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Futuro do real pode depender da ‘senhora Watanabe’

sexta-feira, setembro 30th, 2011

“Mrs. Watanabe” é o apelido dado pelo mercado financeiro aos investidores individuais japoneses, grande parte deles aposentados ou com idade acima dos 50 anos

Fábio Alves, da Agência Estado

SXC.hu

O temor é que a senhora Watanabe, que parece nervosa com os mercados, passe a repatriar em maior volume seu dinheiro para o iene, exacerbando a desvalorização do real

São Paulo – Nem o megainvestidor húngaro George Soros nem Mohamed El-Erian, da Pimco. O que preocupa atualmente os estrategistas de câmbio no Brasil é o que vai fazer a “Mrs. Watanabe”, ou a senhora Watanabe. Esse é o apelido dado pelo mercado financeiro aos investidores individuais japoneses, grande parte deles aposentados ou com idade acima dos 50 anos e que frequentemente fazem suas aplicações pelo computador de casa, mas que movimentam até US$ 20 bilhões por dia, ou cerca de 30% do giro diário total da moeda japonesa, o iene.

O temor é que a senhora Watanabe, que parece nervosa com a turbulência dos mercados globais, passe a repatriar em maior volume seu dinheiro para a segurança do iene, exacerbando a desvalorização do real e de outras moedas de países emergentes. Como reflexo também desses saques, o iene já acumula alta de 12% frente ao real neste mês.

Nos últimos anos, ativos denominados em reais, que oferecem juros muito maiores do que os papéis em iene, passaram a ser um dos destinos favoritos dos investidores individuais, ou de varejo, japoneses. Enquanto um título público japonês com prazo de cinco anos paga juros de 0,35%, um papel do governo brasileiro, como a NTN-F que vence em 2017, paga 12,2% ao ano.

Esses investidores japoneses geralmente escolhem como instrumentos para aplicar dinheiro em moedas estrangeiras os fundos mútuos chamados de Toshin e também os contratos cambiais na bolsa de futuros Tokyo Financial Exchange (TFX). Os fundos Toshin detêm um patrimônio total de US$ 1,1 trilhão, sendo que metade dessa quantia está aplicada em ativos em moedas estrangeiras. São nos fundos Toshin que o real emergiu nos últimos anos como a moeda favorita para as aplicações no exterior pelos investidores individuais do Japão.

“O real é, de longe, a moeda mais popular dos fundos Toshin”, afirmou à Agência Estado o estrategista de câmbio do banco JPMorgan em Tóquio, Tohru Sasaki. Ele estima que os fundos Toshin dedicados à moeda brasileira somam 5 trilhões de ienes (US$ 63,5 bilhões). “Se o real continuar caindo frente ao iene, acredito que mais investidores de varejo japoneses vão vender seus fundos Toshin dedicados a reais”, explicou Sasaki. Além disso, o nível da bolsa japonesa, refletido no índice Nikkei, será um termômetro importante para o apetite de risco do investidor japonês. Se o Nikkei ceder mais ainda, menor será o apetite para ativos de risco, incluindo a moeda brasileira, disse Sasaki. No acumulado do ano até ontem, o índice Nikkei cai 14,93%.

O estrategista de câmbio da corretora japonesa Nomura Securities, Yujiro Goto, disse que, se os investidores de varejo japoneses começarem a vender ativos em moedas estrangeiras em maiores quantias via fundos Toshin nas condições atuais de mercado de baixa liquidez, o impacto sobre as moedas de países emergentes, especialmente o real, será significativo.

“Até o momento, o valor de resgates líquidos desses fundos é ainda relativamente limitado, comparado com o que se registrou depois do Lehman Brothers e do terremoto deste ano”, disse Goto à Agência Estado, de seu escritório em Nova York. A Nomura Securities estima que no mês de setembro os saques líquidos dos fundos Toshin de moeda brasileira alcançam até a semana passada cerca de US$ 600 milhões.

“Muitos analistas e investidores estão acompanhando de perto o fluxo dos fundos Toshin, pois eu tenho recebido muitas perguntas sobre esse fluxo todos os dias”, explicou Goto. “Se as condições dos mercados financeiros globais se deteriorarem e a confiança do consumidor japonês piorar substancialmente, o tamanho dos resgates líquidos desses fundos será muito maior do que temos visto no momento.”

Ao contrário dos contratos futuros na TFX, que exigem o desembolso adicional de dinheiro em razão de chamada de margem pela bolsa, quando há uma reversão repentina no preço para direção contrária às apostas desses investidores os cotistas dos fundos Toshin são mais lentos em liquidarem suas posições. Não há negociação de contratos de derivativos do par iene e real na TFX, o que força esses investidores de varejo “comprarem” o risco da moeda brasileira via os fundos Toshin ou diretamente em contratos futuros como o non deliverable forward (NDF) de reais em outras bolsas.

“Não acho que a ação desses investidores de varejo no Japão seja suficiente para iniciar uma tendência de preços no mercado de câmbio de países emergentes, mas certamente pode exacerbar a correção que estamos observando em muitas moedas”, disse à Agência Estado o estrategista de câmbio do banco ING em Londres, Tom Levinson.

Como os investidores nos contratos futuros negociados na TFX podem sair das posições imediatamente, ao capitularem ao nervosismo crescente em relação aos problemas da economia mundial, a exemplo da crise da dívida soberana da zona do euro, eles acabam servindo como termômetro de aversão ao risco para todo o universo de investidores de varejo no Japão, pois são os mesmos dos fundos Toshin e outros instrumentos financeiros que refletem mais lentamente a mudança de humor dos investidores, explicou Levinson. Dados da TFX até a semana passada, disse Levinson, mostram que, pelo menos nos contratos futuros da bolsa de Tóquio, a senhora Watanabe já abandonou uma moeda: a África do Sul, o rand.

Fonte: Portal Exame

http://exame.abril.com.br/mercados/noticias/futuro-do-real-pode-depender-da-senhora-watanabe?page=1&slug_name=futuro-do-real-pode-depender-da-senhora-watanabe

Como os japoneses estão influenciando a cotação do real

terça-feira, setembro 27th, 2011

Fundos do país asiático também são responsáveis pela recente desvalorização da moeda

Gustavo Kahil, de Exame.com

Japan National Tourism Organization/Divulgação

São Paulo – Há um fator não muito considerado pelo mercado que está influenciando pesadamente o rumo da moeda brasileira nas últimas semanas: a atuação dos investidores japoneses. A “culpa” é dos fundos conhecidos como “double-deckers”, voltados para os aplicadores do país asiático, ressalta um relatório da gestora brasileira Western Asset.

A atuação dos “double-deckers” soma-se aos outros três fatores já bem conhecidos, o aumento da aversão ao risco, a queda inesperada da Selic no final de agosto (de 50 pontos-base) e a expectativa por uma recessão global deflagrada pela crise da dívida soberana dos países europeus.

“Vimos três hipóteses que explicam, mas não explicam o comportamento recente do câmbio. Há um quarto fator, técnico, que por enquanto ainda está sendo discutido apenas nos círculos especializados: a existência dos chamados fundos double-decker”, destaca a Western Asset. Esses fundos assumem posições em mercados de risco (S&P500, Nikkey, Crédito High Yield) e, além disso, compram derivativos de moedas para alavancar os resultados.

Desta forma, o resultado final é a soma do retorno do ativo de risco, mais a valorização da moeda, daí o termo que dá nome aos fundos. “Adivinhe qual a moeda predileta dos japoneses para este tipo de operação? Se você pensou no real, acertou. A moeda brasileira representa cerca de 90% deste tipo de operação, em um estoque avaliado em US$ 60 bilhões”, explica o fundo.

O problema é que com o aumento da aversão ao risco, é possível que os japoneses estejam começando a desmontar essas operações, o que inunda o mercado com reais. “Assim, qualquer movimento de venda mais intenso pode levar ao overshooting [desvalorização excessiva] neste mercado, provocando stop loss em fundos e fazendo com que agentes até o momento sem proteção cambial busquem hedge a qualquer custo”, lembra a Western.

A gestora nota que a posição compra em dólar das empresas cresceu de zero para 2 bilhões de reais em alguns dias, conforme mostra o gráfico acima. “Nos últimos três dias, no entanto, as empresas pararam de buscar hedge, ao passo que os estrangeiros continuaram a vender reais no mercado futuro. Este parece ser um típico movimento de stop loss, provavelmente de fundos estrangeiros”, finaliza.

Fonte: Portal Exame

http://exame.abril.com.br/mercados/noticias/como-os-japoneses-estao-influenciando-a-cotacao-do-real?page=1&slug_name=como-os-japoneses-estao-influenciando-a-cotacao-do-real