Archive for the ‘Finanças comportamentais’ Category

Daniel Kahneman: O enigma da experiência x memória

sexta-feira, setembro 14th, 2012

Usando exemplos de férias a colonoscopias, ganhador do prêmio Nobel e fundador da economia comportamental Daniel Kahneman revela como nossas “próprias experiências” e nossas “próprias lembranças” percebem a felicidade de forma diferente. Esta nova visão tem profundas implicações para a economia, a política pública – e nossa própria auto-consciência.

Amplamente considerado como mais influente psicólogo vivo do mundo, Daniel Kahneman ganhou o Nobel de Economia por seu trabalho pioneiro em economia comportamental – explorando as formas irracionais que tomam decisões sobre o risco.

“Nós não escolhemos entre nossas experiências, escolhemos entre as memórias de experiências. Mesmo quando pensamos sobre o futuro, nós não pensamos no nosso futuro, normalmente, como experiências. Pensamos no nosso futuro como memórias antecipadas.” (Daniel Kahneman) ”

 


“Os chefes não gostam de críticas”, declara Daniel Kahneman

quinta-feira, agosto 9th, 2012

Para Daniel Kahneman, Nobel de Economia em 2002, a direção das empresas poderia melhorar muito seu processo de decisão, mas pouco é feito porque os presidentes morrem de medo de mais escrutínio

Eduardo Salgado, de Exame

Sean Gallup/Getty Images

Daniel Kahneman: “Identificar erros pode fazer crescer o escrutínio sobre os presidentes das empresas, e ninguém gosta de ter gente olhando por cima de seu ombro”

São Paulo – Professor emérito da universidade Princeton, o israelense Daniel Kahneman, de 78 anos, é um dos maiores expoentes mundiais na área do conhecimento dedicada à pesquisa do processo de decisão. Suas investigações ajudaram a colocar em xeque a ideia do Homo economicus, segundo a qual as pessoas sempre tomam decisões racionais movidas pelo interesse próprio.

Kahneman provou que, na vida real, todos somos influenciados pela razão, mas também por nossas crenças, ideias preconcebidas, intuições e emoções. Pelo conjunto de seu trabalho, Kahneman, um psicólogo sem formação na área econômica, foi premiado, em 2002, com o Nobel de Economia. Seu último livro — Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar — é um resumo de toda a sua obra e chega às livrarias brasileiras no começo de agosto.

Kahneman falou com EXAME sobre a aplicação de suas ideias no mundo empresarial, a posição alemã na crise  europeia e a influência da internet na maneira como pensamos — tudo numa narrativa racional e, aparentemente, sem se basear na intuição.

EXAME – O senhor diz que a intuição é parte essencial do pensamento humano. É possível usar suas descobertas para melhorar a gestão de empresas?

Daniel Kahneman – Sim, há muito espaço para melhorar a forma como as decisões são tomadas nas organizações. De certa forma, empresas são fábricas de decisões. Como acontece na fabricação de toda a espécie de produto, é necessário ter um sistema de controle de qualidade.

No caso dos processos de decisão, porém, isso infelizmente não acontece com frequência. É muito difícil implementar um sistema de qualidade desse tipo, que consiga avaliar se as decisões foram tomadas tendo como base todas as informações necessárias. Medições que consigam nos dizer se as pessoas envolvidas não foram precipitadas, se não foram influenciadas por preconceitos ou por um viés. Acima de tudo, responder se a decisão tomada foi a melhor que poderia ter sido alcançada naquelas circunstâncias.

EXAME – Como esse programa de qualidade poderia ser implementado?

Daniel Kahneman – A primeira coisa a fazer é uma lista dos erros que a organização está mais propensa a fazer. Em segundo lugar, a direção da empresa pode ter uma espécie de checklist. Antes de a direção bater o martelo sobre um determinado assunto, um grupo olharia a lista para tentar identificar erros.

EXAME – Do jeito que o senhor fala, adotar um sistema de qualidade no processo decisório parece simples. Por que, então, a maior parte das empresas não o adota? 

Daniel Kahneman – Porque o escrutínio sobre os presidentes das empresas seria muito maior, e ninguém gosta de ter gente olhando por cima do seu ombro. Existe muita resistência a essa ideia. Por isso, as empresas não aprendem com seus próprios erros. Pelo menos, não na velocidade que potencialmente poderiam aprender.

EXAME – Como funciona a fase de identificação de erros?

Daniel Kahneman – Para identificar os deslizes mais comuns é necessário ter uma boa documentação do histórico das decisões. É a partir disso que se pode fazer uma análise detalhada. A necessidade de ter tudo documentado acaba sendo outro obstáculo. Por questões legais, muitas empresas fazem de tudo para apagar rastros que possam, mais tarde, causar algum tipo de problema.

O melhor exemplo disso é que certos assuntos não são mais tratados por e-mail. Por tudo o que falei, a luta por decisões mais eficientes é difícil, o que é lastimável. Faz sentido para mim que organizações com processos de decisão mais precisos e menos intuitivos tenham resultados melhores.

EXAME – Em seu novo livro, o senhor diz que as pessoas tendem a correr riscos desproporcionais para evitar uma possível perda imediata. Por quê?

Daniel Kahneman – Nossa tendência é considerar o futuro distante como algo incerto. Isso nos leva a achar que o futuro é menos importante do que o presente. Diante de uma ameaça imediata, nossa predisposição, desde o nascimento, é tentar evitá-la, mesmo quando isso envolve ter uma perda muito maior no futuro.

EXAME – Para parte dos economistas, a resistência da Alemanha em resgatar os países europeus em dificuldade agora poderá causar uma crise de proporções ainda maiores no futuro. Até que ponto a posição do governo alemão pode ser explicada pela aversão ao risco imediato? 

Daniel Kahneman – Tenho certeza de que muitos analistas concordariam que é esse o caso. Para quem acompanha a situação europeia sem fazer parte do debate dentro dos governos, como eu, parece que os alemães não querem assumir grandes perdas imediatamente e, dessa forma, implicitamente, aceitam o risco de perdas que podem até ser catastróficas no futuro. Eles ficam fazendo concessões, porém elas nunca são suficientes para resolver a crise. Mas quero ressaltar que não sou um especialista nesse assunto.

EXAME – O senhor sustenta que a organização básica da mente humana não muda há séculos. De que forma ela pode ser alterada pelo uso da internet?

Daniel Kahneman –  internet acaba com a necessidade de as pessoas fazerem um esforço para lembrar de informações. Vemos isso o tempo todo. Quando um grupo de pessoas está conversando e alguém pergunta em que ano aconteceu tal fato histórico, logo surge um smart­phone e, em questões de segundos, encontra-se a data certa.

No futuro, acredito que a internet vai acabar interferindo ainda mais. Quem estiver em dúvida sobre uma determinada questão poderá acessar as decisões tomadas em situações similares por outras pessoas. A influência do meio social deverá ser muito maior. Quando tivermos um problema, haverá uma forma estruturada para nos ajudar a chegar a uma conclusão.

EXAME – Mas o fato de as pessoas não se esforçarem mais tanto para lembrar de dados não irá afetar a maneira como pensamos? 

Daniel Kahneman – Não tenho uma opinião formada sobre isso. Quais serão os efeitos no longo prazo? Como isso vai afetar a educação? Como a mania dos jovens de fazer várias coisas ao mesmo tempo afeta a qualidade do pensamento? Ainda temos muitas perguntas em aberto.

EXAME – Quais são as pesquisa que devem ter impacto na área econômica nos próximos anos?

Daniel Kahneman – No longo prazo, ninguém tem a menor ideia. No curto prazo, podemos fazer algumas extrapolações. Atualmente, há muitos alunos que estão estudando neuroeconomia (área voltada para a análise do processo de decisão com base na atividade cerebral). Isso nos leva a pensar que parte deles vai fazer toda a carreira nessa área.

EXAME – Quais são as descobertas mais marcantes da neuroeconomia até agora? 

Daniel Kahneman – Algumas ideias teóricas que temos sobre o que ocorre na mente das pessoas realmente podem ser testadas por meio do estudo da atividade cerebral. No momento, isso ainda está muito primitivo, mas no futuro vai melhorar. Economistas clássicos sempre sentiram desconforto com explicações com base na psicologia. Quando tivermos evidências neurológicas, pode ser que diminua a resistência.

Fonte: Portal Exame

http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1021/noticias/os-chefes-nao-gostam-de-criticas-declara-daniel-kahneman


Não dependa da intuição para tomar decisões

quarta-feira, junho 20th, 2012

Para Daniel Kahneman, Nobel de Economia, é um grande risco tomar decisões usando a área preguiçosa e irracional do cérebro

Bruno Ferrari, de Exame

Francisco Martins/EXAME.com

São Paulo – Suponha que em uma maternidade nasçam seis bebês em sequência. A probabilidade de nascer aleatoriamente meninos e meninas é menor, igual ou maior do que a de nascer somente meninos ou somente meninas? A maioria das pessoas costuma responder que a chance de nascer crianças dos dois sexos é maior.

A resposta é intuitiva, porém incorreta. A probabilidade de nascer seis homens é a mesma para seis mulheres, que também é a mesma para o nascimento de quatro mulheres e dois homens ou qualquer outra combinação.

A explicação é estatística: a chance de cada bebê gerado ser do sexo masculino ou do feminino é de 50%. Logo, não há como estabelecer um padrão mais provável para qualquer tipo de sequência.

O teste dos bebês, que costuma aparecer em provas de recrutamento em bancos, mostra como a intuição pode levar o ser humano a cometer erros nas decisões diárias. Outras dezenas de testes similares são apresentadas pelo psicólogo israelense Daniel Kahneman, de 78 anos, em seu livro Thinking, Fast and Slow (“Pensando, rápido e devagar”, numa tradução livre).

A obra, que deve ser publicada no Brasil no segundo semestre deste ano, abrange as principais fases das pesquisas de Kahneman, ganhador do prêmio Nobel de Economia em 2002 por seus estudos dedicados às finanças comportamentais. A maior parte do trabalho de Kahneman tem a coautoria do também israelense Amos Tversky, morto em 1996, vítima de câncer.

Kahneman e Tversky foram cruciais para que houvesse uma importante mudança no estudo da economia. Historicamente, a teoria econômica se baseou no conceito do Homo economicus, segundo o qual as pessoas tomam decisões racionais motivadas pelos próprios interesses.

Diante de um ambiente de incertezas, os indivíduos analisariam as informações disponíveis com base em padrões estatísticos e escolheriam o melhor caminho possível.

O trabalho de psicólogos da linha cognitiva, como Kahneman e Tversky, ajudou a mostrar que as pessoas tomam decisões baseadas em questões objetivas, mas são igualmente influenciadas por suas emoções, crenças e intuições.

O que mais explicaria os casos de famílias que passam pela experiência de ver a renda diminuir drasticamente e, ainda assim, continuam comprando produtos caros no supermercado? Ou daquelas que ganham cupons de desconto de um supermercado distante, decidem dirigir até lá e acabam gastando em combustível um valor superior ao que vão ganhar na promoção?

Foram justamente as pesquisas de Kahneman e Tversky que serviram de base para um novo entendimento dos mercados financeiros, com suas características flutuações que desafiam a lógica.

Um dos textos mais notáveis da dupla de pesquisadores foi escrito para a revista Science, em 1979, com o título “Teoria do Prospecto: uma Análise das Decisões em Situações de Risco”.

Nele, mostram que, intuitivamente, as pessoas sentem mais desprazer em perder determinada quantia de dinheiro do que prazer em ganhá-la. Com base em testes, eles mostraram que as pessoas normalmente aceitam fazer apostas se o valor que puderem ganhar for, em média, o dobro do que podem perder.

Feelings

A espinha dorsal de Thinking, Fast and Slow é a divisão que o autor faz da mente humana em dois componentes, chamados de sistemas. O sistema 1 toma decisões rápidas, de maneira intuitiva e sem esforço, baseadas em nossa memória associativa (é o Fast). Já o sistema 2, mais lento, é acionado quando nos encontramos em uma situação que exija concentração (é o Slow).

É o sistema 1 que nos faz, por exemplo, lembrar do número 4 quando vemos a operação 2+2= ?. Já o sistema 2 assume o comando quando nossa memória não tem recursos suficientes para dar uma resposta automática. É um sistema mais lento, que nos tira mais energia. Por exemplo, quando deparamos com a conta 17×24= ?.

Num teste com alternativas, o sistema 1 nos permite identificar que se trata de uma multiplicação e eliminar resultados extremos, como 12 609 ou 123. Mas é o sistema 2 que nos possibilita chegar ao resultado correto: 408. Como o sistema 2 deman­da esforço e concentração, em alguns casos delegamos ao sistema 1 a tarefa de resolver situações de conflito.

Mas, como logo aprendem os investidores que subestimam dados estatísticos por acreditar no feeling, a intuição é mais falível. Afinal, é tão provável o nascimento em sequência de cinco meninas do que as outras opções, embora isso não seja visível para a maioria.

Por isso, Kahneman avisa: “Aprenda a reconhecer as situações mais suscetíveis a enganos e evite a intuição se fizer uma aposta alta”. Siga a intuição — mas cuide de seu dinheiro.

Fonte: Portal Exame

http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1018/noticias/nao-dependa-da-intuicao-para-tomar-decisoes


Daniel Kahneman: Tenha cuidado com a ‘visão de dentro’

domingo, janeiro 29th, 2012

Achei interessando a visão do professor Daniel Kahneman sobre o que ele chama de ‘visão de dentro’, até então situações parecidas eu costumo abordar como estar envolvido com o problema, o que normalmente ocorre é que quando estamos dentro de um problema não conseguimos olhar de fora e ver alternativas e possíveis soluções. Segue abaixo o texto do artigo publicado no side da consultoria Mckinsey no link.


Daniel Kahneman: Tenha cuidado com a ‘visão de dentro’

Em um trecho de seu novo livro, Pensamento, Rápido e Lento, o Prêmio Nobel recorda como uma abordagem de previsão focada internamente uma vez o levou a seguir um mau caminho, e por que uma perspectiva externa pode ajudar os executivos a fazer melhor.

Na década de 1970, convenci alguns funcionários do Ministério Israelense de Educação da necessidade de um currículo para ensinar julgamento e tomada de decisão em escolas de ensino médio. A equipe que eu montei para conceber o currículo e escrever um livro texto incluíam vários professores experientes, alguns dos meus alunos de psicologia, e Seymour Fox, então diretor da Escola da Universidade Hebraica de Educação e especialista em desenvolvimento curricular.

Depois dos encontros todas as tardes de sexta-feira, por cerca de um ano, nós tínhamos construído um esboço detalhado do programa, escrito um par de capítulos, e executado algumas poucas aulas de exemplo. Todos nós sentimos que tínhamos feito um bom progresso. Então, como estávamos discutindo procedimentos para estimar quantidades incertas, um exercício que me ocorreu. Pedi a todos que anotassem sua estimativa de quanto tempo levaríamos a apresentar um projeto acabado do livro didático para o Ministério da Educação. Eu estava seguindo um procedimento que já planejava incorporar em nosso currículo: a maneira correta de obter informações de um grupo não é iniciando com uma discussão pública, mas pela coleta confidencial do julgamento de cada pessoa. Eu coletei as estimativas e anotei os resultados no quadro. Elas foram estritamente centradas em torno de dois anos: o menor fim foi um ano e meio, e o fim mais alto em dois anos e meio.

A desconexão chocante

Então eu me virei para Seymour, nosso especialista em currículo, e perguntei se ele poderia pensar em outras equipes semelhantes a nossa, que haviam desenvolvido um currículo a partir do zero. Seymour disse que poderia pensar em um bom número, e que estava familiarizado com os detalhes de várias. Pedi-lhe para pensar nessas equipes quando elas estavam no mesmo ponto do processo como que nós. Quanto tempo demoraram para concluir os seus projetos de livros didáticos?

Ele ficou em silêncio. Quando ele finalmente falou, pareceu-me que ele estava tímido, envergonhado por sua própria resposta: “Você sabe, eu nunca percebi isso antes, mas na verdade nem todas as equipes em um estágio comparável ao nosso concluíram sua tarefa. Uma fração substancial das equipes acabou por não terminar o trabalho.”

Isso era preocupante, nós nunca tinha considerado a possibilidade de que poderíamos falhar. Com minha ansiedade crescendo, perguntei o quão grande ele estima que era esta fração. “Cerca de 40 por cento”, disse ele. Até agora, uma nuvem de tristeza estava caindo sobre o quarto.

“Aqueles que terminaram, quanto tempo demorou?”

“Eu não me lembro de qualquer grupo que terminou em menos de sete anos”, disse Seymour, “nem que levou mais de dez anos.”

Eu segurei um chapéu de palha: “Quando você compara as nossas habilidades e recursos com os dos outros grupos, o quanto bom nós somos? Como você classificaria nós em comparação com essas equipes? ”

Seymour não hesitou muito tempo.

“Estamos abaixo da média”, disse ele, “mas não muito.”

Isso veio como uma completa surpresa para todos nós, incluindo Seymour, cuja estimativa prévia tinha sido bem dentro do consenso otimista do grupo. Antes de eu abordá-lo, não houve nenhuma conexão em sua mente entre o seu conhecimento da história de outras equipes e sua previsão do nosso futuro.

Deveríamos ter parado naquele dia. Nenhum de nós estava disposto a investir mais seis anos de trabalho em um projeto com uma chance de 40 por cento de fracasso. No entanto, embora devamos ter percebido que não era razoável perseverante, o aviso não forneceu imediatamente uma razão convincente para parar. Depois de alguns minutos de debate desconexo, reunimo-nos e continuamos como se nada tivesse acontecido. Diante de uma escolha, nós desistimos da racionalidade e não do empreendimento.

O livro foi concluído oito anos mais tarde. Neste tempo, eu já não estava vivendo em Israel e fazia tempo que não fazia mais parte da equipe que terminou a tarefa depois de muitas mudanças inesperadas e imprevisíveis. O entusiasmo inicial para a idéia no Ministério da Educação tinha diminuído e o livro texto nunca foi usado.

Por que a visão de dentro não funcionou

Este episódio embaraçoso continua a ser uma das experiências mais instrutivas da minha vida profissional. Eu tinha tropeçado em uma distinção entre duas abordagens profundamente diferentes para a previsão, que Amos Tversky e eu mais tarde rotulados a visão de dentro e a visão de fora.

A visão de dentro é o que todos nós, incluindo Seymour, espontaneamente adotamos para avaliar o futuro do nosso projeto. Estamos focados nas nossas circunstâncias específicas e procuramos por evidências em nossas próprias experiências. Tínhamos um plano esboçado: sabíamos quantos capítulos que íamos escrever, e tivemos uma idéia de quanto tempo ele tinha nos levado para escrever os dois que já tínhamos feito. Os mais cautelosos no meio de nós provavelmente adicionaram alguns meses como uma margem de erro.

Mas extrapolando foi um erro. Nós estávamos prevendo com base nas informações que estavam na nossa frente, mas os capítulos que escrevemos primeiro eram mais fáceis do que outros e nosso compromisso com o projeto foi, provavelmente, no seu pico. O principal problema foi que nós falhamos ao permitir o que Donald Rumsfeld famosamente chamou “ignorar desconhecidos”. Na época, não havia maneira de prever a sucessão de eventos que poderiam levar o projeto a se arrastar por tanto tempo: divórcios, doenças, crises de coordenação com burocracias. Estes eventos não previstos não só retardam o processo de escrita, mas produzem longos períodos durante os quais pouco ou nenhum progresso é feitoem tudo. Claro, o mesmo deve ter sido verdade para as outras equipes que Seymour conhecia. Como nós, os membros dessas equipes não sabiam as probabilidades que eles estavam enfrentando. Há muitas maneiras para um plano falhar, e embora a maioria delas sejam também muito improváveis para se antecipar, a probabilidade de que algo vai dar errado em um grande projeto é alta.

 
Como uma visão externa pode ajudar

A segunda pergunta eu perguntei Seymour dirigiu sua atenção para longe de nós e para uma classe de casos semelhantes. Seymour estima a taxa básica de sucesso em que classe de referência: 40 por cento falha e de sete a dez anos para a conclusão. Sua pesquisa informal não era certamente à altura dos padrões científicos de evidências, mas constituem uma base razoável para uma previsão inicial: a previsão você faz sobre um caso se você não sabe nada, exceto a categoria a que ele pertence. Esta deve ser a âncora para ajustes. Se você é convidado para adivinhar a altura de uma mulher e tudo o que você sabe é que ela mora em Nova York, por exemplo, a sua previsão inicial e o seu melhor palpite será baseado na altura média das mulheres na cidade. Se você está agora com um caso específico de informações, que o filho da mulher é o pivô da sua equipe de basquete da escola, você deve ajustar a sua estimativa. Seymour na comparação de nossa equipe com outras sugeria que a previsão do nosso resultado foi um pouco pior do que a previsão inicial, que já era ameaçadora.

A precisão espetacular da previsão da visão de fora no nosso caso específico foi certamente um acaso e não deve contar como evidência para a validade da visão de fora. No entanto, o argumento para a visão de fora deve ser feita em termos gerais: se a classe de referência é adequadamente escolhida, a visão de fora vai dar uma indicação do número/intervalo. Ele pode sugerir, como aconteceu no nosso caso, que as previsões da visão de dentro não estão nem perto.


Sobre o Autor
Daniel Kahneman é professor emérito de psicologia e relações públicas no Woodrow Wilson da Universidade de Princeton Escola de Assuntos Públicos e Internacionais. Ele foi agraciado com o Prêmio Nobel 2002 em Ciências Econômicas pelo seu trabalho seminal na teoria do prospecto, que desafia o modelo racional de julgamento e tomada de decisão. Este artigo é um trecho editado a partir de seu novo livro, Pensamento, Rápido e Lento, publicado pela Farrar, Straus e Giroux (EUA), Doubleday (Canadá), e Lane Allen (Reino Unido). Copyright © 2011 por Daniel Kahneman. Todos os direitos reservados.

Mercado é coisa da sua cabeça

sexta-feira, dezembro 9th, 2011

Novos modelos tentam explicar o comportamento de consumidores e investidores com conceitos emprestados da neurociência. Por Diego Viana | De São Paulo

Roberto Nejme

 

O vocabulário dos economistas começa a ganhar novos termos, na tentativa de explicar as flutuações dos mercados e o comportamento dos investidores. Oxitocina e testosterona, mesencéfalo e córtex frontal orbital, palavras recorrentes na linguagem dos neurocientistas, começam a circular entre um grupo de pesquisadores ainda pequeno, mas em expansão: os neuroeconomistas.

A neuroeconomia é um ramo da economia comportamental que vai além dos experimentos psicológicos, como os que valeram ao psicólogo israelense Daniel Kahneman o prêmio Nobel de Economia em 2002. Os pesquisadores desse ramo mergulham no próprio funcionamento do cérebro humano, armados de um aparelho que ocupa uma sala inteira: a máquina da ressonância magnética funcional. Mais usada para encontrar indícios de tumores e outras moléstias na massa encefálica, a ressonância também revela a reação do sistema neurológico a estímulos típicos da interação econômica: o risco, o medo de perder, o incentivo de ganhar, o gosto pelas apostas, a preferência por produtos.

As pesquisas neuroeconômicas são razoavelmente recentes (datam dos anos 1990) e seus resultados, ainda tímidos, mas o campo já anima alguns economistas da “velha escola”. Um exemplo notável é Robert Shiller, da Universidade Yale, célebre por trabalhos em economia comportamental e informação assimétrica. Shiller considera que a teoria econômica poderá ser revolucionada muito em breve pela neuroeconomia. O livro que suscitou os comentários otimistas de Shiller é “Foundations of Neuroeconomic Analysis” (Fundamentos de Análise Neuroeconômica), de Paul Glimcher, neurocientista e, mais tarde, economista pela Universidade de Nova York. O título é uma citação, algo provocativa, a outra obra capital da teoria econômica: “Fundamentos de Análise Econômica”, de Paul Samuelson (1915-2009).

“O modelo do agente racional perde a validade se as pessoas têm expectativas diferentes do puro ganho monetário”, diz Angela Stanton

Segundo Shiller, acostumados a lidar com as escolhas dos consumidores e investidores com o nome de “preferências reveladas”, os economistas se tornaram capazes de driblar a “caixa preta” de uma mente insondável – a expressão é de Stanley Jevons e foi cunhada ainda no século XIX. Na fórmula de Milton Friedman (1912-2006), as complexas equações que quantificam utilidades e expectativas funcionariam “como se” revelassem o que ocorre dentro da cabeça das pessoas.

A contribuição da neuroeconomia seria passar do “como se” para o “como é”, a tal ponto que as leis mais básicas da economia, essas que regem os mercados e, para os críticos, explicam a surpresa dos economistas perante a crise que começou em 2008, seriam reescritas. Na verdade, discursando para a Sociedade de Neurociências dos EUA no mês passado, Shiller chegou a afirmar que essa revolução já começou.

Mas até que ponto pode-se dizer que a neuroeconomia explica melhor os fenômenos do mercado que a economia como ela é feita tradicionalmente? Por enquanto, o que os neuroeconomistas descobriram é que os critérios de tomada de decisão são muitas vezes diferentes do que se lê nas formulações da teoria. Em vez de maximizar os ganhos, o cérebro busca fugir dos perigos; em vez de buscar o dinheiro para poder adquirir bens, o cérebro trata o dinheiro da mesma forma que os alimentos, o sexo e a sede. No plano emocional, obtê-lo é como saciar a fome, por exemplo.

Ramin Talaie/Bloomberg

Segundo o economista Robert Shiller, de Yale, os estudos de neuroeconomia são o início de uma revolução na teoria econômica

Um estudo da neurocientista Elizabeth Phelps, da Universidade de Nova York, revela que as pessoas que negociam com dinheiro dos outros, isto é, os corretores, têm muito menos aversão à perda do que aquelas que colocam suas próprias economias no circo das finanças. A aversão à perda foi descoberta em 1979 pelos pesquisadores comportamentais israelenses Daniel Kahneman e Amos Tversky: a mente humana não é feita para ganhar dinheiro, mas para sobreviver aos riscos da selva, então vencer é menos importante do que não perder.

O motivo para uma menor aversão à perda diante de investimentos alheios pode ser encontrado no funcionamento do cérebro. (Nesse estudo, além do cérebro, foi medida a resposta galvânica da pele, que revela o nível de excitação de um indivíduo.) Descobriu-se que nossas próprias posses e as de outras pessoas são registradas pelo sistema neurológico como duas coisas completamente diferentes. Uma pessoa trata seus bens como uma parte de si própria; os alheios, como um objeto perfeitamente racional. Assim, as opções de risco, em que se busca maximizar o ganho, ativam a parte do cérebro conhecida como córtex pré-frontal ventromedial. Já as opções seguras, que buscam minimizar as perdas, ativam os neurônios do córtex insular.

Daí o título do estudo: “Pensar Como Um Corretor Reduz a Aversão à Perda”, sugerindo que mercados com negociantes profissionais têm um dinamismo muito diferente daqueles menores, onde cada um entra com o seu. Até hoje, nada na teoria econômica apontava nessa direção.

Diante do Congresso dos EUA, em 2009, o ex-presidente do Fed (o banco central americano) Alan Greenspan revelou-se surpreso com a descoberta de que os grandes bancos e as corretoras de valores não se responsabilizavam por evitar riscos para os investimentos de seus clientes. “Descobri que havia uma falha na minha teoria, que durante décadas pareceu funcionar perfeitamente”, admitiu. A partir das pesquisas neuroeconômicas, pode-se dizer que a diferença de tratamento entre investimentos próprios ou de terceiros não podia ser prevista pela teoria microeconômica tradicional.

Com as preferências reveladas, os economistas se tornaram capazes de driblar a “caixa preta” de uma mente insondável

Por outro lado, os pesquisadores que falaram ao Valor foram unânimes em advertir que é preciso evitar excessos, como atribuir a crise econômica a qualquer fenômeno emocional ou hormonal, como a já célebre expressão “cobiça corporativa” (empregada pelo próprio Greenspan em 2002, muito antes da quebra do banco Lehman Brothers). “É muito estranho atribuir emoções a um agregado como as corporações”, diz Roberto Lent, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “As corporações são as ações das pessoas que estão dentro delas”, afirma Angela Stanton, da Universidade Claremont. “E claramente o sistema é desenhado de maneira a incentivar as pessoas a buscarem todo o lucro possível.”

Para Paul Glimcher, as falhas que levaram à crise dos subprimes não estão tanto no comportamento individual – “os executivos têm sido sistematicamente fustigados em Washington porque deram muito lucro às suas empresas, mas esse é o trabalho deles!” – mas nas falhas estruturais do sistema. “O desenho geral dos mercados é malfeito e não contempla direito o medo, a incerteza e o conhecimento imperfeito. Isso não é uma questão neuronal, é a estrutura que não funciona”, diz Glimcher. Ainda assim, o cientista espera que seu campo de estudos tenha muitas contribuições a dar em breve. “Dentro de cinco anos, acredito que teremos desenvolvido modelos que proponham mudanças no desenho dos mercados para incorporar tudo isso.”

Outro alvo dos estudos neuroeconômicos é o dinheiro. Na teoria econômica tradicional hegemônica, ele não tem valor próprio, a não ser a possibilidade de adquirir bens. Mas o cérebro humano tem uma relação própria com o valor do dinheiro. “Ele é um valor que o cérebro usa como todos os outros valores: comida, sexo, brinquedos, sono, exercício”, diz Angela Stanton, que organizou o volume “Neuroeconomics and the Firm”, que investiga a relação entre o cérebro e o funcionamento das empresas. “Em outras palavras, o dinheiro é uma ferramenta do prazer”, que ativa uma área do cérebro contida no mesencéfalo.

Luciana Whitaker/Valor

Ao fazer suas escolhas em situações de dúvida e risco, o cérebro ativa áreas vinculadas ao planejamento e ao medo, explica Roberto Lent, neurologista da UFRJ

Os neuroeconomistas buscam entender as consequências desse tratamento do dinheiro. Ao descobrir que mesmo em pessoas com perfis muito diferentes o dinheiro acionava os mesmos mecanismos de busca e aversão ao risco, o laboratório de Paul Glimcher,em Nova York, tentou descobrir que tipo de relação uma pessoa manteria com o dinheiro quando estivesse com muita fome. “O mais interessante é que a fome faz com que as pessoas, por mais diferentes que sejam suas atitudes normalmente com relação ao risco, se tornem mais ou menos iguais. Elas convergem para uma aversão moderada ao risco”, diz Glimcher. “Pensamos: isso deve ter implicações macroeconômicas! Precisamos encontrar algum mercado em que a variação do nível de fome seja variável para ver o que acontece.”

“Um dos membros do laboratório é árabe”, relata o pesquisador. “Foi ele quem sugeriu observar o que acontece com as bolsas dos países do Oriente Médio durante o Ramadã.” No Ramadã, mês sagrado da religião muçulmana, os fiéis passam todo o dia, do amanhecer até o pôr do sol, sem comer. Ao se debruçar sobre os dados tirados das negociações no período, os neuroeconomistas se depararam com um fenômeno conhecido como “efeito Ramadã”.

“De fato, nesse período, a variação dos preços nos mercados árabes quase desaparece. Os preços realmente variam muito pouco”, diz Glimcher. “Nenhum dos investidores quer arriscar. Ninguém tinha sido capaz de explicar convincentemente por que isso acontece. Agora podemos dizer que a resposta está no hipotálamo, que regula as atitudes perante o risco”, conta o neurocientista. E acrescenta: a partir dessa descoberta, vai ser possível desenvolver um modelo econômico que leve em consideração a fome dos agentes na hora de investir.

O cérebro trata o dinheiro da mesma forma que os alimentos, o sexo e a sede. No plano emocional, obtê-lo é como saciar a fome

No campo oposto, economistas como Colin Camerer, do California Institute of Technology (Caltech), George Lowenstein, da Universidade Carnegie-Mellon, e Drazen Prelec, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), se perguntam se a alta remuneração dos executivos e corretores do mercado financeiro americano não teriam relação com o cérebro, com os hormônios e neuropeptídios que nele agem. “Assim como as drogas mais viciantes, as premiações abstratas em dinheiro proporcionam prazer e são desejáveis mesmo se o dinheiro não for usado, de verdade, para o consumo”, escrevem os economistas.

É lícito supor, diz o trio, que, se ganhar dinheiro é prazeroso, perdê-lo deve ser doloroso, no fenômeno conhecido como “pay-of-payment”, ou “dor de pagar”. Daí fenômenos como as vendas casadas, os programas de milhagem, os produtos incluídos em pacotes como se fossem gratuitos.

Apesar dos elogios que recebeu de Shiller, Paul Glimcher busca esfriar o entusiasmo do economista. Não só o objetivo dos neuroeconomistas, segundo Glimcher, não é romper com a teoria econômica tradicional, mas incrementá-la, como “Shiller fala como se a neuroeconomia fosse uma coisa nova, mas já temos diversos laboratórios, revistas especializadas e uma Sociedade de Neuroeconomia com centenas de membros”, diz.

Além de diversas universidades americanas, são encontrados departamentos de neuroeconomia respeitáveis na França (Insead), na Suíça (Zurique), na Alemanha (Instituto Max Planck, Jena; Freie Universität, Berlim), Taiwan (Chengchui) e outros países. No Brasil, os laboratórios do Instituto D’Or, no Rio de Janeiro, têm pesquisas neuroeconômicas conduzidas pelo neurocientista Jorge Moll Neto.

Ap

Os experimentos em neuroeconomia empregam instrumentos como a ressonância magnética para medir as áreas ativadas no cérebro

As pesquisas com teor mais químico da neuroeconomia envolveram, até agora, a oxitocina, neuropeptídio que favorece a generosidade e o altruísmo; a testosterona, considerado o hormônio masculino e vinculado, entre outras coisas, a comportamentos agressivos; a vasopressina, popularmente conhecida como hormônio antidiurético; e a dopamina, neurotransmissor estimulante e responsável pela sensação de prazer.

“Por enquanto, é só isso”, diz Angela Stanton. “Por enquanto! Vamos ter de entender o impacto econômico de todos [com ênfase nesta palavra] os hormônios que circulam nos nossos corpos. São eles que fazem de nós o que somos.” Para a economista, tudo que fazemos pode ser medido em termos de hormônios. “Para usar a fórmula do jornalismo, se soubermos o como, o quê e o quando dos hormônios, saberemos o quem.”

Roberto Lent sublinha um possível conflito entre a nova linha de economistas e as escolas já instaladas. É certo que o uso da ressonância magnética possa revelar os impactos emocionais, por exemplo, de determinados produtos e embalagens na subjetividade dos consumidores. Daí o sucesso de um ramo da neuroeconomia, o neuromarketing, que já enseja a criação de diversas pequenas empresas de pesquisa.

Mas para fenômenos mais amplos da interação econômica, Lent considera discutível que impulsos neurais possam explicar questões com forte conteúdo social, cultural e conjuntural. “O social parte do biológico como o astronômico parte do átomo, mas quem vai dizer que podemos explicar os fenômenos astronômicos por estudar os átomos?”

Embora concorde que é preciso ter cuidado ao aproximar campos distintos, Glimcher considera que o namoro da neurologia com a economia pode produzir um rebento saudável. Ele lembra do surgimento da teoria das ondas, de Werner Schödinger, que fundiu a física e a química – “hoje, as duas ciências são mais confiáveis e robustas” – e do surgimento da bioquímica – “os biólogos diziam que seria impossível explicar qualquer fenômeno biológico com o DNA, mas hoje a biologia é pura genética”.

A oxitocina foi, até agora, o hormônio que deu mais resultados para a neuroeconomia, principalmente nos trabalhos de Paul Zak, da Universidade de Claremont. No experimento que ficou conhecido como “jogo do ultimato” (com uma variação conhecida como “jogo do ditador”), um indivíduo recebe dos cientistas uma certa quantia e é instado a oferecer uma parte dessa quantia a outro indivíduo. Se o segundo aceitar, a divisão é feita e ambos guardam o dinheiro. Se recusar, os cientistas recolhem a quantia e ninguém ganha nada.

Os economistas comportamentais já tinham descoberto que raramente um indivíduo toma a atitude esperada do homo economicus: oferecer e aceitar um valor muito baixo. Nos experimentos, as ofertas se aproximavam de 50% e valores abaixo de 20% eram sistematicamente rejeitados. Faltava uma explicação para o fato com uma sólida base teórica. Os neurocientistas dizem poder oferecer essa explicação com base em hormônios como a oxitocina.

Quanto maior o volume desse hormônio (na verdade um neuropeptídio) no sangue, maior o altruísmo e a capacidade de empatia com os outros jogadores. Injetando quantidades variáveis do hormônio nos sujeitos do experimento, descobriram que era possível estabelecer uma correlação entre os valores oferecidos ou aceitos, de um lado, e a carga hormonal, do outro. Com isso, torna-se possível derivar uma fórmula matemática que, partindo de atitudes altruístas, se afaste do paradigma do homo economicus. “O modelo do agente racional perde a validade se as pessoas têm expectativas diferentes do puro ganho monetário”, diz Angela Stanton.

A “revolução neuroeconômica” antevista por Shiller não será, porém, tão radical quanto pode parecer, como adverte a própria Angela Stanton. O altruísmo e a generosidade podem ser medidos como formas de ganho pessoal também, embora não em termos monetários. “A questão é simplesmente redefinir o que entendemos por ‘ganho pessoal'”, diz. Ela dá o exemplo dos missionários que abandonam tudo para se embrenhar na mata e converter pessoas à sua fé. “À primeira vista, são abnegados, mas também é verdade que elas ganham uma recompensa na forma de hormônios de autossatisfação.”

Fonte: Jornal Valor Econômico – EU&FIM DE SEMANA, 09, 10 e 11/12/2011 – página 10-14

Sempre será melhor pensar duas vezes antes de tomar decisões

terça-feira, novembro 22nd, 2011

Por Roger Lowenstein | BloombergBusinessweek

Daniel Kahneman: na mente, portas secretas e conexões defeituosas

Nos últimos anos, acadêmicos vem tentando romper as amarras da teoria, longamente aceita, de que as pessoas, em sua vida econômica, se comportam como robôs calculistas, sempre tomando decisões racionais. Argumenta-se que, longe de serem os agentes racionais dos livros-texto, com frequência as pessoas são incoerentes, sentimentais e tendenciosas. Os pioneiros nesse campo não foram economistas, e sim os psicólogos israelenses Daniel Kahneman e Amos Tversky. Tversky morreu em 1996; seis anos depois, Kahneman ganhou o prêmio Nobel de Economia.”Thinking, Fast and Slow”, novo livro de Kahneman, contém muita coisa familiar para aqueles que acompanham essa discussão no mundo da economia, mas também tem muito a dizer sobre como pensamos, reagimos e chegamos – melhor, saltamos – para conclusões.

O que mais interessa a Kahneman são as maneiras previsíveis como os erros de julgamento acontecem. Sintetizando décadas de suas pesquisas, assim como as de seus colegas, Kahneman apresenta uma arquitetura da maneira como se tomam decisões – um mapa da mente que se parece com uma máquina muito bem ajustada, com, infelizmente, algumas notáveis portas secretas e conexões defeituosas.

Os teóricos comportamentais, Kahneman incluído, vêm catalogando erros sistemáticos das pessoas e comportamentos ilógicos há anos. Alguns dos exemplos que ele cita: 1. Pessoas submetidas a testes apresentam uma propensão maior a optar por uma cirurgia se informadas de que a taxa de “sobrevivência” é de 90%, em vez de informadas de que a taxa de mortalidade é de 10%. 2. As pessoas tentam evitar sentir-se arrependidas. Assim, investem mais dinheiro e tempo em um projeto com resultados duvidosos, em vez de desistir e admitir que estavam erradas. 3. A maioria dos participantes das pesquisas preferiu receber US$ 46 que são uma certeza, em vez de ter 50% de chance de ganhar US$ 100. Um agente racional aceitaria a aposta. Extraordinariamente, e por motivos parecidos, jogadores de golfe se saem melhor quando sabem que um erro os deixaria uma tacada atrás. Por mais instigantes que sejam esses exemplos – repetidamente, reconhecemos nossas inclinações – o maior feito de Kahneman é construir um modelo sobre como, ou por quê, a mente raciocina da maneira como o faz.

Acreditamos que pensamos por nós mesmos, mas muitas de nossas opiniões simplesmente ratificam respostas automáticas

Você pode sentir um espasmo de dúvida, como eu senti, quando apresentado pela primeira vez a essa ideia central – usando duas “personagens” fictícias, às quais ele se refere como Sistema 1 e Sistema 2. Deixe a dúvida de lado por um momento.

O Sistema 2 é sua mente consciente, que pensa. Concebemos essa consciência ativa como o ator principal, o “decisor” de nossas vidas. O Sistema 2 pensa lentamente; ele considera, avalia, justifica. Seu trabalho exige esforço mental. Atribuímos a maioria de nossas opiniões e decisões a esse camarada pensante e lógico. Para Kahneman, porém, o principal protagonista é o Sistema 1. Esse é o agente de nossas respostas mentais automáticas e fáceis. O Sistema 1 pode somar números de um dígito e completar a frase “arroz com…….”. Ele é equipado com um quadro sutil do mundo, produto da memória acumulada e padrões de associação aprendidos (“Flórida/ pessoas velhas”), que lhe permitem emitir uma série de reações, julgamentos, opiniões. O Sistema 1 pode detectar o tom de raiva em uma voz pelo telefone; forma julgamentos instantâneos sobre pessoas que conhecemos, candidatos a presidente, investimentos que possamos estar considerando.

O defeito dessa máquina admirável é que o Sistema 1 trabalha com a quantidade de informações que tem, por menor que ela seja. Se não consegue responder à pergunta “a ação da Ford é um bom investimento?”, ele fornece uma resposta baseada em dados relacionados, mas não relevantes, como se você gosta ou não dos carros da Ford. O Sistema 1 simplifica, confirma – ele procura, e acredita que vê, coerência narrativa num mundo sempre aleatório. Não realiza feitos complicados de avaliações lógicas ou estatísticas.

Você toma conhecimento de um atentado terrorista e quer evitar ônibus e trens; somente se você para um pouco, coloca em uso as ferramentas do Sistema 2, percebe que as chances de ser vítima de um atentado terrorista são muito pequenas. A força de vontade exige empenho; ela é uma característica do Sistema 2. Em uma experiência, crianças de 4 anos que conseguiram esperar para comer um biscoito saíram-se melhor em testes de QI realizados dez anos mais tarde. Kahneman sugere que a capacidade de mudar para o Sistema 2 é sinal de uma “mente ativa” e um indicador de sucesso.

Esse modelo é notavelmente eficiente na descrição de como pensamos. Acreditamos que pensamos por nós mesmos, mas muitas de nossas opiniões simplesmente ratificam nossas respostas automáticas.

Talvez Kahenam seja menos convincente no tratamento que dá ao mundo dos negócios. Observando que até mesmo os melhores em seus ramos – incluindo o esporte- eventualmente tendem a reverter para o mediano, ele atribui o sucesso, em grande parte, à sorte. Isso confunde os eventos que podem não ser previsíveis com aqueles que são determinados pelo acaso. Uma loja comercial de alto desempenho, para citar um de seus exemplos, não é um caso de sorte – ela é bem situada. Se suas vendas caírem, isso não será necessariamente um sinal de que seu sucesso anterior se deu por acaso. Os negócios têm um ciclo autocorretivo, que estimula uma reversão para o mediano. O sucesso atrai competidores.

Alguns leitores poderão achar que o universo de Kahneman é exageradamente cartesiano, árido de intuição humana. Ele recomenda o uso de fórmulas até para prever o valor futuro de vinhos. Mesmo assim, “Thinking, Fast and Slow” é pródigo em lições sobre como superar as propensões no dia-a-dia. Kahneman aconselha o leitor a “reconhecer os sinais de que está em um campo minado cognitivo, deve reduzir o ritmo e pedir reforço do Sistema 2.

“Thinking, Fast and Slow”

Daniel Kahneman. Farrar, Straus and Giroux. 499 págs., US$ 30,00

Fonte: Jornal Valor Econômico – 22/11/2011 – página D10

Cuidado, as instituições financeiras querem treinar o seu cérebro

terça-feira, outubro 18th, 2011

Bancos apelam para técnicas de finanças comportamentais. Por Margaret Collins e Ben Steverman | Bloomberg

Se perder a cabeça significa mudar de um título do Tesouro dos Estados Unidos de três meses de prazo para um Certificado de Depósito de um ano, você provavelmente está sofrendo da Síndrome da Cautela Irracional (IPS, na sigla em inglês), uma condição não patológica mas disseminada, resultante da exposição excessiva aos mercados voláteis.

A IPS é caracterizada pela aversão extrema a ações e pela vontade incontrolável de encher de dinheiro os colchões garantidos pelo governo, seja um Certificado de Depósito (CD), um título do Tesouro ou mesmo uma conta corrente. Se não for tratada, a IPS pode levar a um mundo de investidores mais pobres e consultores frustrados.

Trata-se de uma síndrome que as instituições financeiras temem e que estão determinadas a curar. Isso poderá significar investigar a “personalidade financeira” de um cliente. Ou poderá envolver a criação de cestas de investimentos “baseados em metas”, com o grau de risco de cada parcela de dinheiro personalizado de acordo com a importância da meta – a faculdade de um filho, as férias, a aposentadoria – e o quanto ela está distante.

Emoções levam aplicador a erros como comprar na alta, vender na baixa e manter ações em queda em vez de conter as perdas

Outra técnica para fazer os clientes aumentarem seus investimentos é uma forma de terapia de choque: rodar uma fotografia atual de um cliente em um programa de envelhecimento progressivo para mostrar qual será a aparência dele na aposentadoria – cabelos grisalhos, queixo duplo e coisas assim.

Depois de verem seus portfólios irem mal nos últimos anos, os investidores estão céticos com as promessas de rendimentos. No marketing financeiro, “sempre há como se distanciar da pressão por desempenho quando há uma queda do mercado”, afirma Mercer Bullard, professor associado de direito da Universidade do Mississipi e fundador do Fund Democracy, um grupo que defende os interesses dos investidores. “As firmas também estão tentando tirar as pessoas dos investimentos em cash (ativos de alta liquidez e prazo curto), para levá-los de volta para as ações.”

Isso, é claro, seria lucrativo para as firmas. Bullard não vê a situação de uma maneira tão cínica: “Outro motivo de eles estarem fazendo isso é que eles estão tentando se certificar de que as pessoas tenham o nível certo de ações para que elas não percam as calças com a queda do valor do dinheiro ao longo do tempo”, diz.

Instituições financeiras como o Bank of America Merrill Lynch, Barclays Wealth, JP Morgan Chase e Allianz Global Investors estão cada vez mais usando as finanças comportamentais – o estudo de como predisposições inconscientes influenciam as decisões financeiras –para fortalecer suas relações com os clientes e descobrir quais produtos oferecer a eles.

O uso das finanças comportamentais poder ajudar os investidores a conseguir retornos melhores no longo prazo

Segundo as finanças comportamentais, nossas emoções nos levam a exaurir nossos portfólios com atitudes como comprar na alta, vender na baixa e manter ações em queda em vez de eliminar nossas perdas. E agora, via internet, podemos implementar todas as decisões rápidas que queremos com facilidade e custo baixo, sem nenhum divisor entre nós e nosso dinheiro para impedir essas transações danosas. As instituições financeiras afirmam que os investidores precisam entender melhor sua verdadeira tolerância ao risco – e de um portfólio que possam sustentar em meio ao giro do mercado.

O movimento em direção a uma ajuda financeira mais terapêutica dos consultores também está aparecendo no exame que as pessoas fazem para obter a designação de Analista Financeiro Juramentado (CFA). O currículo de 2012 do CFA Institute inclui seções polpudas sobre finanças comportamentais e mais ênfase nos objetivos de longo prazo e no estabelecimento de uma força psicológica para evitar o pânico nas quedas do mercado.

Armado desse treinamento, o consultor CFA pode muito bem investigar os clientes sobre como eles reagiriam em cenários hipotéticos, ou pedir que eles mantenham um “diário de investimentos” em que eles relacionam os motivos das decisões de investimentos tomadas. Se a força de vontade financeira dos clientes enfraquecer, eles podem recorrer à sua argumentação, o que poderá acalmá-los ou mostrar “as limitações de nossa capacidade de fazer boas previsões financeiras”, afirma Stephen Horan, diretor de private wealth do CFA Institute.

O Barclays Wealth tem feito um grande esforço na área de finanças comportamentais. A instituição quer essa ciência “profundamente embutida” na maneira como ela faz negócios com os clientes ricos, afirma Greg Davies, diretor de finanças comportamentais e quantitativas da firma. “Ela precisa ser instilada a conta gotas em todas as reuniões com clientes.”

Após desenvolver um esforço de finanças comportamentais no Reino Unido, o Barclays voltou suas atenções para o treinamento de staff em seus 14 escritórios nos Estados Unidos no ano passado. Sua principal ferramenta é uma “avaliação de personalidade financeira” – uma série de 36 declarações que os clientes prestam ao analisarem uma de cinco respostas que vão de “concordo plenamente” a “discordo totalmente”. Exemplos disso são “temo pelo pior”, “fico estressado facilmente” e “apliquei uma grande soma em um investimento arriscado apenas pela excitação de ver se ele iria ganhar ou perder valor”.

Davis afirma que o uso das finanças comportamentais ajuda os clientes a conseguir retornos melhores no longo prazo. “É difícil medir o sucesso”, acrescenta ele, por que às vezes os clientes deliberadamente partem para os ativos menos arriscados e de menor desempenho, para que fiquem mais emocionalmente confortáveis com suas carteiras e menos propensos a tomar decisões ruins.

Uma das maneiras que algumas instituições financeiras usam para tentar fazer os clientes poupar é dar um rosto a essas economias. O Centro de Finanças Comportamentais da Allianz Global Investors, lançado em junho de 2010, vai fornecer aos consultores ferramentas como softwares de envelhecimento progressivo para o uso com clientes. Eles mostram qual será a aparência de um cliente em sua idade de aposentadoria. “Se eles conseguirem se conectar consigo mesmos no futuro, eles irão economizar mais dinheiro”, afirma Cathy Smith, diretora-adjunta do centro.

As firmas também estão tentando se conectar melhor com os investidores através de produtos que imitam a “contabilidade mental” natural deles. A maioria das pessoas divide o dinheiro em “cestas mentais” reservadas para determinadas coisas – viagens ou a escola dos netos, por exemplo – e estudos acadêmicos têm mostrado que simplesmente fixar uma meta específica a uma cesta de dinheiro pode aumentar muito os valores que uma pessoa economiza.

O Bank of America Merrill Lynch está formando esses portfólios com metas específicas para seus clientes super-ricos. As certeiras de seu novo programa “gestão de fortunas baseada em metas” vai assumir riscos proporcionais à importância das metas. Por exemplo, as metas essenciais ou “obrigatórias” são bancadas com portfólios que assumem menos riscos que as carteiras voltadas para metas arbitrárias, afirma Anil Suri, diretor de analítica de investimentos do Bank of America Merrill Lynch.

Num sinal do agito em torno das finanças comportamentais, enquanto a maioria dos fundos de ações perdeu dinheiro em agosto, alguns fundos que usam a abordagem comportamental ganharam ativos. O Intrepid Funds do JP Morgan, que usa princípios das finanças comportamentais para escolher ações, viu os ativos que administra cresceram de US$ 5,8 bilhões no fim de 2008 para US$ 11 bilhões em 31 de maio. Esse crescimento foi 38% maior que o de todos os fundos de ações, segundo o Investment Company Institute (ICI). Entre 1º de agosto e 19 de agosto o Intrepid Funds fez captações líquidas de US$ 28 milhões.

Christopher Blum, diretor de investimentos do grupo de finanças comportamentais da JP Morgan Asset Management para os Estados Unidos, diz que o pânico e a volatilidade dos últimos anos vêm dando mais força ao fato de que os mercados podem ser conduzidos pela emoção. Isso está mostrando que os investidores que agem de acordo com as oportunidades (como comprar com base em dicas) e se atêm às suas regras de investimento “mesmo que elas não pareçam certas”, diz ele.

As finanças comportamentais explicam a razão pela qual os investidores tendem a injetar dinheiro nos mercados quanto eles sobem, retirar quando eles caem e se saem melhor quando seguem um curso firme de investimentos regulares. É “a montanha-russa emocional dos investidores”.

As instituições financeiras também estão se esforçando mais para erradicar as propensões comportamentais de seus funcionários. A Cabot Research usa um software baseado em conceitos desenvolvidos por Terrance Odean, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, para analisar todas as decisões tomadas pelos administradores.

Com base numa computação pesada – a avaliação de um portfólio é feita por 100 computadores e demora três dias -, a Cabot identifica erros comuns, como manter ações por muito tempo, e monitora as carteiras para ter certeza de que os erros não serão cometidos novamente. O presidente-executivo Michael Ervolini diz que os negócios estão aquecidos. A firma monitora 49 portfólios que contam com um total de US$ 600 bilhões, contra 13 portfólios há dois anos.

O cliente da Cabot Joel Fortney, um analista especializado em finanças comportamentais na Principal Global Investors, uma gestora de ativos que administra US$ 239 bilhões, diz que a ênfase nas finanças comportamentais está melhorando os investimentos da firma. Ela também desperta o interesse de potenciais clientes, afirma Fortney. “É uma medida de suas habilidades como investidor”, afirma ele. “Se você não estiver a par desses tópicos, provavelmente será uma vítima deles.”

Fonte: Jornal Valor Econômico – 18/10/2011 – página D3

Por que os investidores erram na crise

quarta-feira, outubro 5th, 2011

Movimento de manada influencia a venda dos papéis na hora errada; para estrategista do Santander, contudo, o melhor momento para comprar ações ainda não chegou

Marcela Ayres, de Exame.com

Divulgação

São Paulo – Apesar da máxima mais batida do mercado financeiro recomendar a compra na baixa e a venda na alta, muitos investidores fizeram exatamente o contrário na crise de 2008. Mas quem se desfez dos ativos na esteira do pessimismo reinante realizou um considerável prejuízo e ainda deixou de embolsar a subida de mais de 80% registrada pelo Ibovespa em 2009.

Desta vez, o imbróglio fiscal na zona do Euro também está penalizando os papéis brasileiros. Do começo do ano até setembro, o tombo do índice já chegou a 24,5%. Por sua vez, as pessoas físicas novamente estão fugindo da renda variável: mais de 15.000 CPFs foram descadastrados da bolsa até agosto.

É verdade que a resolução da crise não deve aparecer no curto prazo. O governo já incorporou uma expectativa de piora generalizada na economia global na decisão de diminuir a Selic, acreditando que a desaceleração lá fora ajudará a conter a inflação por aqui. Para muitos analistas, o fundo do poço será ainda mais baixo que o atingido há três anos.

Ainda assim, o consenso entre os que defendem a aplicação em ações é que no longo prazo o investidor que segurar seus ativos voltará a ser remunerado. Por que então o desconto sofrido pelos papéis até agora não convence o brasileiro a apostar nas companhias de capital aberto?

Para Clayton Calixto, estrategista de investimentos pessoais da Santader Asset Management, acertar a hora certa de aplicar em ações não deixa de ser um mito. “O retorno anualizado do Ibovespa de janeiro de 99 a abril de 2008 foi de 28%. Sem os dez maiores pregões de alta, o percentual caiu para 16%, abaixo dos 16,8% entregues pelo CDI no mesmo período”, diz. Perdendo 10 dias na bolsa em um horizonte de quase 10 anos, portanto, o investidor já embolsaria um rendimento mais modesto que o da renda fixa.

Além disso, pontua Calixto, a pessoa física tende a reproduzir um comportamento de manada. “A ganância impera na alta e o medo na baixa. Todo mundo se sente muito confortável ao comprar o que está todo mundo comprando e vender o que está todo mundo vendendo, pensando que errar em conjunto é melhor que errar sozinho”, afirma.

No estudo “Comportamento dos investidores na crise: uma análise para o Brasil no período de 2005 a 2009″, três pesquisadoras da Universidade Federal de Juiz de Fora investigaram a performance das ações antes e depois do furacão que derrubou os mercados com a quebra do Lehman Brothers, em 2008.

O resultado não chega a surpreender: em períodos de estabilidade econômica os investidores ficaram confiantes e compraram de olhos fechados. Como manda a lei da oferta e da procura, a demanda elevou o preço dos papéis, fazendo com que o valor de mercado das empresas do Ibovespa superasse e muito seu patrimônio líquido.

A tendência se inverteu nos momentos de incerteza, quando os investidores ficaram com temor de adquirir mais ações, venderam seus ativos e acabaram pressionando os preços para baixo.

Para quem acredita que o exemplo ensina que é chegada a hora de garimpar pechinchas, o estrategista do Santander faz um alerta. “Só é razoável investir uma pequena parcela em papéis defensivos, como de telecom e energia elétrica”, sustenta. Em geral, o comportamento destas empresas se distancia do desempenho do Ibovespa, fazendo com que elas sofram menos nos momentos de aversão ao risco. Não por menos, os setores foram os grandes destaques nas carteiras recomendadas por 16 corretoras para outubro.

Na visão de Calixto, a bolsa continuará andando de lado até o final de 2011 e uma recuperação efetiva só virá em dois a três anos. “O momento para fazer uma tacada maior será definido pelo socorro aos países europeus”, acredita. “Ainda estamos vendo planos superficiais, sem grandes estudos. Mas quando for anunciado um pacote de execução viável, este será o grande gatilho para comprar ações e aproveitar a alta dos anos seguintes.”

Fonte: Portal Exame

http://exame.abril.com.br/seu-dinheiro/acoes/noticias/por-que-os-investidores-erram-na-crise?page=1&slug_name=por-que-os-investidores-erram-na-crise

Neuroeconomia busca desvendar a cabeça do investidor

segunda-feira, setembro 12th, 2011

Por Nikhil Hutheesing | Da Bloomberg

Kahneman: estudos sobre a irracionalidade dos investidores inspiraram a criação das finanças comportamentais

John Coates, um pesquisador sênior de neurociências e finanças da Universidade de Cambridge, tem uma teoria. Ele diz que haveria menos bolhas e crashes no mercado de ações se mulheres e homens mais velhos conduzissem a maioria dos negócios. “Há menos diversidade no mundo financeiro que no militar”, ironiza ele. “Em Wall Street, temos uma parcela da população – homens jovens – conduzindo os pregões. Isso leva a um comportamento extremo: eles ficam selvagens.”

Isso não é bom para as ações. Tal comportamento provavelmente contribuiu para o crash da internet em 2000 e o crash de 2008-2009, alimentado pelas hipotecas subprime. Portanto, Coates, que passou 12 anos negociando derivativos de renda fixa para o Goldman Sachs e o Deutsche Bank em Nova York, está agora examinando os hormônios dos operadores, em busca de pistas sobre o grau de risco que as mulheres e os operadores mais velhos se dispõem a assumir.

Em 2007 Coates dirigiu-se a um pregão e recolheu repetidas vezes amostras de saliva de 250 operadores, a maioria homens jovens. Ele constatou que no período da manhã, quando seus níveis de testosterona estão altos, a confiança dos operadores também é alta. Na medida em que fazem negócios bem-sucedidos, seus níveis de testosterona sobem ainda mais, levando a lucros na parte da tarde.

Pesquisadores rastreiam regiões do cérebro para entender o que leva algumas pessoas a ter mais apetite por risco

Os homens jovens começam a se sentir infalíveis, assumindo um comportamento cada vez mais arriscado, como comprar ações a preços sobrevalorizados. Mas, em algum momento, testosterona demais e um excesso de julgamentos equivocados levam os mercados a níveis de alta insustentáveis. Então o ciclo termina. As ações sobrevalorizadas sofrerão um crash e os níveis de testosterona voltarão ao normal. “A testosterona é a molécula que explica a exuberância irracional”, afirma Coates. “Uma certa quantidade de testosterona pode ser saudável, mas o excesso pode levar a uma bolha.”

Para a maioria dos pesquisadores que trabalham com a neurociência, o “Santo Graal” é descobrir como regenerar os neurônios do cérebro. Tal feito ajudaria os cientistas a acabar com doenças como o mal de Parkinson e o mal de Alzheimer. Mas outros estão usando as técnicas desse campo em crescimento nas finanças comportamentais, que por si só é uma mistura de economia com psicologia. O resultado é um novo campo chamado neuroeconomia, que tenta explicar como as pessoas gerenciam riscos e por que elas sempre tomam decisões irracionais.

A importância das emoções não é nenhuma novidade. Benjamin Graham, considerado o pai do “value investing”, certa vez disse: “Os indivíduos que não conseguem dominar suas emoções estão mal adaptados para lucrar com o processo de investimento”. Mas as principais teorias do campo hoje conhecido como finanças comportamentais foram desenvolvidas por Richard Thaler, professor de economia e ciências comportamentais da Booth School of Business da Universidade de Chicago, e Daniel Kahneman, da Universidade Princeton, cujos trabalhos sobre essas questões, com o falecido Amos Tversky, lhes renderam o Nobel em Ciências Econômicas em 2002.

Kahneman e Tversky constataram que as pessoas sofrem mais com a perda de dinheiro do que sentem prazer ganhando dinheiro. Portanto, elas tendem a se agarrar a ações perdedoras, ao invés de vendê-las e evitar uma perda maior.

A irracionalidade também pode assumir a forma de um afeiçoamento emocional a um determinado ativo. R. J. Weiss, o fundador de 26 anos do blog Gen Y Wealth, recentemente postou que foi pego em uma armadilha de comportamento. Quando seu avô faleceu, ele herdou ações que eram negociadas a US$ 25. As ações caíram para US$ 20, US$ 10 e depois para US$ 5, mas Weiss não conseguiu se desfazer do presente que recebeu do avô. Finalmente, em abril, ele vendeu as ações por US$ 3,04, arcando com uma perda de 90%. “O tempo todo que o mercado caía eu sabia que manter as ações era a coisa errada a ser feita, mas eu não conseguia vendê-las”, escreveu Weiss.

Dan Ariely, um economista comportamental do Massachusetts Institute of Technology (MIT), diz que as pessoas precisam ser cautelosas com essa irracionalidade, e que talvez seja até mesmo preciso estabelecer mecanismos que impeçam as pessoas de agir de maneira imprudente. “Sabemos que precisamos criar um mecanismo que impeça as pessoas de enviar mensagens de texto pelo celular enquanto estão dirigindo”, afirma Ariely. “Mas, no mercado, não estamos levando em conta o caráter humano, e isso está nos levando para o mau caminho.”

Primeiro, porém, os neuroeconomistas precisam entender o papel da emoção nas tomadas de decisões. Brian Knutson, um neurocientista da Universidade Stanford, e Camelia Kuhnen, uma professora de finanças da Kellog School of Management da Northwestern University, rastreiam os cérebros dos investidores enquanto eles tomam decisões de compra e venda. Eles constataram que os investidores com o maior apetite pelo risco aumentam a atividade cerebral em uma área chamada núcleo acumbente. Esta é a parte que é ativada em um animal quando ele encontra comida, ou em um predador quando ele parte para uma caçada.

Ao mesmo tempo, há um aumento da dopamina, responsável pela sensação de bem-estar. Ela inunda nosso cérebro quando antecipamos algo prazeroso ou excitante como ouvir música, fazer sexo ou pular de paraquedas. Um aumento da dopamina pode levar os investidores a adotar comportamentos de risco.

Os investidores que são mais avessos ao risco – e menos inclinados a comprar uma ação em grande demanda – mostram um aumento da atividade em uma parte diferente do cérebro, a ínsula anterior, que tem um papel muito importante em emoções como ansiedade e dor. Ela é a parte que é ativada quando sentimos o cheiro de um ovo podre ou o silvo de uma cobra. “Ao desconstruir os motivos que levam os investidores a ficarem entusiasmados, e por que eles fazem o que fazem, vamos desenvolver ferramentas que poderão ajudar as pessoas e tomar decisões melhores”, afirma Knutson.

Uma das ferramentas em que Knutson está trabalhando é uma maneira de ajudar a impedir os investidores de se tornarem vítimas de fraudes financeiras. Knutson, cujo trabalho é bancado pela Financial Industry Regulatory Authority (FINRA), está usando a tecnologia de imagens cerebrais para ver o que acontece quando os investidores são seduzidos por golpistas. Ele diz que pode parecer que as vítimas são simplesmente pessoas ignorantes. No entanto, pode ser que as vítimas sejam pessoas cujos cérebros ficam tão animados com os ganhos em potencial que não conseguem evitar a tomada de risco. Ou talvez essas vítimas não sintam medo. Suas constatações poderão levar a uma ferramenta para salvaguardar os investidores.

Para onde tudo isso vai? Talvez um dia investidores e operadores tenham um dispositivo biométrico conectado aos seus computadores. Ele poderá escanear o córtex pré-frontal do cérebro, determinar os níveis de testosterona e medir a quantidade de suor nas palmas das mãos em microssegundos, antes de alertar você para não fazer determinado negócio. Ou as pesquisas atuais poderão resultar em medicamentos que tornarão as pessoas mais racionais.

“Dentro de poucas décadas, medicamentos que reforçam o desempenho serão uma parte integrante de nosso mundo”, afirma Hersh Shefren, professor de finanças comportamentais da Santa Clara University. “No momento isso é ficção científica, mas a ficção científica sempre acaba virando ciência.” (Tradução de Mario Zamarian)

Fonte: Jornal Valor Econômico – 12/09/2011 – página D3

 

Como ganhar na Bolsa sem perder a cabeça

segunda-feira, maio 9th, 2011

Economista comportamental explica como evitar que as emoções acabem com os planos do investidor de ganhar na bolsa e poupar para a aposentadoria

Marcela Ayres, de Exame.com

Wikimedia Commons

Aversão à perda faz com que o investidor segure o papel além da conta

São Paulo – Imagine-se diante de um alimento que contenha 10% de gordura e outro que seja 90% livre dela. Se você for como a maioria das pessoas, não hesitará em optar pelo segundo, ainda que na prática eles contenham rigorosamente a mesma quantidade de gordura. Para especialistas em finanças comportamentais, esse tipo de comportamento norteia decisões de compra que vão da gôndola do supermercado ao mercado de ações.

Segundo o ganhador do prêmio Nobel de Economia de 2002, Daniel Kahneman, são duas as vias pelas quais opera a mente humana. De um lado, há o caminho reflexivo, analítico, que exige um esforço cognitivo. De outro, a intuição fornece julgamentos rápidos e sem nenhuma interferência do consciente.

Esses atalhos mentais são familiares e, por isso, acabam sendo acatados naturalmente. Deriva daí a ideia de que ser livre de gordura é muito mais vantajoso que contê-la – sejam quais forem as proporções aí envolvidas. Em estudo encomendado pela Allianz Global Investors, o economista comportamental Shlomo Benartzi, da Universidade da Califórnia, explica como esses “caminhos” podem atrapalhar as decisões dos investidores.

Segundo ele, no topo dos sentimentos que governam as intuições humanas, está a resposta hipernegativa à perda. “Falando psicologicamente, a dor de perder 100 dólares é aproximadamente duas vezes maior que o prazer de ganhar a mesma quantia”, escreve. Transposto para o mercado financeiro, esse temor explicaria porque as pessoas têm tendência de segurar ações que estão dando prejuízo por muito tempo, acreditando numa reviravolta improvável.

Do outro lado da moeda, uma tímida valorização já seria suficiente pra muita gente se desfazer dos papéis, inebriados pela gratificante sensação de colher algum lucro. “O erro está em não olhar o portfólio como um todo. Os investidores analisam cada ação separadamente, tomando decisões a partir dessas realidades percebidas individualmente”, afirma Benartzi.

Para o estudioso, a aversão à perda também faz com que os investidores relutem em tomar decisões de mudança. “A inércia está em jogo quando sabemos que deveríamos começar um programa de exercícios ou uma poupança para a aposentadoria, mas protelamos essa decisão porque achamos difícil dar o primeiro passo hoje”, diz o especialista.

Em suma, focamos muito mais no que podemos perder do que naquilo que podemos ganhar. E se abrir mão de uma fatia do salário de agora para uma velhice que parece tão longínqua exige muito do investidor, Benartzi dá dicas de como driblar esse impulso de procrastinação.

O passo a passo se baseia em estudos realizados pelo economista Richard Thaler, da Universidade de Chicago, que orienta os investidores a traçar um planejamento financeiro que exija um pré-comprometimento futuro. Isso porque apesar de adiarmos decisões imediatas, temos facilidade em imaginar sua execução no futuro. Afinal de contas, quem nunca prometeu cumprir as famosas resoluções de Ano Novo?

O segredo para poupar mais é aumentar sistematicamente a quantidade de dinheiro reservado diante de qualquer aumento do salário. Assim, a parcela que o investidor leva para casa nunca sofrerá uma diminuição, evitando que ele seja exposto ao sentimento de perda.

Além disso, essa taxa de contribuição deve continuar crescendo à medida que ele subir na carreira. A possibilidade de abandonar o plano a qualquer momento também aumenta o apelo à adesão. “O simples fato de poderem fazer isso, deixa os investidores mais confortáveis a respeito da possibilidade de poupar”, emenda o economista Shlomo Benartzi.

Seguindo exatamente essas diretrizes, uma companhia de médio porte norte-americana implementou o SMarT (Save More Tomorrow, ou Poupa Mais Amanhã) entre seus funcionários em 1998. O intuito era aumentar a contribuição dos trabalhadores para o plano de aposentadoria. Em três anos e meio, o percentual do salário que dedicavam à previdência privada pulou de 3,5% para 13,6%. Como resultado, programas nesse molde são hoje oferecidos por mais da metade dos grandes empregadores norte-americanos.

Benartzi sustenta que existem várias semelhanças entre a dificuldade de contribuir para a previdência e a relutância em entrar no mercado. Para combater o medo de perder no mercado de ações, a dica é aplicar pouco, e em intervalos regulares.

Ele defende que as pessoas são muito sensíveis ao chamado de “ponto de referência”. E quando todo a reserva financeira é aplicada em ações de uma só tacada, esse montante vira um parâmetro de cálculo muito acessível, já que perdas e ganhos são facilmente computados.

“A mente intuitiva, guiada pelas intuições, iria responder negativamente às perdas”, diz Benartzi. Com um pouco do dinheiro sendo investido de cada vez, o investidor elimina o ponto de referência óbvio, e, por consequencia, as chances de tomar decisões irracionais guiado pelo medo de ver o dinheiro escorrer pelo ralo.

Timing para comprar e vender

Comprar ações na baixa e vendê-las na alta. Repetida em exaustão, a fórmula parece simples. Segundo o estudo de Benartz, entretanto, identificar o momento exato para negociar os ativos é uma tarefa árdua. Uma pesquisa com 66.465 norte-americanos revelou que, em seis anos, os investidores mantinham inalterado apenas 25% do portfólio original. Mas as mudanças não implicaram retorno palpável – os custos das negociações diminuíram o rendimento médio em 3,7%.

Aqueles que faziam mais transações amargaram um resultado ainda pior: o resultado de alterar a carteira inteira mais que duas vezes no ano foi uma redução de 10,3% nos lucros.

Para Benartzi, os movimentos do mercado fogem à exclusiva correção lógica: até a derrota de um time de futebol em uma competição mundial consegue afetar o desempenho do Bolsa. “A maioria das pessoas simplesmente não tem tempo ou know how para identificar ações sobrevalorizadas ou baratas demais”, acredita.

A solução para não cair na tentação de tentar ajustar o timing e sair perdendo também se assenta no pré-comprometimento. Quem conta com a ajuda de um consultor financeiro, por exemplo, pode discutir com muita antecedência a decisão a ser tomada no caso de tombos ou valorizações da ordem de 25%.

Na opinião de Benartzi, balancear o investimento com aplicações conservativas e um pouco mais arriscadas seria o primeiro passo para se resguardar. No caso do mercado afundar, o brasileiro que tiver alocado um bocado do portfólio na renda fixa contará com a garantia de receber os generosos juros pagos pelos títulos do governo, ao invés de perder tudo.

Em segundo lugar, uma componente psicológica que ajuda o investidor a se ater ao plano pré-concebido é a assinatura de um papel que descreva essa estratégia, o que também deve ser feito por seu agente de investimentos. “A formalização não servirá como um contrato legal”, explica Benartzi. “Mas o simples fato de colocar tudo na ponta do lápis ajudará as duas partes a resistirem aos impulsos intuitivos.”

Fonte: Portal Exame

http://exame.abril.com.br/seu-dinheiro/noticias/como-ganhar-na-bolsa-sem-perder-a-cabeca?page=1&slug_name=como-ganhar-na-bolsa-sem-perder-a-cabeca