A última fronteira do capital especulativo

Commodities – Preços de 2011 são os maiores da década, e correlação com mercado financeiro segue elevada. Por Gerson Freitas Jr. | De São Paulo

Apesar da queda em setembro, reflexo da deterioração do cenário internacional, os preços médios das principais commodities agrícolas continuam em níveis historicamente altos nos mercados futuros internacionais. De acordo com levantamento realizado pelo Valor Data, o preço médio dos contratos de soja, milho, trigo, açúcar e café nas bolsas de Chicago e Nova York em 2011 é pelo menos três vezes maior que o do início da década.

O aperto nos estoques, reflexo da forte demanda nos países emergentes e da quebra da produção no Hemisfério Norte neste ano, explica a resiliência. Mas os preços também são sustentados pelo crescente volume de capital especulativo alocado nos mercados de commodities. Embora tenha diminuído desde abril (ver matéria abaixo), a quantia de dinheiro aplicada em contratos de commodities em 2011 não tem precedentes.

Uma das consequências mais visíveis é o que os analistas chamam de “financeirização” desses ativos, ou seja, seu atrelamento à lógica dos mercados financeiros, antes indiferentes ao cenário de oferta e demanda das matérias-primas. Não à toa, a correlação entre preços futuros das matérias-primas e ações da bolsa de Nova York, por exemplo, atingiu níveis inéditos após a quebra do Lehman Brothers, há três anos. Um estudo do Barclays Capital mostra que, desde novembro de 2008, a correlação mensal entre os mercados de ações e commodities foi de 65%. Nas décadas anteriores, era próxima de zero.

Dados do Valor Data mostram que, em 2008, a correlação entre o índice CRB (referência para os preços internacionais das commodities) e o índice S&P 500 da bolsa de Nova York foi de apenas 11% até agosto, mês que antecedeu a quebra do banco americano. Após o estouro da crise, foi a 89%. Em 2009, alcançou 94%, recuando a 83%, em 2010, e 73%, neste ano. Nos mercados agrícolas, onde o peso do capital especulativo é menor, a correlação com os preços das ações é inferior, mas também significativa. Era de 27% antes da crise, chegou a 73% em 2009, recuou a 64% em 2010 e agora está próxima de 50%.

Movimentos de manada, típicos de períodos de crise ou euforia, explicam o fenômeno. A quebra de uma instituição financeira, como em 2008, ou a ameaça de um calote soberano, como o da Grécia, fazem com que investidores fujam da exposição a ativos de risco, sem se importar com os fundamentos específicos de cada mercado, causando uma queda generalizada nos preços. Passada a tempestade, o capital retorna em massa e produz uma recuperação também generalizada.

Kevin Norrish, diretor gerente de pesquisa em commodities do Barclays, afirma que a correlação elevada é um “sintoma” de condições econômicas extremas e não deve se manter no longo prazo. Para ele, os investidores que aplicam em commodities buscam um elemento de diversificação aos mercados tradicionais. “Os fundamentos explicam a diferença no comportamento entre os ativos”, afirma.

Os preços das commodities, diz Norrish, refletem a interação “em tempo real” entre oferta e demanda. E os das ações, as projeções de fluxo de caixa para 12 meses ou mais. Portanto, sustenta o analista, a tendência natural do mercado seria um retorno ao padrão histórico de correlação -“algo próximo a zero” – tão logo o cenário de incertezas fique para atrás.

A inserção das commodities na lógica das expectativas dos agentes financeiros é um fenômeno relativamente recente e acompanha o aumento do interesse dos grandes investidores. O volume de capital especulativo aplicado nos mercados futuros de petróleo, metais e produtos agrícolas era de apenas US$ 15 bilhões por volta do ano 2000, mas chegou próximo a US$ 270 bilhões às vésperas da crise financeira. E embora tenha caído quase à metade após a quebra do Lehman Brothers, ultrapassou a barreira dos US$ 450 bilhões em abril deste ano.

O estouro da bolha da internet e os ataques terroristas aos EUA, em 2001 – que deram início à flexibilização da política monetária americana e à debacle do dólar no mundo – combinados com a ascensão da China – que mudou a dinâmica do crescimento global e seu impacto sobre a demanda por matérias-primas – tornaram as commodities uma opção de investimento atraente aos grandes fundos de pensão e de hedge, fosse em busca de proteção contra um cenário inflacionário, fosse como elemento de diversificação de suas carteiras no longo prazo.

“Os juros baixos estimularam o investimento, a tomada de risco e a adoção de estratégias para as commodities muito semelhantes às dos ativos financeiros. A crise de 2008 trouxe uma desalavancagem, mas a resposta do Federal Reserve, (o banco central dos EUA), que injetou mais de US$ 2 trilhões no mercado, contribuiu de vez para a financeirização dos ativos – ironicamente, mais agora do que antes da crise”, afirma Vinícius Ito, analista do Jefferies Bache, em Nova York.

Ito diz que a maior participação dos fundos nesse mercado provocou movimentos de preço “exagerados”, especialmente em períodos mais intensos de entrada e saída de dinheiro, mas pondera que o capital especulativo tornou-se um “mal necessário” em um mundo onde a relação entre os estoques e o consumo caiu pela metade nos últimos anos. “É esse capital que ‘financia’, via aumento de preço, a expansão da produção”, afirma.


Investimento em commodities soma US$ 393 bi

Por De São Paulo

O valor da carteira de commodities dos fundos de investimento caiu a US$ 393 bilhões em setembro, ante US$ 408 no encerramento do segundo trimestre. Os dados foram divulgados na sexta-feira pelo banco de investimento Barclays Capital.

Quase metade dos recursos, cerca de US$ 174 bilhões, está aplicada em contratos de metais preciosos. Os mercados de energia e agricultura aparecem na sequência, com US$ 110 bilhões e US$ 92 bilhões, respectivamente. Os papéis lastreados em metais básicos abocanham os US$ 18 bilhões restantes.

Foi a primeira vez, desde 2008, que o volume de dinheiro aplicado nesse mercado caiu por dois trimestres seguidos, reflexo das crescentes preocupações com o agravamento da crise da dívida soberana na Europa e seu impacto sobre o crescimento da China e outros países emergentes.

Em setembro, período de maior aversão ao risco nos mercados financeiros, os fundos sacaram quase US$ 9,5 bilhões das commodities. Apesar disso, o saldo entre saques e novos investimentos no trimestre ficou praticamente neutro (- US$ 100 milhões). A forte queda nos preços dos ativos, contudo, fez com o que o valor da carteira diminuísse no fim do período.

De acordo com o Barclays, os investidores retiraram quase US$ 2,2 bilhões dos mercados agrícolas, o que é o pior resultado trimestral desde o início da série, no começo de 2008. Os contratos de energia e metais básicos também foram afetados pelas liquidações. O único segmento que recebeu novos aportes foi o de metais preciosos, vistos como um porto seguro em períodos de instabilidade financeira.

O valor aplicado em commodities bateu recorde em abril deste ano, quando alcançou a marca de US$ 451 bilhões – resultado da alta nos preços e de um aporte de mais US$ 80 bilhões nos 15 meses anteriores. Apesar de ter diminuído desde então, o valor total ainda é US$ 17 bilhões superior àquele registrado no fim de 2010 (US$ 376 bilhões). (GFJ)

Fonte: Jornal Valor Econômico – 24/10/2011 – página B12

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