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O desafio de aumentar a eficiência

segunda-feira, novembro 28th, 2011

Por Gerson Freitas Jr. | De São Paulo

O mundo pode ter de ampliar em 175 milhões a 220 milhões de hectares a área disponível para a agricultura a fim de atender à demanda mundial por alimentos em 2030, uma expansão de 10% a 15% em relação às necessidades atuais.

A projeção faz parte do estudo “Resource Revolution: Meeting the world’s energy, materials, food and water needs” (Revolução dos Recursos Naturais: Atendendo à demanda mundial por energia, alimentos e água), publicado pela consultoria americana McKinsey.

Além do maior consumo de alimentos, a projeção leva em conta fatores como perdas de produtividade decorrentes da degradação do solo, falta d’água, mudanças climáticas, avanço das cidades e maior uso de biocombustíveis.

Considera, ainda, a projeção da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) segundo a qual a produtividade média agrícola deverá crescer a uma taxa anual de apenas 1% nos próximos anos – ritmo inferior à média das últimas décadas.

Atualmente, a área ocupada com a agricultura é estimada em 1,53 trilhão de hectares ao redor do globo. Considerando-se um cenário-base – sem investimentos relevantes em ganhos de eficiência nas fazendas, novas técnicas de irrigação, recuperação de solo e medidas contra o desperdício de alimentos -, seria necessária ampliá-la em 10% a 15%, para 1,71 trilhão a 1,75 trilhão de hectares.

Só o aumento da demanda por alimentos, em países como China e Índia, pode exigir uma expansão de 90 milhões de hectares. As perdas de produtividade provocadas pela degradação do solo, esgotamento dos recursos hídricos e outros efeitos das mudanças climáticas poderiam demandar mais 30 milhões a 75 milhões de hectares até 2030 como compensação. “A degradação acentuada do solo afeta 20% de toda a área arável no mundo”, aponta o estudo.

Cerca de 30 milhões de hectares agricultáveis seriam perdidos para a urbanização, exigindo a abertura de novas áreas e aumentando a pressão sobre as florestas. Por fim, o aumento da demanda por terras para a produção de energia exigiria outros 15 milhões de hectares. “Estimamos que a demanda por biocombustíveis de primeira geração vai dobrar nos próximos 20 anos, impulsionada por Brasil e EUA”.

O estudo conclui que 40% a 50% de toda a área remanescente disponível para a agricultura precisaria ser utilizada, especialmente em regiões pobres em infraestrutura, como América Latina e África, “o que deve aumentar de modo significativo os custos de oferta”. “Também é provável que, em um cenário de preços elevados (…), a maneira mais fácil de atender à demanda seria pela via do desmatamento.”

Por outro lado, seria possível até reduzir a área plantada nos próximos 20 anos se governos e empresas fossem capazes de “capturar” todas as oportunidades de investimento em ganhos de produtividade. Ao todo, calcula o estudo, entre 215 milhões e 325 milhões de hectares hoje utilizados poderiam ser “poupados” em duas décadas.

A McKinsey afirma que os governos precisam integrar as políticas relacionadas à gestão dos recursos naturais (água, florestas, terras), ao desenvolvimento rural e à segurança alimentar, sem o que o desafio de aumentar a eficiência pode fracassar. A consultoria diz ainda que os investimentos necessários seriam estimulados por cortes nos subsídios a setores ineficientes, desonerações e mecanismos que precifiquem as emissões de carbono.

Fonte: Jornal Valor Econômico – 28/11/2011 – página B14

O ‘mercado’ e a oferta global de alimentos

quinta-feira, novembro 17th, 2011

Cenários – Debate entre ampliação da oferta e lucro ganha importância. Por Sophia Grene | Financial Times

Mercado de alimentos na China: nas próximas décadas será preciso produzir mais alimentos que nos últimos 10 mil anos

A mão invisível do mercado pode até resolver algum dia o problema da oferta de alimentos em um mundo superpovoado, mas os investidores não podem ser dispensados da responsabilidade de ajudar essa mão a atingir tal objetivo, segundo gestores de recursos especialistas em investimentos agrícolas.

O problema precisa urgentemente de solução. Segundo a FAO, braço das Nações Unidas para agricultura e alimentação, nas próximas décadas será necessário produzir mais alimentos do que nos últimos 10 mil anos. A FAO calcula que até US$ 100 bilhões precisarão ser investidos na agricultura de países em desenvolvimento para elevar a produção mundial de alimentos em 70%, aumento que considera necessário para evitar que mais pessoas passem fome.

Os investidores que se voltam ao setor agrícola possuem uma pletora de formas para alocar recursos. Entre as possibilidades estão o mercado futuro de commodities agrícolas, investimentos em propriedades como os realizados por fundos de “private equity”, compras de ações e financiamento de dívidas. A decisão envolve não apenas estudos sobre como os investimentos podem se encaixar em suas carteiras, mas também a intenção dos agentes ao entrar com esses recursos.

“Qual é o interesse, buscar soluções em vez de tentar lucrar com a situação?”, pergunta Ralf Oberbannscheidt, que administra € 2,2 bilhões no Global Agribusiness Fund, da DWS. O debate sobre a ética de se investir em commodities no mercado futuro é permanente. A ala que sustenta que a especulação empurra os preços para cima e aumenta a volatilidade ganhou terreno ultimamente, uma vez que a opinião pública, em geral, passou a ficar mais contrária à negociação de derivativos. Mas a avaliação do mundo acadêmico, baseada nas evidências do único caso real testado – o impacto da lei americana de 1957 que proibiu a negociação de contratos futuros de cebola -, é inconclusiva.

Para Oberbannscheidt, a negociação de contratos futuros não apenas é reprovada como uma “solução” para o problema da oferta de alimentos, mas também é indesejável porque o mercado é distorcido em seus fundamentos. “As commodities agrícolas são negociadas de forma muito ineficiente (…) Elas são retardatárias ao reagir aos eventos mundiais, principalmente porque o mercado é muito centrado nos EUA”. Ele observa que esses mercados são em grande parte guiados por especialistas em mercados futuros, não em produção de alimentos.

Em seu relatório “Perspectivas Alimentares”, a FAO sustenta que “deixar os mercados internacionais continuarem em seu estado atual, volátil e imprevisível, apenas agravará as perspectivas já sombrias para a segurança alimentar mundial”.

Nos últimos três ou quatro anos, aumentou o interesse em investir em terras cultiváveis, porém mais recentemente esse tipo de negócio passou a sofrer uma avaliação mais crítica de organizações não governamentais como a Oxfam, que promove campanha chamada “Grow” (cultive, em inglês) para colocar em evidência o impacto dos investimentos internacionais em terras sobre as populações locais. Para suavizar alguns desses problemas, um grupo de trabalho ligado aos Princípios para o Investimento Responsável, da ONU, elaborou um conjunto de diretrizes para guiar investimentos em terras agrícolas.

Porém, além das possíveis questões éticas, muitos investidores ficaram decepcionados com os retornos de seus primeiros investimentos em terras. “A maioria tinha projeções de retornos pouco realistas, carecia de capacidade administrativa, não tinha o horizonte de tempo apropriado ou encontrava problemas de documentação”, afirma Oberbannscheidt.

Outro problema é que em algumas regiões, como no Brasil, os valores das terras dispararam, tornando o investimento menos atraente. “Houve um pouco de disputa pela propriedade das terras”, observa David Creighton, executivo-chefe da canadense Cordiant Capital, especializada em dívidas do setor privado em países emergentes. “Os preços decolaram no Brasil, a ponto de o modelo não ser mais tão sólido.”

Em vez disso, a Cordiant Capital, que vem concedendo crédito a projetos de agronegócios há dez anos, concentra-se em segmentos como produção de maquinário e equipamentos, produção de fertilizantes e silos para grãos. Creighton diz que a Cordiant Capital normalmente oferece rendimentos de 3 a 6 pontos percentuais acima taxa interbancária do mercado de Londres (Libor) para dívidas sênior com garantia. Em termos de risco de crédito, Creighton afirma que a Cordiant Capital explora “o telhado de vidro de empresas em mercados emergentes, cuja percepção de ‘rating’ de crédito é limitada à de seus países”.

Com a análise apropriada das contas, é possível buscar investimentos para sua carteira em oportunidades de concessão de crédito para empresas que, na prática, são de “grau de investimento”, particularmente porque em geral são garantidas por ativos reais, como terras e maquinário.

Embora o financiamento de dívidas possa oferecer oportunidades de investimento que não estão nos mercados de ações, nem todos os investidores sentem-se confortáveis com a ideia de investir em títulos do setor privado em países emergentes.

É possível encontrar mais transparência e liquidez nas ações. Oberbannscheidt está convencido de que as ações negociadas publicamente são a melhor forma para os investidores participarem tanto de uma oportunidade de investimento como de uma solução para o problema. “Precisamos melhorar a eficiência de toda a cadeia de valor”. Um obstáculo é que os investidores em renda variável raramente pensam em um horizonte suficientemente longo para que o aporte no setor tenha melhor eficiência.

Fonte: Jornal Valor Econômico – 17/11/2011 – página B11

Alta de alimentos deve persistir, diz ONU

terça-feira, outubro 11th, 2011

Conjuntura – Demanda crescente, clima adverso e biocombustíveis explicam valorização e volatilidade dos preços. Por Emiko Terazono | Financial Times

Os preços dos alimentos devem permanecer elevados e voláteis ao longo dos próximos anos por causa da crescente demanda, do impacto cada vez mais frequente de eventos climáticos extremos e da indústria de biocombustível, de acordo com um relatório das agências da Nações Unidas para Agricultura.

A alta dos alimentos e a crescente volatilidade dos preços se tornaram um importante problema político e econômico, especialmente nos países em desenvolvimento. O salto nos preços dos grãos e de outros alimentos básicos levou a distúrbios durante a crise alimentar de 2007-08 e mais recentemente os bancos centrais asiáticos apertaram a política monetária para combater a alta dos alimentos.

“A volatilidade nos preços está aqui para ficar”, disseram as agências da ONU em seu principal relatório anual: “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo”. O relatório é publicado conjuntamente pela Agência para Agricultura e Alimentos (FAO), pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (Ifad, na sigla em inglês) e pelo Programa Alimentar Mundial (PAM). “Pequenos, os países dependentes de importações, particularmente na África, estão especialmente em risco”, alertaram.

Clique na imagem para fazer download do relatório - Inglês

 

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Tradicionalmente, a ONU usa esse relatório para fornecer uma estimativa do número de famintos crônicos no mundo. Entretanto, as agências voltadas para a agricultura disseram que não será capaz de publicar o número no relatório de 2011, por estarem revisando a metodologia para medir a fome crônica. A FAO, o Ifad e o PAM disseram que sua melhor estimativa para o número de pessoas com fome no mundo manteve-se em 925 milhões para 2010.

O relatório alerta que os preços subiram em função do rápido crescimento da demanda por conta do desenvolvimento econômico, do crescimento da população e do aumento do uso de biocombustíveis. Ao mesmo tempo, uma “ligação mais forte entre os mercados agrícola e de energia, bem como a maior frequência de choques climáticos” estavam impulsionado a volatilidade dos preços.

A ONU disse que a especulação financeira também pode aumentar a volatilidade nos preços, embora tenha advertido que a ligação entre investimento financeiro e preços foi “uma questão muito debatida, mas sem consenso claro”. Com os legisladores culpando-os pelos altos preços, a União Europeia e os Estados Unidos anunciaram restrições às posições assumidas por fundos de hedge e outros investidores grandes nos mercados de commodities agrícolas.

O índice de preços de alimentos da FAO, formado por cesta de commodities como trigo, milho, arroz, açúcar, carne e óleo vegetal, subiu 15% em relação ao ano passado. O índice saltou quase 150% na última década.

A FAO, o Ifad e o PAM alertaram que as restrições às exportações também levaram à escassez de alimentos, exacerbando a volatilidade dos preços. Enquanto “alguns grande países foram capazes de isolar seus mercados da crise por meio de políticas comerciais restritivas”, numa clara referência à proibição de exportações impostas por Rússia, Índia, China e Argentina, entre outros, isso levou ao “aumento de preços e à volatilidade nos mercados internacionais”.

Países pobres, principalmente na África, sofreram com a crise. Burkina Fasso e Etiópia, por exemplo, tiveram aumentos da desnutrição e pediram mais assistência alimentar. Já países como China e Índia se beneficiaram das restrições às exportações para aliviar a escassez local de alimentos, enquanto outros, como Tailândia e Vietnã, se beneficiaram da alta dos preços dos ocasionada por essas medidas.

Fonte: Jornal Valor Econômico – 11/10/2011 – página B11