Nave leva jogos para a sala de aula

Por Moacir Drska | De São Paulo

Mateus Lacerda de Sá Teles é um dos alunos do colégio que planeja colocar seu produto no mercado

Prestes a completar o terceiro ano do ensino médio, Mateus Lacerda de Sá Teles, 18, já decidiu o caminho profissional que pretende trilhar. Distanciando-se das dúvidas naturais da idade, ele avisou aos pais que ganhará a vida como desenvolvedor de jogos eletrônicos. Além do sonho na cabeça, o jovem carrega no currículo um bom trunfo: o jogo para computador “Robotic Hero”, criado com outros colegas durante as aulas e intervalos do Colégio Estadual José Leite, no Rio de Janeiro.

“É uma versão beta, mas estamos finalizando o jogo para colocá-lo no mercado”, diz Mateus, a respeito do jogo ambientado em um mundo habitado por robôs e que mistura conceitos de matemática, biologia, geografia e física.

Longe de ser uma exceção, o caso de Mateus é um dos exemplos produzidos no colégio carioca, que desde 2008 abriga uma das unidades do Núcleo Avançado em Educação (Nave). O projeto do Oi Futuro – instituto do grupo Oi – conta ainda com o Centro de Ensino Experimental Cícero Dias, escola da rede pública do Recife.

Atualmente, o Nave tem cerca de 900 alunos nas duas unidades. O processo de seleção envolve questões tradicionais e uma avaliação de perfil. Em virtude da procura, os colégios abriram neste ano 5% das vagas disponíveis para alunos de escolas particulares.

Fruto de uma parceria com as Secretarias Estaduais de Educação do Rio de Janeiro e de Pernambuco, o Nave combina a grade tradicional de ensino com cursos de tecnologia, que incluem temas como programação de sistemas, roteiro e multimídia para jogos eletrônicos.

Os professores e alunos têm à disposição recursos como lousas interativas, laboratórios de captação de imagens de alta definição e estúdios de gravação. As aulas de tecnologia são ministradas por profissionais de mercado custeados pelo Oi Futuro. “A ideia é fugir do formato convencional de aulas expositivas, que têm baixa participação dos alunos”, diz George Moraes, vice-presidente do Oi Futuro.

Segundo Moraes, os jogos foram escolhidos como fio condutor da metodologia pelo fato de aproximarem a escola do cotidiano dos alunos. Para ele, a construção dos jogos facilita e reforça o aprendizado de conteúdos das matérias ditas tradicionais. O executivo cita, por exemplo, a possibilidade de usar elementos de texto, história e geografia na produção dos roteiros. A programação, por sua vez, abre caminho para explorar conceitos de matemática e lógica.

O projeto investe na interação entre o corpo docente, para a criação de jogos sob uma abordagem integrada. “Temos o cuidado de passar para os alunos, porém, que não se trata de criar por criar. Os ‘games’ devem ter características que entusiasmem quem for jogá-los”, afirma Moraes.

O Nave busca disseminar o protagonismo entre os alunos, a despeito da profissão escolhida, diz Eduardo Azevedo, coordenador do curso de programação. “A proposta é estimular o empreendedorismo e a proatividade. Nós observamos que eles acabam buscando por conta própria os recursos necessários para dar vida aos projetos”, conta. Ele acrescenta que existem alunos em fase final para colocar jogos à venda em locais como a loja de aplicativos da Apple.

Outro fator importante, destaca Moraes, é o método de avaliação, que abrange notas individuais e coletivas, relacionadas aos projetos criados em grupo. “Alguns alunos têm mais facilidade com programação, outros com roteiro. Como a performance de cada um interfere no todo, eles acabam ajudando uns aos outros”, observa.

Os resultados do projeto estão sendo colhidos. Na edição 2010 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o colégio carioca ficou em 2º lugar entre as 268 escolas da capital ligadas à Secretaria de Educação. “No Rio, o Nave superou a marca de 600 pontos, que é a média aspirada pelo Ministério da Educação para 2026”, diz Moraes. O Centro Experimental de Recife, por sua vez, alcançou a 4ª posição entre as 111 escolas de Recife.

Fonte: Jornal Valor Econômico – 09/11/2011 – página B3

Tags: ,

Deixe uma resposta