Archive for the ‘Educação’ Category

Riscos Globais 2012

quinta-feira, outubro 11th, 2012

O relatório Riscos Globais 2012, do Fórum Econômico Mundial, baseia-se em uma pesquisa junto a 469 especialistas de indústrias, governos, universidades e sociedade civil, que examina 50 riscos globais, distribuídos em 5 categorias.

Ao invés de concentrar-se em um único risco empírico, o relatório dá ênfase ao efeito singular de um determinado universo de riscos globais. O exame do conjunto de riscos deste ano levou à identificação de três universos de risco distintos, que representam uma ameaça bastante séria à nossa prosperidade e segurança futuras.

As três áreas de risco descrevem os elos entre uma seleção de riscos globais, sua inter-relação e sua provável evolução ao longo dos próximos 10 anos. As áreas baseiam-se inicialmente em uma análise quantitativa das interconexões identificadas na pesquisa, sendo então aprofundados por uma análise qualitativa realizada por meio de seminários conduzidos pelo Fórum em vários países e discussões de acompanhamento com consultores de projetos.

Caso 1: As sementes da distopia

Distopia, o contrário de utopia, é um lugar onde a vida é repleta de penúria e destituída de esperança. A análise do encadeamento dos diversos riscos globais revela um universo de riscos fiscais, demográficos e sociais que indicam um futuro distópico para boa parte da humanidade. A interação desses riscos pode levar a um mundo onde uma grande parte da população de jovens enfrente níveis elevados e crônicos de desemprego e, ao mesmo tempo, a maior população de aposentados da história torne-se dependente de governos já extremamente endividados. Tanto os jovens como os idosos podem deparar-se com uma defasagem de renda e de habilidades grande o suficiente para ameaçar a estabilidade social e política.

Essa área de riscos sublinha o perigo que poderia surgir caso o declínio nas condições econômicas rompa o contrato social entre o Estado e seus cidadãos. Na ausência de modelos alternativos viáveis, essa situação poderia levar a economia global para uma espiral descendente, alimentada pelos efeitos adversos do protecionismo, nacionalismo e populismo.

 

Caso 2: Até que ponto nossas salvaguardas são seguras?

Em um mundo cada vez mais complexo e interdependente, a capacidade de administrar os sistemas que fundamentam nossa prosperidade e segurança está se debilitando. A área de riscos relacionada ás tecnologias emergentes, interdependência financeira, esgotamento de recursos e mudanças climáticas expõe a fragilidade das salvaguardas existentes que são as políticas, normas, regulamentos ou instituições que servem de sistema de proteção. Nossas salvaguardas podem não ser mais adequadas à finalidade de gerir recursos vitais e assegurar a ordem nos mercados e a segurança pública.

A interdependência e complexidade inerentes à globalização exigem a mobilização de um grupo mais amplo de intervenientes para estabelecer salvaguardas mais flexíveis, capazes de aprimorar respostas eficazes e oportunas aos riscos que vierem a surgir.

 

Caso 3: O lado negro da conectividade

O impacto do crime, terrorismo e guerra no mundo virtual ainda não igualaram seus efeitos sobre o mundo real, mas há temores de que isso possa mudar. A hiperconectividade é uma realidade. Com mais de cinco bilhões de celulares, conectividade à Internet e aplicativos na nuvem, a vida quotidiana está mais vulnerável às ameaças cibernéticas e ao caos digital. Nesta área de riscos globais, destaca-se o descompasso dos incentivos para enfrentar esse desafio global. Hoje, a segurança online é considerada um bem público, sugerindo a necessidade urgente de estimular um envolvimento maior do setor privado para reduzir a vulnerabilidade dos sistemas essenciais de tecnologia da informação.

Apesar de, no passado, existir a necessidade de recursos materiais e humanos expressivos para exercer influência geopolítica ou geoeconômica, com o deslocamento do poder do mundo físico para o mundo virtual as fronteiras tornaram-se mais permeáveis. Um espaço digital saudável é necessário para assegurar a estabilidade da economia mundial e o equilíbrio do poder.

 

Relatório especial sobre o Japão

Esta seção do relatório apresenta uma análise especial das importantes lições aprendidas com o terremoto e tsunami de 2011 e a crise nuclear que se seguiu em Fukushima, no Japão. Ela se concentra no papel da liderança, nos desafios da comunicação eficaz nesta era da informação e em modelos de negócios mais resilientes para responder á crises de magnitude incomum.

 

50 riscos globais

Estruturada em uma perspectiva de 10 anos, a pesquisa apreendeu o impacto percebido, a probabilidade e o inter-relacionamento dos 50 riscos globais predominantes. As Figuras 4 e 5 mostram, respectivamente, as classificações agregadas dos cinco riscos classificados na pesquisa deste ano como apresentando a maior percepção de probabilidade e impacto potencial ao longo dos próximos 10 anos. (O Apêndice 2 traz um detalhamento completo das respostas da pesquisa).

Conforme explicado na seção sobre metodologia, o relatório 2012 introduz o conceito de Centros de Gravidade: – os riscos considerados pelos pesquisados como de maior importância sistêmica em cada uma das cinco categorias de risco. No planejamento relativo a riscos, os centros de gravidade devem servir como pontos focais para nortear as intervenções estratégicas. São os seguintes os Centros de Gravidade de 2012:

  • Desequilíbrios fiscais crônicos (Econômico)
  • Emissões de gases de efeito estufa (Ambiental)
  • Falência da governança global (Geopolítico)
  • Crescimento demográfico insustentável (Social)
  • Falência de sistemas fundamentais (Tecnológico)

 

Finalmente, o relatório também antecipa os Fatores X, que demandam pesquisa adicional. A noção de um inverno vulcânico, a epigenética e mega-acidentes são alguns Fatores X para consideração futura.

Este relatório serve de base de pesquisa para o funcionamento integrado das Redes de Resposta aos Riscos no mapeamento, monitoramento, gerenciamento e mitigação dos riscos globais.

 

Quadro 1: A evolução do cenário de riscos: comparação entre 2011 e 2012

O cenário de riscos neste relatório de 2012 baseia-se em um conjunto refinado e ampliado de 50 riscos, em comparação com 37 em anos anteriores. Isso significa que comparações com o relatório de 2011 não são unívocas; contudo, conforme apresentado no Quadro 1, fica evidente que as preocupações dos pesquisados passaram dos riscos ambientais em 2011 para os riscos socioeconômicos em 2012. Os riscos econômicos substituíram os riscos ambientais como os considerados mais prováveis. Em 2011, os riscos considerados como tendo o maior impacto potencial eram os riscos econômicos e ambientais; em 2012, são os riscos econômicos e sociais.


Envelhecimento populacional avança rapidamente em países de menor renda, que têm menos tempo para se preparar para esse fenômeno

domingo, abril 15th, 2012

O envelhecimento populacional é um fenômeno global que é inevitável e previsível. Ele vai mudar a sociedade em vários níveis e de formas complexas, criando desafios e oportunidades. Por um lado, os idosos já dar um contributo significativo para a sociedade, seja através da força de trabalho formal, através do trabalho informal e voluntariado ou dentro da família. Podemos promover essa contribuição, ajudando-os a manter uma boa saúde e por quebrar as muitas barreiras que impedem a sua participação em curso na sociedade. Por outro lado, no final da vida, muitos idosos terão de enfrentar problemas de saúde e os desafios à sua capacidade de permanecer independente. Precisamos resolvê-los também, e fazê-lo de uma forma que é acessível e sustentável para as famílias e a sociedade.

O Brasil e outros países de menor renda média per capita terão bem menos tempo que as nações européias para se preparar para o envelhecimento de suas populações. O alerta é da Organização Mundial de Saúde (OMS) no estudo divulgado para marcar o Dia Mundial da Saúde – dia 7 de abril.

Clique na imagem para abrir o relatório

Para países como França e Suécia, o envelhecimento da população levou muitos anos. Hoje os países que estão enfrentando a mesma transição muito mais rapidamente. Assim, enquanto a França levou mais de 100 anos para a parcela da população com 65 anos ou mais aumentar de 7% para 14%, países como Brasil, China e Tailândia irão experimentar a mesma mudança demográfica em pouco mais de 20 anos (Figura 3). Isto dá-lhes muito menos tempo para colocar a infra-estrutura para atender as necessidades dessa população.

O principal desafio é estabelecer sistemas de saúde que consigam, efetivamente, prevenir e tratar doenças crônicas comuns na terceira idade, como problemas cardíacos, derrame, demência, perda de visão e audição.

A longevidade também será maior: em 2050, o mundo terá aproximadamente 400 milhões de pessoas com 80 anos ou mais. Cem anos antes, em 1950, esse grupo tinha só 14 milhões de pessoas.

Daniel Kahneman: Tenha cuidado com a ‘visão de dentro’

domingo, janeiro 29th, 2012

Achei interessando a visão do professor Daniel Kahneman sobre o que ele chama de ‘visão de dentro’, até então situações parecidas eu costumo abordar como estar envolvido com o problema, o que normalmente ocorre é que quando estamos dentro de um problema não conseguimos olhar de fora e ver alternativas e possíveis soluções. Segue abaixo o texto do artigo publicado no side da consultoria Mckinsey no link.


Daniel Kahneman: Tenha cuidado com a ‘visão de dentro’

Em um trecho de seu novo livro, Pensamento, Rápido e Lento, o Prêmio Nobel recorda como uma abordagem de previsão focada internamente uma vez o levou a seguir um mau caminho, e por que uma perspectiva externa pode ajudar os executivos a fazer melhor.

Na década de 1970, convenci alguns funcionários do Ministério Israelense de Educação da necessidade de um currículo para ensinar julgamento e tomada de decisão em escolas de ensino médio. A equipe que eu montei para conceber o currículo e escrever um livro texto incluíam vários professores experientes, alguns dos meus alunos de psicologia, e Seymour Fox, então diretor da Escola da Universidade Hebraica de Educação e especialista em desenvolvimento curricular.

Depois dos encontros todas as tardes de sexta-feira, por cerca de um ano, nós tínhamos construído um esboço detalhado do programa, escrito um par de capítulos, e executado algumas poucas aulas de exemplo. Todos nós sentimos que tínhamos feito um bom progresso. Então, como estávamos discutindo procedimentos para estimar quantidades incertas, um exercício que me ocorreu. Pedi a todos que anotassem sua estimativa de quanto tempo levaríamos a apresentar um projeto acabado do livro didático para o Ministério da Educação. Eu estava seguindo um procedimento que já planejava incorporar em nosso currículo: a maneira correta de obter informações de um grupo não é iniciando com uma discussão pública, mas pela coleta confidencial do julgamento de cada pessoa. Eu coletei as estimativas e anotei os resultados no quadro. Elas foram estritamente centradas em torno de dois anos: o menor fim foi um ano e meio, e o fim mais alto em dois anos e meio.

A desconexão chocante

Então eu me virei para Seymour, nosso especialista em currículo, e perguntei se ele poderia pensar em outras equipes semelhantes a nossa, que haviam desenvolvido um currículo a partir do zero. Seymour disse que poderia pensar em um bom número, e que estava familiarizado com os detalhes de várias. Pedi-lhe para pensar nessas equipes quando elas estavam no mesmo ponto do processo como que nós. Quanto tempo demoraram para concluir os seus projetos de livros didáticos?

Ele ficou em silêncio. Quando ele finalmente falou, pareceu-me que ele estava tímido, envergonhado por sua própria resposta: “Você sabe, eu nunca percebi isso antes, mas na verdade nem todas as equipes em um estágio comparável ao nosso concluíram sua tarefa. Uma fração substancial das equipes acabou por não terminar o trabalho.”

Isso era preocupante, nós nunca tinha considerado a possibilidade de que poderíamos falhar. Com minha ansiedade crescendo, perguntei o quão grande ele estima que era esta fração. “Cerca de 40 por cento”, disse ele. Até agora, uma nuvem de tristeza estava caindo sobre o quarto.

“Aqueles que terminaram, quanto tempo demorou?”

“Eu não me lembro de qualquer grupo que terminou em menos de sete anos”, disse Seymour, “nem que levou mais de dez anos.”

Eu segurei um chapéu de palha: “Quando você compara as nossas habilidades e recursos com os dos outros grupos, o quanto bom nós somos? Como você classificaria nós em comparação com essas equipes? ”

Seymour não hesitou muito tempo.

“Estamos abaixo da média”, disse ele, “mas não muito.”

Isso veio como uma completa surpresa para todos nós, incluindo Seymour, cuja estimativa prévia tinha sido bem dentro do consenso otimista do grupo. Antes de eu abordá-lo, não houve nenhuma conexão em sua mente entre o seu conhecimento da história de outras equipes e sua previsão do nosso futuro.

Deveríamos ter parado naquele dia. Nenhum de nós estava disposto a investir mais seis anos de trabalho em um projeto com uma chance de 40 por cento de fracasso. No entanto, embora devamos ter percebido que não era razoável perseverante, o aviso não forneceu imediatamente uma razão convincente para parar. Depois de alguns minutos de debate desconexo, reunimo-nos e continuamos como se nada tivesse acontecido. Diante de uma escolha, nós desistimos da racionalidade e não do empreendimento.

O livro foi concluído oito anos mais tarde. Neste tempo, eu já não estava vivendo em Israel e fazia tempo que não fazia mais parte da equipe que terminou a tarefa depois de muitas mudanças inesperadas e imprevisíveis. O entusiasmo inicial para a idéia no Ministério da Educação tinha diminuído e o livro texto nunca foi usado.

Por que a visão de dentro não funcionou

Este episódio embaraçoso continua a ser uma das experiências mais instrutivas da minha vida profissional. Eu tinha tropeçado em uma distinção entre duas abordagens profundamente diferentes para a previsão, que Amos Tversky e eu mais tarde rotulados a visão de dentro e a visão de fora.

A visão de dentro é o que todos nós, incluindo Seymour, espontaneamente adotamos para avaliar o futuro do nosso projeto. Estamos focados nas nossas circunstâncias específicas e procuramos por evidências em nossas próprias experiências. Tínhamos um plano esboçado: sabíamos quantos capítulos que íamos escrever, e tivemos uma idéia de quanto tempo ele tinha nos levado para escrever os dois que já tínhamos feito. Os mais cautelosos no meio de nós provavelmente adicionaram alguns meses como uma margem de erro.

Mas extrapolando foi um erro. Nós estávamos prevendo com base nas informações que estavam na nossa frente, mas os capítulos que escrevemos primeiro eram mais fáceis do que outros e nosso compromisso com o projeto foi, provavelmente, no seu pico. O principal problema foi que nós falhamos ao permitir o que Donald Rumsfeld famosamente chamou “ignorar desconhecidos”. Na época, não havia maneira de prever a sucessão de eventos que poderiam levar o projeto a se arrastar por tanto tempo: divórcios, doenças, crises de coordenação com burocracias. Estes eventos não previstos não só retardam o processo de escrita, mas produzem longos períodos durante os quais pouco ou nenhum progresso é feitoem tudo. Claro, o mesmo deve ter sido verdade para as outras equipes que Seymour conhecia. Como nós, os membros dessas equipes não sabiam as probabilidades que eles estavam enfrentando. Há muitas maneiras para um plano falhar, e embora a maioria delas sejam também muito improváveis para se antecipar, a probabilidade de que algo vai dar errado em um grande projeto é alta.

 
Como uma visão externa pode ajudar

A segunda pergunta eu perguntei Seymour dirigiu sua atenção para longe de nós e para uma classe de casos semelhantes. Seymour estima a taxa básica de sucesso em que classe de referência: 40 por cento falha e de sete a dez anos para a conclusão. Sua pesquisa informal não era certamente à altura dos padrões científicos de evidências, mas constituem uma base razoável para uma previsão inicial: a previsão você faz sobre um caso se você não sabe nada, exceto a categoria a que ele pertence. Esta deve ser a âncora para ajustes. Se você é convidado para adivinhar a altura de uma mulher e tudo o que você sabe é que ela mora em Nova York, por exemplo, a sua previsão inicial e o seu melhor palpite será baseado na altura média das mulheres na cidade. Se você está agora com um caso específico de informações, que o filho da mulher é o pivô da sua equipe de basquete da escola, você deve ajustar a sua estimativa. Seymour na comparação de nossa equipe com outras sugeria que a previsão do nosso resultado foi um pouco pior do que a previsão inicial, que já era ameaçadora.

A precisão espetacular da previsão da visão de fora no nosso caso específico foi certamente um acaso e não deve contar como evidência para a validade da visão de fora. No entanto, o argumento para a visão de fora deve ser feita em termos gerais: se a classe de referência é adequadamente escolhida, a visão de fora vai dar uma indicação do número/intervalo. Ele pode sugerir, como aconteceu no nosso caso, que as previsões da visão de dentro não estão nem perto.


Sobre o Autor
Daniel Kahneman é professor emérito de psicologia e relações públicas no Woodrow Wilson da Universidade de Princeton Escola de Assuntos Públicos e Internacionais. Ele foi agraciado com o Prêmio Nobel 2002 em Ciências Econômicas pelo seu trabalho seminal na teoria do prospecto, que desafia o modelo racional de julgamento e tomada de decisão. Este artigo é um trecho editado a partir de seu novo livro, Pensamento, Rápido e Lento, publicado pela Farrar, Straus e Giroux (EUA), Doubleday (Canadá), e Lane Allen (Reino Unido). Copyright © 2011 por Daniel Kahneman. Todos os direitos reservados.

7 pensadores que todo investidor deve conhecer

domingo, dezembro 4th, 2011

Especialistas em finanças indicam nomes inspiradores até para os investidores não profissionais

Julia Wiltgen, de Exame.com

Nassim Taleb

Sean Gallup/Getty Images

O trader matemático Nassim Nicholas Taleb é, sobretudo, um cético. Autor de dois livros importantes sobre gestão de riscos – “Iludido pelo acaso” e “A lógica do Cisne Negro” – o probabilista libanês ensina importantes lições sobre a ação do acaso sobre os mercados. Sua mensagem funciona como verdadeiro “chá de realidade”, principalmente para quem pensa que pode ser possível prever para onde vai o mercado.

Em seu primeiro livro “Iludido pelo acaso”, Taleb expõe sua preferência por lucrar a partir de eventos altamente improváveis, os quais ele chama de “cisnes negros”. A base da lógica do cisne negro é a visão falsificacionista do não tão acessível Karl Popper, que propõe que não é possível ter certeza de que uma teoria é verdadeira, apenas comprovar que ela é falsa. Ou seja, toda teoria válida simplesmente não foi provada falsa ainda.

Embora trabalhe com derivativos, Taleb ensina uma importante e universal lição: é preciso aceitar que a sorte tem mais influência nos mercados e na vida do que as pessoas imaginam. Perdas sempre vão ocorrer, mas o mais importante é tentar se proteger de eventos desastrosos, ainda que improváveis. Pois o fato de um evento ser raro ou nunca ter acontecido não significa que não vai acontecer.


Peter L. Bernstein

Reprodução

Para entender a lógica do mercado, um bom primeiro passo é entender o risco e a atuação humana sobre ele. Nesse sentido, a obra do historiador econômico Peter L. Bernstein é essencial. Seu livro mais célebre, “Desafio aos deuses”, não é propriamente sobre a bolsa de valores, mas seu texto romanceado e agradável consegue acessar mesmo os leigos, sem perder a relevância para os profissionais da área de finanças.

Nele, Bernstein discorre sobre a história do estudo do risco partindo da antiguidade clássica, quando o homem acreditava cegamente que os deuses comandavam completamente o seu destino. Ou seja, por mais que alguém se esforçasse, só aconteceria o que fosse da vontade de deuses, guiados por desejos um tanto mundanas. Contudo, a partir do momento em que o homem passou a tentar controlar o risco, desafiou o conceito de destino. O estudo da estatística fez o ser humano enxergar que existe uma dose de livre-arbítrio que torna o acaso menos incerto, ajudando o homem a medir e até controlar um pouco os riscos.


George Soros

Spencer Platt/Getty Imagens

O bilionário George Soros não é apenas o megainvestidor filantropo que ficou conhecido como “o homem que quebrou o Banco da Inglaterra” ao apostar contra a libra esterlina em 1992. A todos esses predicados se junta também uma veia filosófica que o levou a ser admirado até pelos que não admiram ninguém, como Nassim Taleb. Assim como ele, Soros também foi fortemente influenciado por Karl Popper e sua teoria da Sociedade Aberta – uma sociedade onde nenhuma verdade é permanente, o que permitiria o surgimento de contra-ideias. Para Soros, as sociedades abertas são as democracias onde as diferentes opiniões coexistem e o questionamento é permanente.

Em seus escritos, Soros suporta a ideia das finanças modernas de que os mercados não são totalmente eficientes e racionais, propondo a teoria da reflexividade. Para ele, a atuação pouco racional dos investidores nos mercados, bem como suas percepções imperfeitas, são capazes de mudar os fundamentos da economia. Essas ideias são bem descritas no livro “O novo modelo dos mercados financeiros”, que explica os motivos que levam às crises econômicas. A obra traz ainda uma descrição detalhada de como o Soros Fund acompanhou e reagiu à crise dos subprime.


Benjamin Graham

Reprodução

O guru de Warren Buffett é leitura obrigatória não só para os profissionais do mercado financeiro, mas para qualquer pessoa que queira tornar-se um investidor de renda variável minimamente consciente. Morto em 1976, Graham é considerado o pai da profissão de analista de investimentos e do investimento de valor, que se trata de investir apenas em empresas negociadas abaixo de seu valor real. O economista foi o primeiro a defender o estilo de comprar ações de empresas sólidas, com ótimas perspectivas de geração de caixa em momentos de estresse do mercado para mantê-las no portfólio por longos períodos de tempo.

Com 60 anos de experiência no mercado financeiro, o economista deixou dois clássicos da análise fundamentalista: “Security Analysis”, escrito em 1934 em parceria com David Dodd e sem tradução para o português, e “O investidor inteligente”, escrito em 1949 e considerado por Warren Buffett seu livro de cabeceira. O problema dessas obras é que elas foram escritas para a realidade americana, sendo necessário recorrer a uma obra nacional para entender os fundamentos da contabilidade brasileira, como o clássico “Análise de balanços”, de Sérgio de Iudícibus.


Warren Buffett

Chip Somodevilla/Getty Imagens

O investidor mais aclamado e citado de nosso tempo não é um autor, mas aquele sobre quem os autores escrevem. À frente de sua Berkshire Hathaway, o bilionário tornou-se uma lenda ao fazer fortuna baseando seu estilo de investir em princípios sólidos: comprar ações baratas de empresas sólidas, que ainda estarão em pleno vapor dali a alguns anos, em ramos maduros e cujos negócios compreende perfeitamente. Carismático e levemente excêntrico, Warren Buffett rechaça aplicações especulativas, pretende doar praticamente toda a sua fortuna para a caridade e defende impostos mais altos para os mais ricos. Já octogenário, o “oráculo de Omaha” pode ainda se orgulhar de ser fiel a seus valores, exaustivamente repetidos e reproduzidos pelos meios de comunicação. Uma boa leitura para conhecer seu pensamento é sua biografia “A bola de neve: Warren Buffett e o negócio da vida”, de Alice Schröeder.


Robert A. Haugen

Reprodução

Bob Haugen, como é mais conhecido, foi um dos pioneiros dos investimentos quantitativos e da teoria de que os mercados são inerentemente ineficientes – isto é, os preços das ações nem sempre refletem o risco e a lucratividade potencial de uma empresa. Em seus 30 anos de vida acadêmica, o economista publicou quinze livros dedicados às finanças modernas, corrente que defende que os investidores não baseiam suas decisões em critérios necessariamente racionais.

Os fundamentos das finanças modernas estão compilados em basicamente dois de seus livros, ambos sem tradução para o português: “Modern Investment Theory” e “The New Finance”. Neste último, o economista interpreta uma série de estudos estatísticos e conclui que os investidores podem lucrar a partir dos padrões detectados de ineficiência dos mercados – basicamente expectativas acima ou abaixo do que aquilo que de fato ocorre com os resultados das companhias. Já em “Os segredos da bolsa” – livro mais técnico, porém traduzido para o português – Haugen ensina como prever os retornos das ações com seus modelos de fator de risco e de retorno esperado, a fim de montar uma carteira de baixo risco, com papéis de empresas financeiramente saudáveis e de boa liquidez.


Richard Thaler

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Ainda no campo das finanças modernas surgiram as Finanças Comportamentais. Um de seus precursores é Richard Thaler, professor da Universidade de Chicago, autor de uma série de livros sobre o tema. O economista também organizou e editou a obra “Advances in Behavioral Finances”, que compila, em seus dois volumes, artigos de diversos especialistas no ramo, inclusive dele mesmo, como Robert Schiller e Shlomo Benartzi.

As finanças comportamentais se apoiam no estudo da psicologia para dar suporte à tese de que os mercados não são totalmente eficientes e racionais. O ramo descreve uma série de comportamentos irracionais dos investidores, tais quais o “efeito manada” (tendência a seguir o comportamento da marioria) e o “fenômeno da saliência” (tendência a dar muito peso a um fato de pouca importância apenas porque ele é muito evidente). Além de ter sido um dos pais dessa escola de pensamento, Thaler também propõe o chamado “paternalismo liberal”, defendendo que o Estado deveria orientar em alguma medida as decisões econômicas dos cidadãos, a fim de prever crises, mas ainda assim preservando a liberdade de escolha.

Há também psicólogos estudando as finanças comportamentais e expandindo as teses sobre a irracionalidade das decisões humanas para outros campos da vida. É o caso do israelense Dan Ariely, que tem dois livros traduzidos para o português: “Previsivelmente irracional” e “Positivamente irracional”. No Brasil já existem bons trabalhos publicados por Vera Rita de Mello Ferreira, Jurandir Macedo e Aquiles Mosca.

Fonte: Portal Exame

http://exame.abril.com.br/seu-dinheiro/acoes/noticias/os-pensadores-que-todo-investidor-deve-conhecer

Resiliência pode ser medida e treinada

quarta-feira, novembro 23rd, 2011

Por Rafael Sigollo | De São Paulo

Paulo Sabbag, da FGV, criou a primeira escala nacional para avaliar a resiliência

O Século XXI mal começou e já foi marcado por grandes crises econômicas, catástrofes naturais, transformações políticas, mudanças sociais e reestruturações no mercado de trabalho. A competência mais importante para os tempos modernos, portanto, é a resiliência. A boa notícia é que é possível aprender e desenvolver essa característica. Essa é a opinião de Paulo Yazigi Sabbag, professor da Fundação Getulio Vargas – Eaesp e idealizador da primeira escala nacional para avaliar o nível de resiliência de profissionais, a ERS (Escala de Resiliência Sabbag).

O termo é oriundo da engenharia e serve para descrever a capacidade e o tempo que um material leva para se recompor – como uma mola, que se deforma ao sofrer pressão e retorna à posição anterior quando essa força cessa. Posteriormente, a psicologia se apropriou desse conceito para descrever a habilidade de um indivíduo de se recuperar de traumas, perdas e adversidades.

Hoje, o tema tem destaque entre especialistas em recursos humanos. “As empresas buscam profissionais capazes de se adaptar a diferentes cenários, de responder rapidamente e de suportar a pressão”, afirma. De acordo com um estudo realizado pelo professor com alunos graduados no curso a distância de administração da FGV, 16% dos profissionais apresentaram resiliência baixa, 40% alta e 44% moderada. Foram mais de 1.500 questionários validados, provenientes de 61 cidades brasileiras.

A escala relaciona nove fatores inerentes à resiliência: autoeficácia, solução de problemas, temperança, empatia, proatividade, competência social, tenacidade, otimismo e flexibilidade mental. Com o teste, é possível descobrir quais os pontos mais fortes e o os mais fracos do profissional e trabalhá-los separadamente. “O mais crítico é a autoeficácia, que está associada à autoconfiança e a autoestima. São crenças muito profundas e enraizadas no indivíduo”, explica.

Dentre os que apresentaram resiliência moderada, foi possível detectar dois arquétipos: o masculino, que consegue controlar melhor as emoções e se sobressai em tenacidade e solução de problemas, e o feminino, que apresenta melhor pontuação em quesitos como empatia e articulação de apoio social, perdendo na questão temperança, que pode ser entendida como “sangue frio”.

Na opinião de Sabbag, a resiliência não deveria ser usada como filtro em um processo seletivo, uma vez que pode ser desenvolvida com as ferramentas adequadas – embora a grande maioria dos recrutadores e especialistas em RH prefira pessoas que apresentam naturalmente essa característica.

O professor ressalta que somos resilientes desde que nascemos. Uma criança de dois anos, por exemplo, recupera-se rapidamente de um tombo e não fica remoendo problemas ou mágoas. Além disso, ela é curiosa, proativa, tem empatia com animais e seres humanos. “Isso é necessário para o nosso bom desenvolvimento. Quando a vida progride, no entanto, as emoções se tornam mais complexas, ficamos mais vulneráveis a perdas e mais abalados com as derrotas.”

Sabbag ressalta que, por serem formadas por indivíduos, empresas e sociedades também podem se tornar mais resilientes. Organizações transparentes, preocupadas com a ética e que têm líderes admirados, canais de comunicação desenvolvidos, vínculos com a comunidade e valores bem definidos, por exemplo, conseguem se recuperar de crises mais facilmente. “Elas conseguem reagir rapidamente, aprender com o ocorrido e fazer as coisas voltarem ao normal sem grandes danos, restabelecendo seu valor de mercado, sua imagem e sua credibilidade”, afirma.

O Japão, por sua vez, é um bom exemplo de sociedade com alta resiliência – basta analisar como o país se comportou diante do terremoto seguido de tsunami em março. “Existe um esforço conjunto e imediato de todos para controlar e reverter a situação. Para isso, é necessário ter instituições sólidas e envolvimento do governo. Os fatores são mais sistêmicos e complexos”, explica.

Os nove fatores da Escala de Resiliência Sabbag

Característica

Descrição

Autoeficácia Crença na própria capacidade de organizar e executar ações requeridas para produzir resultados desejados. Associada à autoconfia, transforma-se em “combustível” para a proatividade e a solução de problemas

 

Solução de problemas Característica dos agentes de mudança, indivíduos equipados para diagnosticar problemas, planejar soluções e agir, sem perder o controle das emoções. Aliada à proatividade, tenacidade e flexibilidade social, mobiliza para a ação, contrapondo-se à postura de idealizar positivamente o futuro

 

 Temperança Está associada ao controle da impulsividade. Significa maior capacidade de regular emoções com flexibilidade, mantendo a serenidade (ou a “frieza”) em situações difíceis ou de pressão
 Empatia Habilidade básica e promotora tanto da competência social quanto da solução de problemas. Significa compreender o outro a partir do quadro de referência dele
 Proatividade Está associada a desafios, a conviver com incertezas e ambiguidades. Refere-se à propensão a agir e à busca de soluções novas e criativas. Reativos tendem a esperar pelos impactos de adversidades, enquanto os proativos tomam iniciativas
Competência social O apoio externo diminui sintomas de estresse e reduz a vulnerabilidade de indivíduos submetidos a condições adversas. Considera-se não só a abertura a receber apoio de outros, mas a busca proativa e flexível de apoios (flexibilidade social)
Tenacidade Está relacionada positivamente ao enfrentamento ativo transformacional e negativamente ao enfrentamento regressivo, à negação
Otimismo O otimismo se alia à competência social e à proatividade, tendo por base a autoeficácia
Flexibilidade mental Está relacionada a uma maior tolerância à ambiguidade e a uma maior criatividade. O pessimismo faz com que o indivíduo de baixa resiliência insista teimosamente em cursos de ação que não se mostram efetivos. Já o resiliente, em oposição, é flexível: pensa em opções, age e, se a ação não é efetiva, escolhe outra opção e persiste

 

Fonte: Paulo Yazigi Sabbag, FGV

Fonte: Jornal Valor Econômico – 23/11/2011 – página D10

Aplicativos agora substituem professores

sexta-feira, novembro 18th, 2011

Por Stephane Banchero e Stephanie Simon | The Wall Street Journal

Era quase hora do almoço numa quinta-feira recente, e o estudante Noah Schnacky não estava nem um pouco a fim de fazer a aula de álgebra. Então, não fez.

Ele olhou para a tela de um computador observando as lições que tinha que terminar naquela semana para sua escola – localizada na Flórida mas inteiramente on-line.

Noah – que está na 9a série, o equivalente americano ao primeio ano do ensino médio – clicou no curso de estudos globais. Um longo artigo sobre a escassez de recursos apareceu. Ele deu uma lida rápida e avançou para o teste, clicando alternadamente no artigo e nas questões de múltipla escolha, até que ficou inquieto e foi para a cozinha fazer um lanche.

Noah terminaria o teste mais tarde, dentro do prazo de três horas que reserva todos os dias para a escola. Ele também ouviu a maior parte de uma palestra on-line dada por sua professora de inglês; ele podia ouvi-la, mas não vê-la enquanto ela explicava o conceito de protagonista para 126 alunos da 9a série que estavam conectados on-line em vários pontos do Estado. Ele nunca chegou a fazer a aula de álgebra.

Allison, irmã de Noah, entretanto, passou a maior parte de seu dia na cozinha escrevendo um ensaio, seguindo as instruções entregues em um vídeo on-line. Allison descobriu um novo apreço por história. Na sua antiga escola, diz ela, o professor ficava à lousa ditando conteúdo, e história era “a matéria mais chata do mundo”. Agora, graças aos vídeos que assistiu sobre o antigo Egito, ela adora.

Numa radical reconsideração do que significa ir à escola, Estados e municípios através dos Estados Unidos estão lançando escolas públicas pela internet que permitem aos estudantes, do jardim da infância ao último ano do ensino médio, ter algumas, ou todas, as aulas em sua própria casa. Outros Estados e municípios estão promovendo em escolas físicas um estilo de educação que é em sua maior parte baseado em cursos individuais por computador.

Nos últimos meses, o Estado de Virginia autorizou 13 novos cursos on-line. A Flórida começou a requerer que todos os estudantes de escolas públicas de high school, o ensino médio americano que é cursado em quatro anos, tenham pelo menos uma aula on-line. Idaho em breve vai requerer que sejam duas. Em Geórgia, um novo aplicativo permite que os estudantes baixem cursos inteiros em seus iPhones e BlackBerrys.Atualmente, 30 Estados permitem que seus estudantes tenham cursos pela internet.

Em todos EUA, cerca de 250.000 estudantes estão matriculados em tempo integral em escolas virtuais, 40% a mais do que nos últimos três anos, de acordo com a Evergreen Education Group, uma empresa de consultoria que trabalha com escolas on-line. Mais de 2 milhões de alunos têm pelo menos uma aula pela internet, segundo a International Association for K-12 Online Learning, uma associação de classe especializada em educação virtual (“K-12” é a sigla em inglês para “pré até o fim do ensino médio”).

Apesar de alguns Estados e municípios administrarem suas próprias escolas on-line, muitos contratam corporações e terceirizam esse serviço. Essas companhias contratam professores, fornecem currículo, monitoram o desempenho dos alunos – e fazem lobby para expandir o ensino público pela internet.

É tudo parte de uma explosão de experimentação na educação pública nos EUA, alimentada em parte pela crescente pressão orçamentária, pela insatisfação dos pais com as escolas de seus filhos e pelo fato de mesmo alunos de alto desempenho não conseguirem ficar no mesmo nível de seus pares em outros países industrializados. Nas maiores cidades dos EUA, metade de todos os estudantes do ensino médio nunca vai se formar.

Defensores do aprendizado on-line dizem que ele pode economizar dinheiro público, oferecer currículos feitos sob medida para cada estudante e dar aos pais mais escolhas na educação.

Na Califórnia, a Rocketship Education, uma rede de escolas que combina um currículo on-line com cursos em sala de aula e serve principalmente a crianças pobres e de minorias, tem produzido resultados de testes no mesmo nível de algumas das escolas mais ricas do Estado. Estudantes da Rocketship passam até a metade de cada dia letivo em laboratórios de informática jogando games de alfabetização e matemática que se ajustam ao seu nível de habilidade.

Na Southwest Learning Centers, uma rede de escolas no Estado de Novo México, os resultados de testes padronizados rotineiramente superam as médias estaduais e locais, de acordo com dados fornecidos pelas escolas. Os alunos completam a maior parte das aulas on-line, mas vão à escola para obterem apoio dos professores e participarem de alguns trabalhos práticos. Uma escola da rede recebeu recentemente um prêmio estadual pela forte pontuação de seus alunos em testes de admissão para a universidade.

Alguns Estados, no entanto, descobriram que estudantes matriculados em tempo integral nas escolas virtuais obtêm pontuação significativamente mais baixa em testes padronizados, e têm um progresso acadêmico mais lento de ano para ano, do que seus pares. Alguns defensores da educação virtual em tempo integram dizem que os resultados são decepcionantes, em parte porque alguns dos estudantes enfrentaram dificuldades em escolas tradicionais, e já começam com testes abaixo da média em uma ou mais disciplinas.

As escolas experimentais atraem um grupo muito diversificado. Alguns alunos já foram escolarizados em casa, alguns são alunos de alto desempenho e outros têm horários irregulares devido a treinamento esportivo ou problemas de saúde. Muitos são alunos comuns que não prosperam em escolas tradicionais, ou cujos pais querem protegê-los da intimidação e pressão dos colegas. Eles, no entanto, têm menos probabilidade de serem pobres ou ter necessidades especiais do que a população da escola pública tradicional, de acordo com dados oficiais de escolas estaduais e de escolas on-line.

A quantidade de interação com o professor varia de escola para escola. Nas escolas on-line, os instrutores respondem a perguntas por email, telefone ou ocasionais videoconferências; os estudantes, muitas vezes, se reúnem com colegas e professores para viagens opcionais e durante os exames do Estado. A Southwest Learning Centers exige apenas 14 horas por semana de tempo em sala de aula e permite que os alunos façam sua própria agenda, decidindo quando querem ir à escola. E, em Miami, os alunos da iPrepAcademy frequentam salas de aula “de fluxo livre”, sem portas ou paredes divisórias, mas com uma abundância de cadeiras do tipo “beanbag” e sofás. Os professores dão palestras curtas e oferecem ajuda individualizada, mas a maior parte das aulas é de auto-aprendizado e on-line.

“Se parece estranho, é porque é”, diz Alberto Carvalho, superintendente das escolas de Miami. Mas ele não vê qualquer utilidade em forçar a geração iPod a se adaptar a um modelo de sala de aula que pouco mudou em 300 anos.

O esforço para reinventar a escola tem também desencadeado um confronto explosivo com sindicatos de professores e defensores da educação tradicional. Em parte, é uma divisão filosófica. Os críticos dizem que as escolas virtuais transformam a educação em uma busca amplamente utilitária: aprenda o conteúdo, clique para seguir em frente, aprenda o conteúdo, clique para seguir em frente. Eles lamentam a falta de discussão, temem que as crianças não serão desafiadas a enfrentar riscos e preocupam-se sobre a desvalorização de habilidades mais suaves aprendidas em sala de aula, como cooperação, tolerância e autocontrole.

“As escolas ensinam às pessoas as habilidades de cidadania, como se relacionar com outros, como argumentar, ser razoável, deliberar, como tolerar as diferenças”, diz Jonathan Zimmerman, professor de história da educação da Universidade de Nova York.

Mas o ensino virtual tem muitos defensores poderosos. Rupert Murdoch, diretor-presidente da News Corp., dona do The Wall Street Journal, é um deles. No ano passado, a News Corp. comprou 90% da Generation Wireless, uma empresa de educação tecnológica que vende computadores portáteis a professores para ajudar a monitorar o desempenho dos alunos.

E muitos pais e alunos que já experimentaram a educação on-line também acreditam em seus benefícios. Noah e Allison Schnacky inicialmente escolheram a Florida Virtual por sua flexibilidade. Ambos são aspirantes de ator que viajam com frequência. Noah diz que gosta de expressar seus pensamentos no teclado, sozinho no seu quarto, em vez de em uma classe lotada. Mas há desvantagens também. Depois de ficar para trás em álgebra, tentou marcar um telefonema de 15 minutos com sua professora. Ela estava com a agenda totalmente ocupada por um mês. A Florida Virtual diz que foi uma anomalia e que a maioria dos alunos pode obter esse tipo de assistência em três dias. Os professores também respondem a e-mails diariamente.

No final, a escolaridade virtual “se resume ao que você faz dela”, diz Rosie Lowndes, uma professora de estudos sociais da Georgia Cyber-Academy. Crianças que trabalham em estreita colaboração com os pais ou os professores vão bem, diz. “Mas, basicamente, deixar uma criança educar-se por conta própria não vai ser uma boa experiência educacional”. O computador, diz ela, não pode fazer isso sozinho.

Fonte: Jornal Valor Econômico – 18/11/2011 – página B8

Nave leva jogos para a sala de aula

quarta-feira, novembro 9th, 2011

Por Moacir Drska | De São Paulo

Mateus Lacerda de Sá Teles é um dos alunos do colégio que planeja colocar seu produto no mercado

Prestes a completar o terceiro ano do ensino médio, Mateus Lacerda de Sá Teles, 18, já decidiu o caminho profissional que pretende trilhar. Distanciando-se das dúvidas naturais da idade, ele avisou aos pais que ganhará a vida como desenvolvedor de jogos eletrônicos. Além do sonho na cabeça, o jovem carrega no currículo um bom trunfo: o jogo para computador “Robotic Hero”, criado com outros colegas durante as aulas e intervalos do Colégio Estadual José Leite, no Rio de Janeiro.

“É uma versão beta, mas estamos finalizando o jogo para colocá-lo no mercado”, diz Mateus, a respeito do jogo ambientado em um mundo habitado por robôs e que mistura conceitos de matemática, biologia, geografia e física.

Longe de ser uma exceção, o caso de Mateus é um dos exemplos produzidos no colégio carioca, que desde 2008 abriga uma das unidades do Núcleo Avançado em Educação (Nave). O projeto do Oi Futuro – instituto do grupo Oi – conta ainda com o Centro de Ensino Experimental Cícero Dias, escola da rede pública do Recife.

Atualmente, o Nave tem cerca de 900 alunos nas duas unidades. O processo de seleção envolve questões tradicionais e uma avaliação de perfil. Em virtude da procura, os colégios abriram neste ano 5% das vagas disponíveis para alunos de escolas particulares.

Fruto de uma parceria com as Secretarias Estaduais de Educação do Rio de Janeiro e de Pernambuco, o Nave combina a grade tradicional de ensino com cursos de tecnologia, que incluem temas como programação de sistemas, roteiro e multimídia para jogos eletrônicos.

Os professores e alunos têm à disposição recursos como lousas interativas, laboratórios de captação de imagens de alta definição e estúdios de gravação. As aulas de tecnologia são ministradas por profissionais de mercado custeados pelo Oi Futuro. “A ideia é fugir do formato convencional de aulas expositivas, que têm baixa participação dos alunos”, diz George Moraes, vice-presidente do Oi Futuro.

Segundo Moraes, os jogos foram escolhidos como fio condutor da metodologia pelo fato de aproximarem a escola do cotidiano dos alunos. Para ele, a construção dos jogos facilita e reforça o aprendizado de conteúdos das matérias ditas tradicionais. O executivo cita, por exemplo, a possibilidade de usar elementos de texto, história e geografia na produção dos roteiros. A programação, por sua vez, abre caminho para explorar conceitos de matemática e lógica.

O projeto investe na interação entre o corpo docente, para a criação de jogos sob uma abordagem integrada. “Temos o cuidado de passar para os alunos, porém, que não se trata de criar por criar. Os ‘games’ devem ter características que entusiasmem quem for jogá-los”, afirma Moraes.

O Nave busca disseminar o protagonismo entre os alunos, a despeito da profissão escolhida, diz Eduardo Azevedo, coordenador do curso de programação. “A proposta é estimular o empreendedorismo e a proatividade. Nós observamos que eles acabam buscando por conta própria os recursos necessários para dar vida aos projetos”, conta. Ele acrescenta que existem alunos em fase final para colocar jogos à venda em locais como a loja de aplicativos da Apple.

Outro fator importante, destaca Moraes, é o método de avaliação, que abrange notas individuais e coletivas, relacionadas aos projetos criados em grupo. “Alguns alunos têm mais facilidade com programação, outros com roteiro. Como a performance de cada um interfere no todo, eles acabam ajudando uns aos outros”, observa.

Os resultados do projeto estão sendo colhidos. Na edição 2010 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o colégio carioca ficou em 2º lugar entre as 268 escolas da capital ligadas à Secretaria de Educação. “No Rio, o Nave superou a marca de 600 pontos, que é a média aspirada pelo Ministério da Educação para 2026”, diz Moraes. O Centro Experimental de Recife, por sua vez, alcançou a 4ª posição entre as 111 escolas de Recife.

Fonte: Jornal Valor Econômico – 09/11/2011 – página B3

Quem tem curso superior ganha 156% a mais no Brasil

terça-feira, setembro 13th, 2011

A pesquisa sobre remuneração foi liberada pela OCDE. A diferença entre salários de quem tem diploma universitário e quem não tem é maior no país do que em todos os outros 30 pesquisados

Pedro Peduzzi, da Agência Brasil

Sara Haj Hassan/Stock.xchng

O estudo mostra que em média no mundo quem tem formação superior ganha 50% há mais do que quem não tem

Brasília – Investir em uma formação de ensino superior resulta em ganhos futuros. A conclusão faz parte de relatório divulgado hoje (13) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Segundo o documento, no Brasil, ter curso superior resulta em um aumento de 156% nos rendimentos. É o mais alto índice entre todos os 30 países pesquisados.

O estudo aponta que, nos países analisados, em média, um indivíduo que concluiu a educação superior recebe pelo menos 50% a mais do que uma pessoa com ensino médio concluído.

De acordo com a OCDE, no Brasil, 68,2% dos indivíduos que completaram a universidade ou um programa avançado de pesquisa ganham duas vezes mais que a média de um trabalhador. O estudo aponta, ainda, que 30,1% dos brasileiros entre 15 e 19 anos não estão estudando e que, desses, 16,1% estão empregados, 4,3% estão desempregados e 9,7% não estão na força de trabalho.

A população brasileira de 15 a 29 anos e com mais estudo é a que tem menor probabilidade de estar desempregada. Entre a população dessa faixa etária que está fora do sistema educacional, 6,2% dos graduados da educação superior estão desempregados. Na mesma situação, estão 10,2% dos jovens que concluíram o ensino médio e 5,58% dos que não concluíram esse nível de ensino.

A falta de qualificação de nível médio é, de acordo com o estudo, “um sério impedimento para encontrar emprego”. Jovens que não concluem o ensino médio e que não estão estudando estão 21 pontos percentuais menos propensos a encontrar um emprego.

A OCDE avalia que há um “alto nível de vulnerabilidade” na educação brasileira, principalmente entre os estudantes com 15 anos de idade. Cerca de 50% deles apresenta baixa pontuação em leitura. Entre os países que participaram do estudo, a média é 19%.

Além disso, o risco de obter essa pontuação baixa é uma vez e meia maior para estudantes com desvantagem de origem socioeconômica; 1,3 para os meninos em relação às meninas; e 1,3 para estudantes cujos pais têm baixo nível de escolaridade.

O relatório aponta também que, entre 2000 e 2008, o Brasil foi o país que mais aumentou os gastos por aluno da educação primária até o segundo ciclo da educação secundária (ensino médio), equivalente a uma elevação de 121%.

“O mundo reconhece que o Brasil fez, na última década, o maior esforço de investimento na educação básica entre todos os países avaliados [pela OCDE]”, comemorou o ministro da Educação, Fernando Haddad, após participar da abertura de um congresso internacional sobre educação, ocasião em que comentou o relatório.

No entanto, a OCDE disse também que o total do produto nacional investido pelo Brasil em educação continua abaixo da meta da organização. No Brasil, o percentual do Produto Interno Bruto (PIB) destinado à educação cresceu 1,8 ponto percentual, passando de 3,5%, em 2000, para 5,3%, em 2008. A média da OCDE ficou em 5,9% em 2008. Para Haddad, se o país mantiver “o passo dos investimentos”, conseguirá alcançar o percentual dos países ricos.

Fonte: Portal Exame

http://exame.abril.com.br/economia/brasil/noticias/quem-tem-curso-superior-ganha-mais-mostra-estudo

 

A queda do império americano da ciência

segunda-feira, fevereiro 21st, 2011

Os Estados Unidos deixarão de dominar a pesquisa científica no mundo já na próxima década, afirma estudo da Universidade Penn State

EXAME.com

Países como China e Índia terão importância crescente no cenário da pesquisa científica mundial

São Paulo — Uma mudança no cenário da pesquisa científica mundial irá reposicionar os Estados Unidos como um personagem importante, mas não mais como líder dominante. E essa mudança ocorrerá já na próxima década, afirma estudo feito na Universidade Penn State, nos Estados Unidos.

Por outro lado, a análise, apresentada no dia 18 na reunião anual da American Association for the Advancement of Science (AAAS), em Washington, aponta que o país poderá se beneficiar do novo panorama, caso adote políticas para compartilhar o conhecimento com a comunidade científica mundial. “O que está emergindo é um sistema científico mundial no qual os Estados Unidos serão um participante entre muitos outros”, disse Caroline Wagner, professora da Penn State e autora do estudo.

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Segundo ela, a entrada de mais países tem mudado o cenário da pesquisa mundial. De 1996 a 2008, a porcentagem de artigos científicos publicados pelos Estados Unidos em relação ao total mundial caiu 20%. Caroline atribui esse resultado não a uma queda nos esforços de pesquisa no país, mas ao crescimento observado em países como China e Índia.

A mudança principal está entre os chineses, que já ultrapassaram os norte-americanos na publicação de artigos em áreas como ciência natural e engenharia. Se as taxas de crescimento atuais forem mantidas, de acordo com a análise, a China publicará mais que os Estados Unidos em todas as áreas do conhecimento já em 2015.

De acordo com Caroline Wagner, embora a China ainda esteja atrás dos Estados Unidos na qualidade – medida por indicadores como fator de impacto e citações –, a diferença nesse ponto também está diminuindo. A China ainda deverá se tornar o primeiro país em número de cientistas. O estudo aponta que recomendações típicas para estimular a pesquisa, como aplicar mais dinheiro no setor, não serão suficientes para garantir a supremacia científica norte-americana.

No lugar da estratégia tradicional do baixo retorno sobre o investimento, Caroline recomenda que os Estados Unidos passem a adotar uma política mais eficiente de compartilhar o conhecimento ao atrair ao país especialistas que desenvolveram melhores capacidades do que seus colegas norte-americanos em determinadas áreas. Outros países também podem fazer o mesmo com relação aos pesquisadores norte-americanos.

A autora do estudo discute a possibilidade de uma comunidade global nos moldes da “universidade invisível”, termo que deriva do século 17 e que descreve as conexões entre cientistas de disciplinas e locais diversos para criar uma sociedade científica mundial.

Fonte: Portal Exame

http://exame.abril.com.br/tecnologia/ciencia/noticias/a-queda-do-imperio-americano-da-ciencia?page=1&slug_name=a-queda-do-imperio-americano-da-ciencia