também a intenção dos agentes ao entrar com esses recursos.

“Qual é o interesse, buscar soluções em vez de tentar lucrar com a situação?”, pergunta Ralf Oberbannscheidt, que administra € 2,2 bilhões no Global Agribusiness Fund, da DWS. O debate sobre a ética de se investir em commodities no mercado futuro é permanente. A ala que sustenta que a especulação empurra os preços para cima e aumenta a volatilidade ganhou terreno ultimamente, uma vez que a opinião pública, em geral, passou a ficar mais contrária à negociação de derivativos. Mas a avaliação do mundo acadêmico, baseada nas evidências do único caso real testado – o impacto da lei americana de 1957 que proibiu a negociação de contratos futuros de cebola -, é inconclusiva.

Para Oberbannscheidt, a negociação de contratos futuros não apenas é reprovada como uma “solução” para o problema da oferta de alimentos, mas também é indesejável porque o mercado é distorcido em seus fundamentos. “As commodities agrícolas são negociadas de forma muito ineficiente (…) Elas são retardatárias ao reagir aos eventos mundiais, principalmente porque o mercado é muito centrado nos EUA”. Ele observa que esses mercados são em grande parte guiados por especialistas em mercados futuros, não em produção de alimentos.

Em seu relatório “Perspectivas Alimentares”, a FAO sustenta que “deixar os mercados internacionais continuarem em seu estado atual, volátil e imprevisível, apenas agravará as perspectivas já sombrias para a segurança alimentar mundial”.

Nos últimos três ou quatro anos, aumentou o interesse em investir em terras cultiváveis, porém mais recentemente esse tipo de negócio passou a sofrer uma avaliação mais crítica de organizações não governamentais como a Oxfam, que promove campanha chamada “Grow” (cultive, em inglês) para colocar em evidência o impacto dos investimentos internacionais em terras sobre as populações locais. Para suavizar alguns desses problemas, um grupo de trabalho ligado aos Princípios para o Investimento Responsável, da ONU, elaborou um conjunto de diretrizes para guiar investimentos em terras agrícolas.

Porém, além das possíveis questões éticas, muitos investidores ficaram decepcionados com os retornos de seus primeiros investimentos em terras. “A maioria tinha projeções de retornos pouco realistas, carecia de capacidade administrativa, não tinha o horizonte de tempo apropriado ou encontrava problemas de documentação”, afirma Oberbannscheidt.

Outro problema é que em algumas regiões, como no Brasil, os valores das terras dispararam, tornando o investimento menos atraente. “Houve um pouco de disputa pela propriedade das terras”, observa David Creighton, executivo-chefe da canadense Cordiant Capital, especializada em dívidas do setor privado em países emergentes. “Os preços decolaram no Brasil, a ponto de o modelo não ser mais tão sólido.”

Em vez disso, a Cordiant Capital, que vem concedendo crédito a projetos de agronegócios há dez anos, concentra-se em segmentos como produção de maquinário e equipamentos, produção de fertilizantes e silos para grãos. Creighton diz que a Cordiant Capital normalmente oferece rendimentos de 3 a 6 pontos percentuais acima taxa interbancária do mercado de Londres (Libor) para dívidas sênior com garantia. Em termos de risco de crédito, Creighton afirma que a Cordiant Capital explora “o telhado de vidro de empresas em mercados emergentes, cuja percepção de ‘rating’ de crédito é limitada à de seus países”.

Com a análise apropriada das contas, é possível buscar investimentos para sua carteira em oportunidades de concessão de crédito para empresas que, na prática, são de “grau de investimento”, particularmente porque em geral são garantidas por ativos reais, como terras e maquinário.

Embora o financiamento de dívidas possa oferecer oportunidades de investimento que não estão nos mercados de ações, nem todos os investidores sentem-se confortáveis com a ideia de investir em títulos do setor privado em países emergentes.

É possível encontrar mais transparência e liquidez nas ações. Oberbannscheidt está convencido de que as ações negociadas publicamente são a melhor forma para os investidores participarem tanto de uma oportunidade de investimento como de uma solução para o problema. “Precisamos melhorar a eficiência de toda a cadeia de valor”. Um obstáculo é que os investidores em renda variável raramente pensam em um horizonte suficientemente longo para que o aporte no setor tenha melhor eficiência.

Fonte: Jornal Valor Econômico – 17/11/2011 – página B11

A última fronteira do capital especulativo

segunda-feira, outubro 24th, 2011

Commodities – Preços de 2011 são os maiores da década, e correlação com mercado financeiro segue elevada. Por Gerson Freitas Jr. | De São Paulo

Apesar da queda em setembro, reflexo da deterioração do cenário internacional, os preços médios das principais commodities agrícolas continuam em níveis historicamente altos nos mercados futuros internacionais. De acordo com levantamento realizado pelo Valor Data, o preço médio dos contratos de soja, milho, trigo, açúcar e café nas bolsas de Chicago e Nova York em 2011 é pelo menos três vezes maior que o do início da década.

O aperto nos estoques, reflexo da forte demanda nos países emergentes e da quebra da produção no Hemisfério Norte neste ano, explica a resiliência. Mas os preços também são sustentados pelo crescente volume de capital especulativo alocado nos mercados de commodities. Embora tenha diminuído desde abril (ver matéria abaixo), a quantia de dinheiro aplicada em contratos de commodities em 2011 não tem precedentes.

Uma das consequências mais visíveis é o que os analistas chamam de “financeirização” desses ativos, ou seja, seu atrelamento à lógica dos mercados financeiros, antes indiferentes ao cenário de oferta e demanda das matérias-primas. Não à toa, a correlação entre preços futuros das matérias-primas e ações da bolsa de Nova York, por exemplo, atingiu níveis inéditos após a quebra do Lehman Brothers, há três anos. Um estudo do Barclays Capital mostra que, desde novembro de 2008, a correlação mensal entre os mercados de ações e commodities foi de 65%. Nas décadas anteriores, era próxima de zero.

Dados do Valor Data mostram que, em 2008, a correlação entre o índice CRB (referência para os preços internacionais das commodities) e o índice S&P 500 da bolsa de Nova York foi de apenas 11% até agosto, mês que antecedeu a quebra do banco americano. Após o estouro da crise, foi a 89%. Em 2009, alcançou 94%, recuando a 83%, em 2010, e 73%, neste ano. Nos mercados agrícolas, onde o peso do capital especulativo é menor, a correlação com os preços das ações é inferior, mas também significativa. Era de 27% antes da crise, chegou a 73% em 2009, recuou a 64% em 2010 e agora está próxima de 50%.

Movimentos de manada, típicos de períodos de crise ou euforia, explicam o fenômeno. A quebra de uma instituição financeira, como em 2008, ou a ameaça de um calote soberano, como o da Grécia, fazem com que investidores fujam da exposição a ativos de risco, sem se importar com os fundamentos específicos de cada mercado, causando uma queda generalizada nos preços. Passada a tempestade, o capital retorna em massa e produz uma recuperação também generalizada.

Kevin Norrish, diretor gerente de pesquisa em commodities do Barclays, afirma que a correlação elevada é um “sintoma” de condições econômicas extremas e não deve se manter no longo prazo. Para ele, os investidores que aplicam em commodities buscam um elemento de diversificação aos mercados tradicionais. “Os fundamentos explicam a diferença no comportamento entre os ativos”, afirma.

Os preços das commodities, diz Norrish, refletem a interação “em tempo real” entre oferta e demanda. E os das ações, as projeções de fluxo de caixa para 12 meses ou mais. Portanto, sustenta o analista, a tendência natural do mercado seria um retorno ao padrão histórico de correlação -“algo próximo a zero” – tão logo o cenário de incertezas fique para atrás.

A inserção das commodities na lógica das expectativas dos agentes financeiros é um fenômeno relativamente recente e acompanha o aumento do interesse dos grandes investidores. O volume de capital especulativo aplicado nos mercados futuros de petróleo, metais e produtos agrícolas era de apenas US$ 15 bilhões por volta do ano 2000, mas chegou próximo a US$ 270 bilhões às vésperas da crise financeira. E embora tenha caído quase à metade após a quebra do Lehman Brothers, ultrapassou a barreira dos US$ 450 bilhões em abril deste ano.

O estouro da bolha da internet e os ataques terroristas aos EUA, em 2001 – que deram início à flexibilização da política monetária americana e à debacle do dólar no mundo – combinados com a ascensão da China – que mudou a dinâmica do crescimento global e seu impacto sobre a demanda por matérias-primas – tornaram as commodities uma opção de investimento atraente aos grandes fundos de pensão e de hedge, fosse em busca de proteção contra um cenário inflacionário, fosse como elemento de diversificação de suas carteiras no longo prazo.

“Os juros baixos estimularam o investimento, a tomada de risco e a adoção de estratégias para as commodities muito semelhantes às dos ativos financeiros. A crise de 2008 trouxe uma desalavancagem, mas a resposta do Federal Reserve, (o banco central dos EUA), que injetou mais de US$ 2 trilhões no mercado, contribuiu de vez para a financeirização dos ativos – ironicamente, mais agora do que antes da crise”, afirma Vinícius Ito, analista do Jefferies Bache, em Nova York.

Ito diz que a maior participação dos fundos nesse mercado provocou movimentos de preço “exagerados”, especialmente em períodos mais intensos de entrada e saída de dinheiro, mas pondera que o capital especulativo tornou-se um “mal necessário” em um mundo onde a relação entre os estoques e o consumo caiu pela metade nos últimos anos. “É esse capital que ‘financia’, via aumento de preço, a expansão da produção”, afirma.


Investimento em commodities soma US$ 393 bi

Por De São Paulo

O valor da carteira de commodities dos fundos de investimento caiu a US$ 393 bilhões em setembro, ante US$ 408 no encerramento do segundo trimestre. Os dados foram divulgados na sexta-feira pelo banco de investimento Barclays Capital.

Quase metade dos recursos, cerca de US$ 174 bilhões, está aplicada em contratos de metais preciosos. Os mercados de energia e agricultura aparecem na sequência, com US$ 110 bilhões e US$ 92 bilhões, respectivamente. Os papéis lastreados em metais básicos abocanham os US$ 18 bilhões restantes.

Foi a primeira vez, desde 2008, que o volume de dinheiro aplicado nesse mercado caiu por dois trimestres seguidos, reflexo das crescentes preocupações com o agravamento da crise da dívida soberana na Europa e seu impacto sobre o crescimento da China e outros países emergentes.

Em setembro, período de maior aversão ao risco nos mercados financeiros, os fundos sacaram quase US$ 9,5 bilhões das commodities. Apesar disso, o saldo entre saques e novos investimentos no trimestre ficou praticamente neutro (- US$ 100 milhões). A forte queda nos preços dos ativos, contudo, fez com o que o valor da carteira diminuísse no fim do período.

De acordo com o Barclays, os investidores retiraram quase US$ 2,2 bilhões dos mercados agrícolas, o que é o pior resultado trimestral desde o início da série, no começo de 2008. Os contratos de energia e metais básicos também foram afetados pelas liquidações. O único segmento que recebeu novos aportes foi o de metais preciosos, vistos como um porto seguro em períodos de instabilidade financeira.

O valor aplicado em commodities bateu recorde em abril deste ano, quando alcançou a marca de US$ 451 bilhões – resultado da alta nos preços e de um aporte de mais US$ 80 bilhões nos 15 meses anteriores. Apesar de ter diminuído desde então, o valor total ainda é US$ 17 bilhões superior àquele registrado no fim de 2010 (US$ 376 bilhões). (GFJ)

Fonte: Jornal Valor Econômico – 24/10/2011 – página B12

Alta de alimentos deve persistir, diz ONU

terça-feira, outubro 11th, 2011

Conjuntura – Demanda crescente, clima adverso e biocombustíveis explicam valorização e volatilidade dos preços. Por Emiko Terazono | Financial Times

Os preços dos alimentos devem permanecer elevados e voláteis ao longo dos próximos anos por causa da crescente demanda, do impacto cada vez mais frequente de eventos climáticos extremos e da indústria de biocombustível, de acordo com um relatório das agências da Nações Unidas para Agricultura.

A alta dos alimentos e a crescente volatilidade dos preços se tornaram um importante problema político e econômico, especialmente nos países em desenvolvimento. O salto nos preços dos grãos e de outros alimentos básicos levou a distúrbios durante a crise alimentar de 2007-08 e mais recentemente os bancos centrais asiáticos apertaram a política monetária para combater a alta dos alimentos.

“A volatilidade nos preços está aqui para ficar”, disseram as agências da ONU em seu principal relatório anual: “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo”. O relatório é publicado conjuntamente pela Agência para Agricultura e Alimentos (FAO), pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (Ifad, na sigla em inglês) e pelo Programa Alimentar Mundial (PAM). “Pequenos, os países dependentes de importações, particularmente na África, estão especialmente em risco”, alertaram.

Clique na imagem para fazer download do relatório - Inglês

 

Clique na imagem para fazer download do relatório - Espanhol

Tradicionalmente, a ONU usa esse relatório para fornecer uma estimativa do número de famintos crônicos no mundo. Entretanto, as agências voltadas para a agricultura disseram que não será capaz de publicar o número no relatório de 2011, por estarem revisando a metodologia para medir a fome crônica. A FAO, o Ifad e o PAM disseram que sua melhor estimativa para o número de pessoas com fome no mundo manteve-se em 925 milhões para 2010.

O relatório alerta que os preços subiram em função do rápido crescimento da demanda por conta do desenvolvimento econômico, do crescimento da população e do aumento do uso de biocombustíveis. Ao mesmo tempo, uma “ligação mais forte entre os mercados agrícola e de energia, bem como a maior frequência de choques climáticos” estavam impulsionado a volatilidade dos preços.

A ONU disse que a especulação financeira também pode aumentar a volatilidade nos preços, embora tenha advertido que a ligação entre investimento financeiro e preços foi “uma questão muito debatida, mas sem consenso claro”. Com os legisladores culpando-os pelos altos preços, a União Europeia e os Estados Unidos anunciaram restrições às posições assumidas por fundos de hedge e outros investidores grandes nos mercados de commodities agrícolas.

O índice de preços de alimentos da FAO, formado por cesta de commodities como trigo, milho, arroz, açúcar, carne e óleo vegetal, subiu 15% em relação ao ano passado. O índice saltou quase 150% na última década.

A FAO, o Ifad e o PAM alertaram que as restrições às exportações também levaram à escassez de alimentos, exacerbando a volatilidade dos preços. Enquanto “alguns grande países foram capazes de isolar seus mercados da crise por meio de políticas comerciais restritivas”, numa clara referência à proibição de exportações impostas por Rússia, Índia, China e Argentina, entre outros, isso levou ao “aumento de preços e à volatilidade nos mercados internacionais”.

Países pobres, principalmente na África, sofreram com a crise. Burkina Fasso e Etiópia, por exemplo, tiveram aumentos da desnutrição e pediram mais assistência alimentar. Já países como China e Índia se beneficiaram das restrições às exportações para aliviar a escassez local de alimentos, enquanto outros, como Tailândia e Vietnã, se beneficiaram da alta dos preços dos ocasionada por essas medidas.

Fonte: Jornal Valor Econômico – 11/10/2011 – página B11

Novo ciclo da mobilidade desafia o carro do futuro

quinta-feira, setembro 29th, 2011

Especial – À caça de pistas, fabricantes mesclam formatos e tamanhos e lamentam o fim da era das máquinas. Por Marli Olmos | De Frankfurt

Sem medo de desculpar-se pela paixão por carros, Booth, da Ford, receia que eles se transformem em "commodities"

O currículo do chefe da área financeira da Ford, Lewis Booth, chama a atenção. Não só pela bem-sucedida carreira, que soma 33 anos na montadora americana, mas pelo tom emocional do trecho em que ele diz ter “o negócio dos automóveis no sangue” e que, por isso, “não pede desculpas por sua paixão por eles”. É bem provável que por isso o tema da conversa de Booth com alguns jornalistas, na véspera da abertura do salão do automóvel de Frankfurt, tenha passado longe das finanças para concentrar-se no carro em si. A estrela das exposições internacionais está na berlinda porque a indústria ainda tenta descobrir qual será o papel do automóvel na nova era de mobilidade humana.

No caso de Booth, a paixão pelos carros vem do berço. Formado em engenharia, o executivo inglês é filho de concessionário que vendia modelos das marcas Ford e Austin and Morris em Liverpool. O executivo escolheu uma sala reservada do Ivory Club, elegante restaurante na área central de Frankfurt, para reunir 11 jornalistas, vindos de sete países para a cobertura do salão: Estados Unidos, França, Itália, Reino Unido, Espanha e Rússia, além do Valor , representando o Brasil. Levou junto outros dois executivos de peso na área de desenvolvimento de produto: J. Mays, vice-presidente da área de desenho da Ford, e Paul Mascarenhas, responsável por pesquisa e inovação.

O homem que comanda as finanças da Ford sentou-se no centro da mesa em formato quadrado que ocupou quase todo o espaço da sala parecida com uma biblioteca. Durante o jantar em que se serviu carne suculenta (especialidade da casa), regada a vinho – alemão e sul-africano -, Booth comandou a conversa. Quis saber o que os jornalistas pensam sobre os projetos apresentados na prévia da exposição de Frankfurt. E, apoiado, sobretudo, por Mays, outro que não esconde a paixão pelos automóveis, revelou o medo de que carros comecem a se transformar em “commodities”.

“Se antes o turbo era utilizado para deixar o carro mais esportivo, hoje serve para melhorar consumo”

E como seria o carro commodity? “É aquele que não ofende ninguém, mas que também não exerce nenhuma atração”, disse Booth. Os três executivos da Ford mostraram que não estão alheios às mudanças de época, que hoje aproximam o carro de um novo estilo de vida, voltado, sobretudo, à conectividade. Mas o aumento da popularidade de modelos que não evocam a emoção de antigamente parece machucar quem passou a carreira desenvolvendo máquinas de desejo. “Sempre fizemos carros deslumbrantes”, disse Booth.

As incertezas em torno do modelo ideal surgem num momento em que a demanda nas regiões onde a cultura do automóvel já tem uma longa história está estagnada. As vendas se concentram nos países emergentes, onde boa parte dos consumidores ainda vai estrear a carteira de motorista. Está, em boa parte, nas mãos desses novatos a decisão sobre o formato e papel do carro do futuro.

O salão de em Frankfurt, encerrado domingo, mostrou que os fabricantes decidiram misturar possibilidades: do minúsculo veículo urbano que não polui ao carrão que ainda faz o motor roncar. A indústria parece ter perdido referências. Não sabe até que ponto o consumidor mudará critérios. Não se trata de descobrir apenas o veículo ideal para as próximas gerações, mas, acima de tudo, saber se elas vão querer usar carro.

Booth concorda que o jovem de hoje não vê mais o automóvel como o de outras épocas. A parafernália tecnológica que surgiu à sua frente, em forma de computador, smartphones, entre outros, compete com o carro. “De qualquer forma, nossas vendas continuam crescendo no mundo”, disse.

Mudanças profundas são, no entanto, inevitáveis. Além de não agredir o ambiente, o veículo precisa, agora, oferecer conectividade. Ao dirigir cada vez mais em baixas velocidades, o motorista quer aproveitar o tempo para usar computador e celular dentro do carro, como se estivesse no escritório, em casa ou mesmo a pé.

O condutor do futuro também começa a sinalizar que, diante dessa necessidade de se conectar com o ambiente externo, quer menos responsabilidade para fazer o veículo funcionar.

A Mercedes-Benz começa a vender seu novo Classe B com o chamado assistente de prevenção de colisões. Disponível para velocidades acima de 30 quilômetros por hora, um radar mede a distância dos veículos à frente e calcula a pressão necessária para frear e evitar uma batida. “Perseguimos o objetivo de criar um carro que não polua e que também não bata”, diz o vice-presidente de marketing da Mercedes, Philipp Schiemer.

A indústria também já pesquisa a conexão dos veículos com as estradas para que, por meio de sensores, se atinja velocidade compatível ao tráfego. E, diante da tendência de dividir a locomoção com entretenimento, envio de e-mails e conversas ao telefone, já se começa a discutir na Europa formas de restringir essas atividades dependendo das condições externas. Se chover ou o motorista tiver que entrar numa estrada perigosa à noite, por exemplo, as funções de conectividade do veículo poderão ser interrompidas.

O tamanho dos carros e o tipo de energia ideal ainda são incógnitas. Algumas empresas começam a apostar em formatos minimalistas e se propõem a produzir veículos para uma só pessoa. É o caso do protótipo elétrico Nils, da Volkswagen: mais estreito, mais baixo e mais curto do que se vê rodando em qualquer rua do mundo hoje.

Como boa parte das pessoas está se deslocando para os centros urbanos, os fabricantes se propõem a desenvolver modelos puramente urbanos, que servirão para o simples ato de ir e voltar do trabalho. Como também apostam que a maior parte dos motoristas terá um veículo urbano para o trabalho e outro para viajar com a família, eles continuam oferecendo, ao mesmo tempo, projetos de carros parecidos com os atuais, com a diferença de que o tamanho dos motores está diminuindo para atender às novas leis ambientais.

Os elétricos só aparecem nos mercados onde os governos oferecem incentivos em forma de bônus para o consumidor e mesmo para o investimento feito pelo fabricante. Isso já é uma realidade nos Estados Unidos, França e Israel. Mas a indústria nem pensa em lançar esse tipo de veículo sem o apoio do Poder Público, o que distancia os países emergentes dos elétricos e causa confusão em relação a outras opções, como células de hidrogênio, solução ainda distante, e mesmo o etanol, que ganhou fama como uma especialidade brasileira.

A questão ambiental exige mais investimentos. Para o presidente mundial do grupo Daimler e da Mercedes-Benz, Dieter Zetsche, nos próximos cinco anos a indústria não deverá “fazer dinheiro” com a tecnologia de energias alternativas.

A indústria também começa a investir mais em motores para adaptar-se às novas legislações ambientais. Na Europa, as montadoras serão multadas, a partir do próximo, pelos veículos com maiores níveis de emissão. Nos últimos quatro anos, o índice de CO2 dos modelos novos produzidos na Alemanha baixou de 170 gramas por quilômetros para 145. A meta é chegar a 130g de CO2 /km em 2012.

“Reduzir o tamanho dos motores será inevitável diante dos novos desafios”, destaca o presidente da General Motors na Europa, Wayne Brannon. Uma das novidades apresentadas pela Ford no salão de Frankfurt foi seu novo motor 1.0, que nada tem a ver com o produto vendido no Brasil. Trata-se de uma inovação tecnológica, que permite reduzir tamanho mantendo desempenho. Segundo a montadora, a novidade lançada na Alemanha, que já começa a equipar o modelo Focus, oferece o mesmo desempenho de um motor 1.6 convencional.

Mas a tecnologia custa caro. “Um motor assim exige investimento de € 300 milhões, é quase como desenvolver um novo carro”, afirma Andrew Fraser, responsável pelo desenvolvimento na área de motores e transmissões da Ford Europa. “Se antigamente o turbo era utilizado para deixar o carro mais esportivo, hoje serve para melhorar consumo”, diz o diretor de engenharia da General Motors no Mercosul, Pedro Manuchakian.

O automóvel também começa a deixar de ser propriedade particular. No chamado “car sharing”, uma ideia já usada na Europa, o motorista paga pelo uso de um veículo compartilhado. Segundo dados da associação que representa as montadoras na Alemanha (VDA), 300 cidades do país já trabalham com o sistema, que tem cadastrados quase 200 mil usuários e 5 mil veículos.

As novas estruturas e formatos que aparecem nos protótipos do futuro indicam que também a indústria de fornecedores passará por uma revolução. Carros elétricos, por exemplo, têm menos peças, materiais diferentes, como alumínio em toda a estrutura, e assumem formas inovadoras, como portas em forma de asas.

Feiras como a de Frankfurt, a maior do gênero, continuarão mostrando como a indústria ainda patina para descobrir seu papel no novo cenário. No salão alemão, os contrastes estavam por todos os lados. No gigantesco estande da Daimler, havia fileiras do pequeno Smart elétrico, que agora oferece também bicicleta elétrica como acessório. Perto dele, o imponente Mercedes SLK 55, lançamento cujo apelo é o motor de 422 cavalos. Não muito longe, se fazia festa em torno do valente 458 Spider, da Ferrari, capaz de chegar aos 100 quilômetros por hora em 3,4 segundos e alcançar a velocidade de até 320 quilômetros por hora.

Até aqui, o automóvel do futuro tem muitas faces. Mas os fabricantes não parecem convencidos a mudar a fórmula radicalmente. Durante o jantar no Ivory Club, J.Mays, que comanda a área de desenho da Ford, disse que a indústria vai, como sempre, interpretar o desejo do consumidor: “Sabemos que fizemos a coisa certa quando o carro consegue falar sobre o consumidor. É como fazer um filme. Se o telespectador viaja na história é porque o produtor fez seu trabalho.”

Antes de encerrar o encontro, Booth, o chefe das finanças, resumiu: “A importância do carro verde e da economia de combustível continuará a crescer no mundo. Mas, enquanto para alguns, Mustang é a definição de um carro, para outros, essa definição é um modelo híbrido. Só que eu não consigo imaginar alguém sentindo saudades do híbrido…”

A repórter viajou a convite da Anfavea

Fonte: Jornal Valor Econômico – 29/09/2011 – página A14